Documentário "Guardiões da Memória" discute os desafios de preservar a história de Cabo Frio
Produção lançada no You Tube reforça a importância do registro local diante da ausência de um acervo público na cidade
Cabo Frio ganhou esta semana mais um documentário focado em resgatar a história e as tradições locais. "Guardiões da Memória Cabofriense" busca registrar o passado do município jogando luz sobre as pessoas que guardam as lembranças da cidade. Lançado no último domingo (14), no YouTube (canal @dannielcoelho9216), o filme, que tem pouco mais de 25 minutos de duração, chega em meio a um debate importante.
No mês passado, uma reportagem da Folha dos Lagos mostrou como a ausência de um Centro de Memória Municipal em Cabo Frio tem dificultado e desafiado o trabalho de pesquisadores locais. A falta de um espaço público centralizado foi um dos motivos para a criação do documentário, produzido por Danniel Coelho.
— A ideia principal de “Guardiões da Memória Cabofriense” surgiu da urgência em preservar histórias que estão se perdendo com o tempo. Cabo Frio não tem um Centro de Memória Municipal, e isso torna cada depoimento ainda mais vital - explicou Danniel.
Ele contou à Folha que o processo de escolha dos entrevistados seguiu uma linha bem definida e atenta à comunidade, “priorizando pessoas reconhecidas como referência de saberes e vivências”. Entre elas está Meri Damaceno, que desde 1984 atua como memorialista. Em mais de 40 anos de pesquisas, Meri já entrevistou cerca de 700 pessoas e reuniu mais de 300 horas de gravações em fitas cassete. Parte desse material foi publicado em cinco livros, que relatam causos e histórias de Cabo Frio e Arraial do Cabo. Um deles é a segunda edição de "Cabistezas”, relançada em 2023 pela Sophia Editora.
O professor e historiador José Francisco de Moura (o Chicão) também participou do documentário. Ele relembrou pessoas que foram fundamentais para resguardar a história de Cabo Frio. Um deles foi Hilton Massa, advogado, fundador da extinta Rádio Cabo Frio AM, e que também colecionava histórias da cidade e da região.
– Sem pesquisadores, memorialistas, documentaristas e fotógrafos, Cabo Frio viveria na mais completa penumbra de sua história - revelou Chicão.
“Guardiões da Memória Cabofriense” também mostra a importância da imprensa local para resguardar a história de Cabo Frio e demais cidades da Região dos Lagos. Em especial, o documentário cita a Folha dos Lagos. O editor Rodrigo Cabral contou que são mais de seis mil edições publicadas desde abril de 1990, e que todo o acervo está na Biblioteca Nacional. Localizada no Rio de Janeiro, ela é considerada pela UNESCO uma das dez maiores bibliotecas nacionais do mundo, e também a maior biblioteca da América Latina.
Rodrigo também participa do documentário representando a Sophia Editora. Fundada em 2015, hoje ela é uma das maiores referências na valorização da literatura regional. Já são mais de 60 obras publicadas, grande parte sobre história, cultura e patrimônio locais e regionais.
Historiador, pesquisador e curador voluntário do Centro de Memória Olhar da Perifa, no Jardim Esperança, em Cabo Frio, Pierre de Cristo é outro nome que participa do documentário produzido por Danniel Coelho. Desde 2015 ele atua com um olhar mais atento à história quilombola e da escravidão regional.
– Falar da memória é muito importante para termos a percepção de quem veio antes da gente. Fundamentar a memória é juntar uma colcha de retalhos para contar a história da nossa cidade - revelou.
Outro entrevistado de “Guardiões da Memória Cabofriense” é o músico e memorialista Azul Puro Azul. Ele é fundador da antiga Casa de Cultura Som do Mar, fechada em 2020 durante a pandemia da Covid-19. Também é um dos produtores do quadro “Orgulhos da Terra”, do programa Amaury Valério (Rádio Ondas FM). No documentário Azul atua ainda como diretor, além de ser o responsável pela pesquisa e curadoria, junto com Danniel Coelho. As filmagens e fotografias ficaram por conta de Diego German. A edição coube a Diego Moreyra e Danniel Coelho. Toda a obra foi viabilizada pelo edital da Lei Paulo Gustavo. Segundo Danniel, esse incentivo financeiro foi fundamental para tirar o projeto de memória do papel.
Ele também contou que o retorno inicial do público tem sido bem positivo.
— Os comentários no YouTube, e mensagens no Instagram, mostraram que as pessoas entenderam a proposta do projeto, e se conectaram com a função social dele, que é apresentar essas figuras como guardiãs da memória de Cabo Frio - contou o produtor.
Além do lançamento no YouTube, Danniel contou que em breve o documentário também deve ser exibido nas escolas públicas. As datas dessas sessões escolares ainda serão divulgadas. À Folha, ele contou que esse tipo de trabalho cumpre uma função social indispensável para o futuro da sociedade local.
— Documentários de memória são mais do que registro, são ferramentas de pertencimento. Quando uma cidade entende de onde veio, ela decide melhor para onde vai. E “Guardiões” cumpre esse papel de ponte entre gerais. Se Cabo Frio ainda não tem um Centro de Memória, que cada obra como essa seja um tijolo dele - finalizou.