CPI aponta 'conflito de interesses' e 'gestão familiar' no Hospital da Mulher de Cabo Frio

Deputada citou o fato do diretor e da administradora afastados serem casados e amigos do prefeito

Publicado em 03/04/2019 às 10:02

TOMÁS BAGGIO

A deputada estadual Renata Souza (PSOL) disse ontem que há "conflito de interesses" pelo fato de o diretor médico afastado do Hospital da Mulher, Paul Dreyer, e a diretora administrativa também afastada, Lívia Natividade, serem casados e amigos do prefeito Adriano Moreno (Rede). A afirmação foi feita após o depoimento de Paul e Lívia na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) formada na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro para investigar as mortes de bebês no Hospital da Mulher. Após o depoimento a Prefeitura anunciou o afastamento de Paul e Lívia de suas funções.

- Identificamos uma série de contradições. As famílias relatam falta de insumos básicos, lençóis, ventiladores, entre outros, além de uma relação muito ruim entre os pacientes e a administração do hospital. Já os administradores dizem que não tem problema algum. Temos a informação de que houve uma maquiagem em virtude de nossa visita (na segunda-feira). Sem dúvida iremos realizar oitiva com o secretário de Saúde e podemos solicitar o prefeito também. Afinal, estamos falando de um hospital que tem uma gestão familiar. O diretor e a administradora são casados. Isso é um claro conflito de interesses, já que os dois são testemunhas no processo. Sem falar na relação deles com o próprio prefeito, uma relação afetiva, pois são amigos. Precisamos entender como isso se apresenta - disse Renata Souza, presidente da CPI na Alerj.

No depoimento, Paul Dreyer e Lívia Natividade disseram desconhecer qualquer caso de violência obstétrica na unidade. Eles alegaram que muitas mães não fazem o pré-natal e que isso estaria causando a morte dos bebês. Foram 16 mortes desde o início deste ano. Dreyer classificou como "normal".

- Muitas pacientes chegam já no sofrimento, algumas com hipertensão, usuárias de drogas, sem realizar o pré-natal de maneira adequada. O Hospital da Mulher é o ponto final da linha onde as mulheres vão procurar um atendimento. Então é normal que aconteçam mortes ali no hospital. Acontece, vai acontecer e continuará acontecendo. Isso é uma coisa comum - declarou o médico Paul Dreyer aos deputados.

A administradora Lívia Natividade foi procurada ontem pela reportagem da Folha mas não retornou o contato. Também procurada, a assessoria da Prefeitura de Cabo Frio disse que "a Secretaria de Saúde só vai se pronunciar após a conclusão da CPI do Hospital da Mulher". 

A deputada Renata Souza rebateu a fala dos diretores e cobrou acesso da CPI aos prontuários médicos dos casos que resultaram em morte durante este ano.

- Culpabilizar a mãe, a vitima, por perder seu filho é um equivoco. A gente precisa saber se antes, durante ou depois do parto o bebe teve algum sofrimento que provocou a morte, e não culpar a mãe. Tivemos acesso a diversos exames de pré-natal, todos com os bebes perfeitos, inclusive com indicação de que o parto seria tranquilo e que os bebês estavam saudáveis. A gente tem na CPI uma equipe técnica que pode ajudar a esclarecer a partir dos prontuários que foram requisitados, mas ainda não obtivemos esses documentos. Reforçamos o pedido para que os prontuários cheguem para uma melhor avaliação do quadro - disse ainda Renata.

Falta de maqueiros 

Lívia Natividade foi perguntada sobre a falta de maqueiros e disse que profissionais de outras áreas realizam o serviço.

- Os maqueiros trabalham 12 horas por dia, na ausência deles os auxiliares de serviços gerais e profissionais da equipe de enfermagem desempenham esta função. Eu não consigo contratar mais profissionais, pois o município sofre com a lei de responsabilidade fiscal”, justificou a diretora.

Além dos prontuários das pacientes que perderam seus filhos, os deputados também pediram cópia do livro de registro de entradas dos últimos cinco meses.

Prefeito responde denúncia em rede social

O prefeito de Cabo Frio, Adriano Moreno, divulgou um vídeo em resposta a uma denúncia que circulou no fim de semana na internet ou. A denúncia se referia a uma paciente internada no Hospital Municipal São José Operário que precisava de transferência para um hospital com Unidade de Tratamento Intensivo (UTI).

- Nenhum município da nossa região tem UTI. Todas as vagas em UTI são reguladas pelo Governo do Estado. Aqui em Cabo Frio nós temos uma Unidade Intermediária (UI), onde os pacientes graves ficam internados e nós colocamos no sistema de regulação de vagas do estado. Algumas pessoas querem fazer politicagem em cima do sofrimento alheio. Não temos autonomia para internar os pacientes em UTI, porque dependemos do estado - disse o prefeito no vídeo.

Procurada pela reportagem da Folha, a Prefeitura de Cabo Frio disse por nota que "a paciente de 73 anos está internada na Unidade de Pacientes Graves do Hospital São José Operário, onde está fazendo sessões diárias de diálise, enquanto aguarda uma transferência para uma unidade estadual de saúde". Disse ainda que "ela tem trombose venosa profunda, dentre outras doenças como diabetes e hipertensão".  Sobre o atendimento recebido pela paciente, a Prefeitura informou que "ao chegar à Upa do Parque Burle, fez nebulização e precisou ser entubada". O pedido de transferência no Sistema Estadual de Regulação foi feito no último dia 18.

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