Em 1950 uma peça teatral estreou no Rio de Janeiro com o título “As mãos de Eurídice”, escrita pelo poeta e jornalista Pedro Bloch (1914 – 2004), o monólogo, interpretado pelo ator Rodolfo Mayer (1910 – 1985) logo se transformou em um sucesso mundial, com cerca de 800 mil apresentações. O texto narra as desventuras do escritor Gumercindo Tavares, encantado pelos carinhos oferecidos pelas mãos de Eurídice e de sua maestria no manuseio do carteado nos cassinos de Mar del Plata, Argentina.
Dos membros do corpo humano, a mão é o que mais impacta nas relações entre pessoas, representando infinitos simbolismos, interferindo em todas as áreas de interesses humanos. É representada por uma estrutura complexa na extremidade dos membros superiores, com 27 ossos organizados em carpo (pulso), metacarpo (palma) e falanges (dedos). É essência para a manipulação de objetos e sensibilidade tátil, possui articulações móveis, músculos intrínsecos e vasta inervação, permitindo desde movimentos finos até preensão de força. Mas sua importância vai muito além dos aspectos físicos. Espiritualmente, a mão simboliza proteção, poder, força e conexão, sendo um canal para o divino e para a ação no mundo físico, representando desde a ajuda (dar uma mãozinha) e a amizade (mão amiga), até a rendição e o poder espiritual, envolvendo culturas e religiões.
Vários significados envolvem e dão importância ao simbolismo da mão. A mão aberta é um símbolo de defesa e força; dar a mão ou ser “acolhido pelas mãos de Deus” implica em receber graça e força divina, enquanto um aperto de mão representa paz e amizade, gesto tão comum na nossa sociedade; mãos são ferramentas de trabalho, criatividade, cura e manifestação de intenções; os cinco dedos frequentemente simbolizam harmonia, com a mão representado o equilíbrio entre corpo, mente e espírito.
Em diferentes culturas a mão apresenta múltiplas interpretações: no cristianismo a mão de Deus indica poder e o Espírito Santo, assim como sentar-se à direita é alta honra; nas culturas pré-colombianas a mão aberta podia simbolizar o número cinco ou uma divindade ctônica (da terra). Gestos, como mãos levantadas, significam súplica ou rendição, assim como lavar as mãos perante outras pessoas, símbolo de inocência ou não comprometimento. Não podemos deixar de mencionar a linguagem gestual-visual e espacial, conhecida como Libras, utilizada pela comunidade surda brasileira para comunicação. Ela se baseia em movimentos das mãos (gestos), expressões faciais e corporais, percebidos pela visão, servindo como instrumento de integração social dos mudos.
Um episódio icônico, registrado na Bíblia no Evangelho de Mateus, capítulo 27, verso 24, nos apresenta o seguinte relato: “Diante da pressão da multidão e sem encontrar culpa em Jesus para condená-lo à morte, o governador romano Pôncio Pilatos, lavou as mão simbolicamente com água, declarando-se inocente do sangue de Jesus e transferindo a responsabilidade ao povo”. O gesto simbólico visava isentar Pilatos da responsabilidade moral e jurídica pela crucificação de um homem que ele considerava justo. Esta alegoria vem sendo copiada através dos séculos, praticada por políticos de diversas vertentes, como forma de se isentarem das mazelas perpetradas por seus antecessores, sendo esta a desculpa para não darem prosseguimento às várias ações custeadas pelo dinheiro público, como se houvesse um separador entre o antes e o depois.
Para o ambiente corporativo recebemos o seguinte ensinamento: “A mão do sucesso profissional tem cinco dedos: caráter, vocação, talento, esforço e disciplina”. Encerro com uma citação da Madre Teresa de Calcutá (1910 - 1997): “As mãos que fazem, vale mais que os lábios que rezam”.

