RENASCIMENTO DO GIGANTE

Sob gestão feminina, Bloco Parókia celebrou 55 anos de carnaval com público recorde

Após quase desaparecer no pós-pandemia, o mais antigo bloco de Cabo Frio em atividade reuniu cerca de sete mil foliões somente em um dia de carnaval, e projeta criação de escola de sopro

28 FEV 2026 • POR Redação • 09h00

Oficialmente o carnaval de 2026, em Cabo Frio, ainda não acabou (a programação prevê desfile de blocos até o dia 1º de março), mas já entrou para a história do Bloco Parókia. Este ano a agremiação completou 55 anos de fundação, e se consagrou como um fenômeno de público e organização. De acordo com a presidente, Fernanda Carriço, aproximadamente sete mil pessoas foram atrás do Parókia pelas ruas de Cabo Frio somente no domingo de carnaval: esse, segundo ela, é o maior público da história da agremiação, que chegou a encerrar as atividades após a pandemia.

Em entrevista à Folha, ela detalhou os desafios de "reacender" uma instituição que estava “morta”, e contou  como o olhar feminino trouxe ordem à bateria, harmonia com a vizinhança e proporcionou uma união inédita entre os músicos e blocos locais. Entre a valorização dos talentos da terra e o sonho de fundar uma escola de sopro, Fernanda contou que, em sua gestão, o Parókia passou a caminhar de mãos dadas com a inovação e o compromisso social.

Folha - Como você avalia esses anos à frente do Parókia?
Fernanda -
Eu conheci o Parókia em 2011, se eu não me engano. Eu estava no programa do Amaury Valério, e conheci o maestro Gessé: me aproximei dele, conheci o Parókia, me apaixonei, e me voluntariei a ajudá-lo a manter o bloco. Comecei a ajudar com estrutura, catando, pedindo… Eu acompanhei a luta do Gessé, e o meu amor pelo Parókia foi só crescendo. Há quatro anos, no pós pandemia, o Parókia tinha parado sem perspectiva de voltar: a diretoria tinha sido dissolvida e o Parókia não tinha mais ninguém. Gessé tinha ido embora para São Paulo, e eu me vi diante de um Parókia morto. E aquilo me matou por dentro, porque alguma coisa em mim falava que eu não podia deixar isso acontecer. No carnaval de 2022 o então prefeito José Bonifácio pediu para me chamar, pediu para eu fazer o carnaval, pelo menos um dia. Eu assumi e fiz um dia de Parókia. Foi um dia que a gente não saiu, se não me engano, só um concentra, para não deixar de ter. A partir dali eu não consegui mais sair e acabei assumindo, sendo eleita presidente, e assim estou oficialmente há três anos. São quatro anos à frente do Parókia. Quatro anos que mudaram completamente a minha vida pessoal e profissional. O Parókia entrou de uma forma avassaladora na minha vida. Foram anos de muita luta para reacender o Parókia, que estava morto praticamente, e torná-lo ainda maior do que já era.

Folha - Quais foram as principais conquistas da sua gestão?
Fernanda -
Eu acho que passam por muitos fatores. A principal foi conseguir a união dos músicos e de vários blocos com o Parókia. Quando eu assumi estava tudo muito solto, cada um com seu bloco. E o Parókia é a mãe de todos, o pai de todos. Então fui procurar pessoas de outros blocos para propor uma união de carnaval de rua: com o Discaralha, Cê é Filho de Quem, da Farinha... E o Parókia hoje é maior do que quando eu assumi. Nesse carnaval, por exemplo, a gente botou sete mil pessoas (na rua) num domingo de carnaval. Então o bloco se tornou muito grande. Nesses quatro anos que eu faço, eu percebo essa diferença, estando diretamente à frente. Imagina anteriormente. Eu acho que essas sejam minhas maiores conquistas.

Folha - Quais foram os maiores desafios enfrentados nesse período?
Fernanda -
Os desafios são inumeráveis. A começar por mim mesma, né? Eu, Fernanda, jornalista, pegar a presidência do maior bloco da cidade, que estava parado, e botar pra cima, pra frente. Eu acho que esse foi o meu maior desafio. Lidar com muitas pessoas ao mesmo tempo pra que isso acontecesse, ter jogo de cintura, engolir muitos sapos, questão de ser mulher também, né? Nesse mundo do samba a maioria é composta de homens, e não é simples eu, no meu 1,60m de altura, brigar com várias forças pelo Paróquia. São muitos os desafios, mas Graças a Deus eu tenho tido força para enfrentar todos. Mas a gente também tem que ver o lado bom da coisa. E o lado bom disso tudo é a união de várias pessoas que ajudam o Parókia, que fazem tudo pelo Parókia: os trabalhadores que dão a alma; o Fábio, com a equipe dele; a Débora, filha do Binho; os músicos; os vizinhos que ajudam; o pastor, que tem o depósito de água e que ajuda a gente. Muita gente ajuda o Parókia por amor, e isso é uma coisa muito importante também de reconhecer. Eu faço questão de agradecer todo mundo, inclusive os foliões que vão para o Parókia só para dar amor. Nada de confusão, nada de treta. Então o Parókia é a união de muita gente, de muita força também.

Folha - A gestão feminina trouxe algum olhar ou prática diferente para a organização do Parókia?
Fernanda -
O olhar, a prática, o diálogo, a harmonia, buscar pessoas para abraçarmos juntos o Parókia. Eu tenho um jeito muito duro quando se trata do Parókia. Às vezes a gente tem que ter essa mão de ferro mesmo, e eu confesso que eu tenho: sou centralizadora, cuido de todos os detalhes. No ensaio, por exemplo, eu estou de olho em tudo, no desfile também. Se tiver uma garrafa jogada no chão, eu sei que tem que tirar. A mulher tem esse olhar e isso faz muita diferença. A organização do bloco foi o olhar feminino. Aquela rua, Jorge Lóssio, é muito estreita. Antigamente a gente tinha ali 10, 15, 20 barraqueiros, e o público quase não circulava. Eu tive que tocar numa ferida muito chata que foi organizar a rua, tirar todo mundo e botar poucas pessoas trabalhando pra ter mais mobilidade, mais liberdade para as pessoas curtirem o bloco. Essa é uma questão que eu acho que veio de um olhar feminino, de organizar e isolar a bateria para que eles possam tocar sem se preocupar em machucar o público, com gente em cima. É muito difícil para os músicos tocarem numa multidão em cima, ainda mais sopro. O meu cuidado com os moradores da Jorge Lóssio: eu estou sempre ali, deixo o meu telefone disponível, se tiver um carro arranhado por causa do bloco, por causa do ensaio, eu me responsabilizo. Enfim, acho que são esses cuidados que permitiram que o Parókia ficasse mais organizado e, de uma forma geral, melhor. A mulher tem esse cuidado do carinho, das homenagens que eu fiz desde que eu entrei. Ano passado homenageei Gessé, esse ano o nosso Carlos da Tuba. Esses cuidados femininos fazem a diferença. E também faço questão de todo ano homenagear Seu Binho, um dos fundadores que esse ano fez 93 anos, comemorando com o bloco. Eu vou na casa dos vizinhos durante o ensaio, pergunto se está tudo bem, se estão curtindo, o que está faltando… Eu acho que é isso, a mulher tem um olhar diferente.

Folha - Como foi o Carnaval de 2026 para o bloco?
Fernanda -
Apesar de eu ter reduzido o número de ensaios (ano passado fizemos sete ou oito, e esse ano eu fiz três), foi um carnaval gigante para o Parókia. Mais uma vez mostramos que ele é indiferente ao tempo, às pessoas que estão na gestão… O Parókia é gigante, tem vida própria, é patrimônio cultural e material de Cabo Frio. Esse ano sacramentou o tamanho do Parókia, que veio gigante. Foi um carnaval muito importante para o bloco. Participamos e fomos contemplados com o edital do Governo do Estado, tivemos o Parókia reconhecido na cultura, e isso tudo é um sonho que venho sonhando há alguns anos. Em 2026 posso dizer que vi um sonho realizado: o Parókia gigante, amado, aclamado pelas pessoas, com uma bateria, com uma energia muito diferenciada. Nossos músicos são incríveis e maravilhosos. Este ano o Parókia mostrou que não vai ser qualquer vendaval que vai nos tirar do mapa. O Parókia vai ficar pra sempre com a gente, é pra isso que eu estou aqui também.

Folha - Como foi a participação do público e a receptividade nas ruas este ano?
Fernanda -
Foi impressionante. Durante os ensaios, durante o desfile, eu não paro um minuto: as pessoas vindo a agradecer, me abraçando, chorando, querendo tirar foto, todo mundo muito feliz com o Parókia. A receptividade foi muito além do que eu esperava, muito além mesmo. Eu não sei te dizer quantas pessoas vieram falar comigo para agradecer, para elogiar o Parókia. Foi impressionante. As imagens de drone que a gente tem mostram um mar de gente seguindo o Parókia. E o mais incrível, sem briga, sem confusão, sem nenhum problema. Minhas expectativas foram infinitamente superadas.

Folha - A questão financeira continua sendo um dos principais desafios do bloco?
Fernanda -
Sim, a questão financeira ainda é o maior desafio. Manter um bloco não é simples, são muitos detalhes, são muitos gastos. O ideal seria uma coisa, mas para fazer o ideal a realidade não me permite ainda… São muitas questões.

Folha - Existe algo que você ainda gostaria de realizar e não foi possível até agora?
Fernanda -
Muitas coisas. Uma delas é uma questão muito sensível, mas eu vou meter o dedo na ferida, que é organizar a bateria, limitar a participação de pessoas que chegam no dia do desfile e acham que podem tocar, porque já frequentam o Parókia há muitos anos, mas nem participam de ensaio, não fazem parte do que a gente está planejando para aquele ano. Eu sei que todo mundo é família, todo mundo é amigo, então essa é uma questão muito sensível. Mas, continuando em 2027, eu vou mudar isso. Eu vou realmente mexer na bateria, organizar isso com os músicos que estão ali comigo no trabalho, como o mestre Reginaldo, que está há três anos no Parókia comigo, como o Baby, da bateria. Eu quero muito organizar a bateria, mas é uma questão complexa. Outra coisa que eu não fiz, e esse é um grande sonho, é uma escola de sopro na cidade: Escola de Sopro do Parókia. Isso é um grande sonho. Hoje a gente está refém da falta de bandas na cidade. Não tem onde as crianças estudarem sopro. Os filhos dos músicos que estão em atividade não têm onde estudar sopro. Então, eu quero muito fazer isso.

Folha - Que legado você acredita estar deixando para o bloco?
Fernanda -
É difícil a gente falar da gente, né? Parece que a gente está se auto-elogiando e eu detesto isso. Mas temos que ser realistas também porque é muito trabalho, e seria injusto não reconhecer o que eu mesma fiz. Eu acho que eu deixo vários legados para o Parókia. Um deles é valorizar o músico da cidade. Quando eu assumi o Parókia não era assim que funcionava, e isso dito pelos próprios músicos. Muitos músicos de fora vinham, ganhavam (dinheiro), e os músicos locais não. A primeira coisa que eu fiz foi acabar com isso. Falei “eu pago músico local”. Temos muitos na cidade, e eu acho que a valorização do músico local é um legado que eu deixo. A questão da união com outros blocos também é um legado que eu deixo. Nós somos todos irmãos, tem uma galera de Cabo Frio que carrega o carnaval de rua nas costas. Os blocos centrais é essa galera que faz, e a gente se uniu. O que eu posso ajudar o bloco A, B, C, eu ajudo, não importa se é Parókia.O Parókia é todo mundo junto porque o Parókia sem essa galera também não é nada. Também mostrar para as pessoas que um bloco é feito de passado, presente e futuro. O presente é muito importante, mas o passado também, mas para conciliar passado e presente, a gente tem que olhar para o futuro. Outra coisa importante da minha gestão foi ter resgatado o Papai Noel do Parókia, que existia mais há sei lá há quantos anos. Em 2025 esse ano eu fiz o segundo nessa retomada. Em 2024 atendemos mais de 200 crianças, em 2025 foram mais de 300, com brinquedo, presença de Papai Noel, pula-pula, algodão doce, pipoca, picolé… O Parókia também fez o Natal de muitas crianças.

Folha - Qual é a importância do Parókia para a cultura e o Carnaval de rua de Cabo Frio hoje?
Fernanda -
O Parókia é o maior bloco da cidade, é o bloco mais antigo em atividade, é patrimônio cultural e imaterial de Cabo Frio, é o bloco mais importante para a cultura da cidade, independente de eu ser presidente. Isso é fato. No carnaval eu estava na fila de um banheiro e ouvi uma turista falar “a gente tem que ir no tal do Parókia, porque só se fala nisso na cidade, que é o melhor bloco e tal”, e eu ouvindo aquilo e pensando “caraca, é mesmo. E milhares de pessoas num bloco de rua sem briga, sem confusão, só amor. Então eu acho que o Parókia tem que ser realmente exaltado pela cultura cabofriense, porque é um bloco com muita história do passado, do presente e do futuro. Todo ano eu falo que não vou fazer mais, que não quero saber, que ano que vem vou passar o carnaval fora… mas na hora a gente é movido por um compromisso de não deixar parado, de não deixar mais ou menos. É um desafio muito grande, mas o amor é muito maior. Eu termino o carnaval sempre muito cansada fisicamente e emocionalmente, porque são muitos problemas, mas lá no fundo tem aquele bichinho da realização que diz: “descansa, mas ano que vem a gente faz melhor”, e meu objetivo é sempre esse, ano que vem fazer melhor, porque o Parókia não se separa mais da minha história, que eu construí com muito sacrifício, com muito amor, muita superação. O Parókia está na minha biografia e eu tenho muito orgulho disso. Fico até emocionada, porque o carnaval de 2026 foi um desafio imenso, mas o Parókia venceu, e eu estava ali fazendo com que ele vencesse.

Foliões narram histórias de resistência e o renascimento do Bloco Parókia

A história do Bloco Parókia, que este ano completa 55 anos de fundação, não se explica apenas pelo recorde de público estimado em sete mil pessoas somente no domingo de carnaval, mas pelas memórias preservadas na esquina da Rua Jorge Lóssio, no Centro de Cabo Frio. Foi ali que, nos anos 1970, o bloco nasceu, no bar do Seu Binho, junto com seus seus irmãos e cunhados músicos, se tornando hoje o mais antigo e tradicional bloco de rua ainda em atividade na cidade. Débora Machado Pereira, biomédica e filha adotiva de Binho, vive essa trajetória desde que nasceu, há 42 anos. Em entrevista à Folha, ela recordou que cresceu no antigo Bar Parókia, entre o chorinho e as marchinhas, vendo a agremiação se tornar um legado de amor e reencontros.

– O que faz ele ser tradicional e querido é ser muito familiar. É um bloco que recebe a todos, que não tem briga. As pessoas vêm realmente para curtir em família. Pra mim ele representa um legado muito cheio de carinho, de amor, de pessoas que a gente reencontra todo ano. É uma parte de mim - afirma Débora. Ela destaca o rigor do pai no balcão como o segredo da harmonia: "Meu pai não vendia bebida para a pessoa que já estava alterada. Ele fazia isso para não passar do limite, para não ficar aquela coisa chata. Então, as pessoas tinham a tranquilidade de trazer seus filhos e esposas para almoçar no domingo no bar" - revelou. Além da música, o grupo era marcado pela solidariedade. Débora contou que acompanhou os primeiros integrantes do bloco se unindo para construir casas para pessoas sem condições, sem querer nada em troca.

Apesar de anos de estrada, o carnaval deste ano fez a emoção tomar conta da família do fundador do Parókia: para comemorar o aniversário de 93 anos de Binho, em pleno carnaval, o bloco parou em frente à casa dele e prestou homenagem.

– Foi muito gratificante estar ali do lado dele, ele vendo a rua cheia e o bloco cantando parabéns. Ele virou para mim e falou: “O responsável disso tudo, minha filha, sou eu. Olha a responsabilidade que eu tenho" - contou Débora, que é só elogios à primeira diretoria feminina da agremiação. "O Parókia é o melhor bloco da cidade. Tem o Discaralha também, que está muito bom. Mas o Parókia é legado do meu pai, é uma herança que ele deixou. E essa diretoria 100% feminina foi a melhor que tivemos durante todos os últimos tempos. Meu pai recebeu Fernanda Carriço e a Bia (atuais presidente e vice, respectivamente) com muito carinho, e ficou muito feliz em ver o amor que a Fernanda tem pelo bloco. Tudo que ela fez, tudo que ela deu ao bloco, nós acompanhamos. No início, teve certa resistência com algumas pessoas, mas nada que abalasse a vontade e o amor de fazer pelo bloco o que ela fez. Fernanda Carriço tem o amor do pessoal daqui de casa, do meu pai. Gratidão enorme por tudo que ela fez e devolveu ao bloco”, declarou Débora.

O encontro de Zarinho Mureb com o Parókia é um pouco mais antigo: tem cerca de 50 anos. Começou quando ela já frequentava o bar de Binho e Baiano. Integrante de longa data da bateria, ela recorda com carinho dos amigos como Seu Gessé, Mulato Gelson, Pirraça, Bi, Baiano, Binho, Agildo, e tantos outros, e da época em que levou a bateria do extinto bloco "Disfalça e Olha" para o Parókia.

– O “Disfalça e Olha” saía aos domingos e terças durante anos. Mas o bloco cresceu muito, e a gente achou melhor acabar. Migramos então para o Parókia, que praticamente não saía nas ruas. Levamos nossa bateria pra lá, que não era o forte deles, e foi um encontro de paixão. Comandei a bateria no repique e no apito por muitos anos, mas nunca foi fácil por tinha uns caras que não aceitavam muito bem uma mulher no comando, e eu também não tinha muita paciência pra quem chegava só no dia pra tocar, porque isso atrapalhava nossa ótima bateria, e nesse quesito eu sou perfeccionista. Hoje o Parókia também cresceu muito, assim como o extinto Bloco da Rama e o Disfalça: não é do meu agrado, mas é inevitável. Mesmo assim, acho importante manter o Parókia. Fernandinha (Carriço) é uma guerreira. Admiro muito o trabalho dela porque sei que não é fácil. Eu também faço parte no comando de alguns blocos, e não é mole. Mas a nossa paixão pela alegria, a cultura e a tradição do Carnaval é que nos faz esquecer das dificuldades e cair dentro, até o próximo ano. Meu amor pelo Parókia é minha paixão pelo carnaval - revelou.

Para o bombeiro militar Rodrigo Tardelli Moreira, membro da bateria do Parókia há 24 anos, mas frequentador desde os 10 (hoje ele tem 44), o bloco é sinônimo de alegria e amizades que vêm da infância. Ele ressalta que o diferencial do bloco é manter a tradição da bateria e do sopro, o que atrai desde idosos até crianças, mas também lembra que o Parókia é superação.

– Há dois anos, no segundo dia de bloco, um amigo veio me agradecer por ter deixado ele entrar pra bateria do Parókia. Ele não sabia tocar nada, estava depressivo, muito perto de provocar uma tristeza na família dele. Até hoje ele fala que salvei a vida dele e isso não tem preço. Salve o Parókia - exaltou ele, reforçando a importância da atual diretoria para a história da agremiação. “Fernanda está de parabéns. Tiro o chapéu pra ela pelos anos que ela está na presidência do Parókia porque não é fácil assumir o bloco de maior expressão, e o mais antigo de Cabo Frio, e ainda sem subvenção da Prefeitura. Só quem está ali sabe como é difícil”, avaliou.

A memorialista Meri Damaceno, que frequenta o bloco desde o final dos anos 70, define a agremiação como a resistência da cultura popular tradicional cabo-friense. Para ela, o Parókia é um "prato cheio" para pesquisadores por ter vencido o machismo, e por ser um produto genuinamente local que vem sobrevivendo às culturas de fora da cidade.

– A história do carnaval de Cabo Frio remota o final do século XIV, quando mulheres eram proibidas de participar, onde a presença feminina era representada por homens vestidos de mulheres, principalmente na época dos ranchos, que se inicia no final de 1800 e termina nos anos 1930, mais ou menos. A mulher era útil somente para confeccionar as fantasias, fazer os quitutes e limpar a bagunça deixada pelos foliões, muito diferente dos dias atuais, onde elas ocupam todos os espaços. O Parokia é um exemplo disto: sempre foi um bloco dominado e comandado por homens desde sua fundação, até bem recente, quando Fernanda, a muito custo, assumiu a direção. Em certo momento eu, junto com outras companheiras, tentamos fazer isso, mas as forças masculinas não viram com bons olhos: não sei se com os olhos do ciúme (por afeto) ou por machismo mesmo. Mas na hora que o Parókia estava prestes a desaparecer (logo após à pandemia), foi a força brilhante de uma mulher que salvou sua história extraordinária e não permitiu que isso acontecesse. E ainda digo mais: veio com uma força de organização que ninguém nunca viu antes no Parókia. A mudança é visível, e se alguém não viu ou percebeu, é porque nunca foi da família Parókia - apontou Meri.

Em conversa com a Folha, ela também recordou momentos marcantes que já viveu junto ao bloco, como a parada emocionante em frente à casa do falecido Celinho Pé de Pato, e episódios divertidos, como quando foi eleita musa por aclamação popular, aos 62 anos.

– Em 2002 foi muito emocionante quando o Parókia estendeu o desfile até a casa de Celinho Pé de Pato, que havia morrido uns sete meses antes do carnaval. Como ele era integrante da bateria, o bloco fez uma parada na porta dele, e ficou por ali um tempo, tocando. Vi muita gente chorando de emoção, e não tinha como não chorar. Outra história, mais recentemente, aconteceu quando inventaram de fazer um concurso para porta-estandarte e musa do Parókia. No dia da apuração eu pedi pra ver os inscritos: só duas pessoas, e as duas para o cargo de musa. Com pena de Fernandinha (atual presidente do bloco), me inscrevi pra qualquer coisa, mas já sabendo que não ganharia nada: primeiro porque, com 62 anos, eu não ia aguentar carregar estandarte; e segundo que, ser musa com 62? Tinha uma mulher, coxuda, uns 10 anos mais nova do que eu, que estava concorrendo pra musa. A galera ficou sabendo que me inscrevi, e quando Fernanda ia anunciar o nome das ganhadoras, o povo começou a gritar “Meri, Meri, Meri…” Eu pensei que era pra carregar o estandarte, mas era pra ser musa, e acabaram colocando o estandarte na mão da coxuda. Fomos nós para o meio da bateria. Depois do bloco tomei todas, fui pro bairro Portinho de faixa e coroa, fiquei doidona, quebrei a coroa e arrebentei a faixa. Na terça de carnaval tive que sair colando tudo com super bonder. E porta estandarte nem apareceu - contou Meri, aos risos.