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Coluna

A magia das mãos – segunda parte

02 abril 2026 - 12h55

Em 1986, numa partida de futebol pelas quartas-de-final da Copa do Mundo, jogavam Inglaterra e Argentina. Em um lance, o pequeno Diego Maradona, do time argentino, saltou na área e, com o uso de uma de suas mãos, fez o gol que classificou sua equipe para a etapa seguinte do campeonato. Como o juiz não viu, naquela época não existia o VAR, validou o gol. O episódio ficou conhecido como “La Mano de Dios” (A mão de Deus). Em declaração, após o jogo, Maradona disse: Não era meu plano, mas a ação aconteceu tão rápida que o juiz de linha não me viu colocando a mão na bola. O árbitro olhou para mim e disse: “Gol”. “Foi uma sensação agradável, como uma espécie de vingança simbólica”. Isto porque a Inglaterra havia vencido a Argentina na Guerra das Malvinas em 1982.

Ainda no esporte, a mão tem real importância, como nos jogos de basquetebol, voleibol, handebol, entre outros, exceção no futebol onde somente o goleiro pode tocar a bola com as mãos. Um conhecido jogador de basquete, Oscar Schmidt, ficou notabilizado com o codinome de “mão santa”, em virtude de sua performance nessa modalidade esportiva. 

A utilização da mão como metáfora está presente em inúmeras situações em todo o mundo e em todo tempo. As mãos servem para definir extremos; usadas no ordenamento de tráfego; indicação de positividade (polegar para cima); como sinal de xingamento (dedo indicador levantado). Levantar o polegar e o dedo mínimo (com os dedos indicador, médio e anelar, dobrados) é amplamente conhecido como o gesto “Hang Loose”, utilizado por surfistas e praieiros para saudações, positividade e tranquilidade. A comunicação é grandemente enriquecida com o uso das mãos, simbolizando ações, emoções e poder. Dizer, por exemplo, que tem alguém na “palma da mão”, significa que exerce poder sobre essa pessoa; mãos abertas para cima transmitem transparência, honestidade e receptividade; mãos atadas representa a incapacidade de agir ou falta de liberdade; mãos na massa indicam que um trabalho prático foi iniciado ou um ato de agir diretamente. Esses recursos da linguagem corporal funcionam como uma extensão do pensamento, capazes de alterar o sentido da fala e aumentar o impacto da comunicação. 

Na história bíblica encontramos muitas referências ao simbolismo das mãos. Bater palmas representa sinal de alegria, aplauso e aclamação, como mencionado metaforicamente pelo profeta Isaias: “E todas as árvores do campo baterão palmas”. Ritualisticamente as mãos têm importância na consubstanciação da fé, como sua imposição sobre a cabeça dos fieis significando consagração pela unção, ou ainda levantamento durante a oração, entre outras manifestações.     

A figa é um amuleto tradicional em forma de mão fechada com o polegar entre os dedos indicador e médio, usada para afastar o mau-olhado, inveja, perigos e atrair boa sorte. O preconceito contra os canhotos, hoje não mais tão acentuado, tem fundo bíblico. Segundo o evangelista Mateus, no juízo final os condenados ficarão à esquerda; a mão esquerda de Deus nunca é mencionada, pois está ligada ao castigo e à infelicidade, enquanto a direita é sinal de bênção.

Os mais antigos devem lembrar-se do esforço que nossos professores faziam para tirar o hábito dos alunos em usar os dedos das mãos para ajudar nos cálculos. Até hoje encontramos algumas pessoas, que na ausência de uma calculadora, utilizam os dedos para contar. 

Mãos foram feitas para abençoar, nunca para ferir ou amaldiçoar. Martin Luther King (1929 – 1997), pastor americano, foi iluminado ao dizer: “Não importa a cor quando duas mãos estão juntas projetando a mesma sombra”.