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Complexo de Atlas

26 fevereiro 2026 - 14h26

Atlas foi um personagem da mitologia grega, filho de Jápeto e Àsia; um gigante Titã. Foi condenado por Zeus a sustentar o peso do universo sobre seus ombros como castigo por sua rebeldia em querer alcançar o poder supremo, ao lado dos outros “Titãs”, e tomar o Olimpo. O nome Atlas significa “grande montanha” ou “aquele que sustenta”. 

Na área da psicologia foi concebida uma teoria designada como “Complexo de Atlas”, que consiste na tendência instintiva de uma pessoa acumular responsabilidades e tensões em cima dos ombros, ou seja, carregar o mundo nas costas. Não é difícil encontrar indivíduos que sofrem desse mal, que agregam tantas responsabilidades, acabando por padecer de diversos males, como tensão mental, dores no pescoço, nervosismo e insônia, podendo desencadear para um quadro mais grave chamado de “Fantasma do Complexo de Atlas”. 

Entretanto, é no ambiente econômico que encontramos uma variação do “Complexo de Atlas”, motivada pela carga tributária sustentada pela grande maioria dos cidadãos, principalmente os de menor poder aquisitivo. Ludwig Borne (1786 – 1837), escritor e político alemão, disse certa vez que: “Somente os ricos elaboram as leis, somente eles distribuem os impostos, carregados na sua maioria pelos pobres”. Efetivamente, por serem elaboradas por ricos, as leis que versam sobre tributos agregam no seu bojo a insensibilidade de quem desconhece seu peso. É aviltante a forma injusta como são cobrados os impostos no Brasil. Quando adquirimos um produto, no preço final já estão computados todos os tributos. É uma forma indireta de cobrança. Desta maneira, proporcionalmente, quem ganha mais paga menos tributos do que quem ganha menos. Por exemplo, um produto que tenha R$ 100 de tributos, para quem ganha R$ 1.000 representa 10% da sua renda. O mesmo produto, para quem ganha R$ 10.000 representa 1% da renda. 

No Brasil, tem-se tentado mudar essa forma injusta de cobrança de impostos, utilizando, por exemplo, a tributação das grandes fortunas como compensação pela desoneração, mas esse projeto mofa no Congresso, sem prosperar, por motivos óbvios. Desde a Constituição de 1988 já foram apresentados 37 projetos nesse sentido.       

Pesquisa apresentada pelo IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário) mostra que o Brasil está entre os trinta países no mundo com mais elevada carga tributária, porém, com o menor índice de Retorno de Bem Estar (IRBES). É o que menos transforma tributos em benefícios. Ocupamos a 10ª posição no ranking de maior carga tributária, com um percentual de 34 % do PIB (Produto Interno Bruto). Só a título de curiosidade, a Dinamarca é o país com a maior carga (45%), mas tem um dos melhores índices de igualdade e qualidade de vida, sendo um dos mais desenvolvidos do mundo. 

Todo esse quadro nos leva a constatar que a classe trabalhadora, que representa a maioria da nossa população, carrega “nos ombros” toda a máquina estatal com o imposto que paga, nos três níveis de governo, Federal, Estadual e Municipal. No Brasil, a renda média do trabalhador em 2025 foi de R$ 3.613,00, evidenciando uma população relativamente pobre, carente de benefícios que os impostos pagos não proporcionam.
Na Bíblia, encontramos o relato de um episódio em que Roboão, filho herdeiro de Salomão, provocou a divisão do reino por causa da pesada carga de tributos que recaía sobre o povo, conforme registrado no livro de 1º Reis, capítulo 12, verso 11: “Assim que, se meu pai vos carregou de um jugo pesado, ainda eu aumentarei o vosso jugo; meu pai vos castigou com açoites, porém eu vos castigarei com escorpiões”. 

Uma frase famosa proferida por John Garland Pollard (1871 – 1937), político norte americano, diz que: “Imposto é a arte de depenar um ganso, fazendo-o gritar o menos possível e obtendo a maior quantidade de penas”. Por falta de noção do tributo pago, o cidadão não se manifesta e aceita, passivamente, o que lhe vai sendo “entubado”