Casa Scliar: Um oásis de cultura no canal

Com voluntários, museu investe no trabalho de visitações de estudantes do ensino médio

Publicado em 24/07/2018 às 09:20

ALEXANDRE FILHO

Em meio ao bairro São Bento, à beira do Canal do Itajuru, está situado um dos maiores oásis de cultura que a cidade preserva ainda intacto. A Casa Ateliê Carlos Scliar, antiga morada do grande artista que dá nome ao local, hoje passa por dificuldades financeiras, mas continua realizando o trabalho de transmitir conhecimento aqueles que não o possuem, como o seu antigo dono tanto gostava de fazer. Para isso, atualmente a Casa Scliar trabalha com a visitação de jovens de escolas públicas – principalmente o Miguel Couto – colégio com o qual o local firmou parceria.

Pintor, gaúcho, judeu, ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, mas principalmente humanista. Esse era Carlos Scliar, que, em uma de suas frases mais conhecidas, afirmou: “Desejo desencadear em cada observador de minha obra a capacidade de melhor compreender o mundo que nos cerca”. E assim o fez. Hoje, no museu que leva seu nome, os visitantes conseguem através de sua obra entender não só quem foi Carlos Scliar, mas todo o cenário histórico e político em que ele viveu.

– O museu é uma casa de personalidade, um exemplar da arquitetura colonial comprado na década de 60 em que o visitante terá contato com a vida e a obra do Scliar, onde ele passava boa parte do ano. Além disso, temos aqui em exposição permanente obras dos principais artistas da arte contemporânea brasileira, que eram pessoas que conviviam com Scliar e faziam desses encontros um lugar de mudanças. Todos eles eram contra desigualdades sociais, e a todo momento, dentro de suas capacidades artísticas, falavam sobre isso – disse a coordenadora da casa, Cristina Ventura.

Como uma instituição sem fins lucrativos, o museu necessita de editais para se manter, e atualmente, sem nenhum deles, conta apenas com uma equipe voluntária para tocar a casa. Nada que os desanime. Pelo contrário. A atual situação fez com que a casa voltasse seus trabalhos para um público específico que o próprio Scliar, quando em vida, via como essencial: os jovens. Nos dias de hoje, o museu tem focado nos estudantes de escolas públicas, realizando visitações à casa do pintor, ao seu ateliê que permanece intacto, além da exibição de curtas no mini cinema do local sobre a obra e a vida do pintor.

– Estamos com uma parceria com o C.E. Miguel Couto, e damos continuidade a esse trabalho do Scliar com os estudantes. E uma frase que o Scliar falava muito era: a liberdade nasce do conhecimento. É isso que tentamos propagar nos jovens hoje. O museu, com todo esse vasto conhecimento intacto e à disposição, tem a obrigação de passar esse conhecimento para outras Filhopessoas – declarou Cristina.

Em dias de visitação, Cristina conta que os jovens, normalmente do ensino médio, chegam e logo querem tirar fotos com a estátua de Scliar que fica em frente ao museu, brincando com a estátua. Após o tour pela casa, e principalmente depois da aula de desenho de observação, o comportamento dos estudantes muda completamente.

– Do mesmo jeito que fica um burburinho na hora de entrar, fica na hora de sair, só que dessa vez a disputa é pra tirar a foto ao lado da estátua sem brincadeiras e mostrando o resultado do desenho de cada um. Em menos de duas horas a gente muda o comportamento dessas crianças que estão aí prontas para aprender, basta chegarmos perto, olhando no olho. E a Casa Scliar quer essa aproximação com os estudantes, quer cumprir essa função – explicou.

Respeito Dá o Tom – Atualmente, a Casa Scliar está com uma exposição em parceria com a ProLagos chamada “O Respeito Dá o Tom”, que fica em cartaz até o fim do ano e homenageia grandes artistas negros do Brasil e chama a atenção para a questão do preconceito racial, ao mesmo tempo que tenta debater a igualdade racial na sociedade. Artistas como Teixeira e Souza, Ivone Lara, Carolina Maria de Jesus, Machado de Assis estão entre os homenageados, além do destaque para a peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, em que Scliar trabalhou na parte gráfica da produção. A peça foi a primeira a colocar atores negros no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1956.

– O “Respeito Dá o Tom” é um selo que a ProLagos vem desenvolvendo e como eles são nossos parceiros nos convidaram para trabalhar esse tema. E nós aceitamos porque em toda a vida e obra do Scliar a palavra respeito é vista, porque ele era um humanista. Temos o prazer e uma tristeza de trazer essa exposição, simplesmente por ainda termos que falar sobre respeito pela cor da pele nos tempos de hoje. É vergonhoso isso, porque a base da nossa cultura passa pelo povo negro. Qualquer outra coisa que disserem é mentira – disse Cristina.

A peça em questão foi uma adaptação de Vinicius de Moraes da tragédia grega Orfeu e Eurídice, e contou ainda com as contribuições ilustres de Oscar Niemeyer nos cenários e Tom Jobim na trilha sonora, realizando a sua primeira parceria musical com Vinicius, no que seria conhecido como os primórdios da Bossa Nova. O sucesso da obra foi tão grande que a peça foi adaptada para o cinema em Orfeu Negro, em 1959, filme que acabou ganhando prêmio no Festival de Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

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