Canal do Cabral

Campo progressista precisa reatar com as bases para disputar na Região dos Lagos, diz historiador

Em programa de Cabo Frio, Paulo Cotias analisa vitória de Flávio Bolsonaro nas sete cidades da região e afirma que saída do senador do país não é exílio

3 NOV 2026 • POR Redação • 21h08

O historiador Paulo Cotias afirmou que o campo progressista precisa recompor sua relação com sindicatos, grêmios estudantis e associações de bairro para voltar a disputar o poder na Região dos Lagos (RJ), onde o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) superou o presidente Lula (PT) no segundo turno nas sete cidades.

“A esquerda perdeu o contato e o vínculo com aqueles que eram das suas bases mais fundamentais”, disse Cotias ao “Canal do Cabral”, programa de entrevistas apresentado pelo jornalista Moacir Cabral. 

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Lula foi reeleito com 51,8% dos votos válidos, ante 48,2% de Flávio. Na Região dos Lagos, Flávio teve a maioria dos votos. Somadas as sete cidades, o senador recebeu 269.355 votos (64,2%), e Lula, 150.378 (35,8%). No Estado do Rio, Flávio teve 53,1%.

Cidade

Flávio Bolsonaro (PL), votos

Flávio (%)

Lula (PT), votos

Lula (%)

São Pedro da Aldeia

38.739

68,2

18.025

31,8

Iguaba Grande

15.701

65,6

8.216

34,4

Araruama

53.426

64,8

29.032

35,2

Saquarema

44.444

63,4

25.684

36,6

Armação dos Búzios

17.368

63,0

10.206

37,0

Cabo Frio

83.555

63,0

49.113

37,0

Arraial do Cabo

16.122

61,5

10.102

38,5

Total

269.355

64,2

150.378

35,8

Segundo turno, votos válidos. Fonte: TSE

Cotias disse que o impacto desses números na política municipal é relevante e que a direita dispõe hoje de uma estrutura consolidada na região. Cabo Frio e São Pedro da Aldeia são governadas por prefeitos do PL: Sérgio Azevedo Filho, conhecido como Dr. Serginho, e Fábio do Pastel, respectivamente.

O historiador destacou o crescimento do voto em Lula entre os turnos. Em Cabo Frio, o petista passou de 39.944 para 49.113 votos, 9.169 a mais. Flávio somou 342 votos ao total do primeiro turno.

Para Cotias, a mobilização de rua precisa ter objetivo definido. “Mobilizar por mobilizar não é um caminho muito inteligente. É importante que haja pautas”, afirmou. Ele defendeu que a esquerda lance uma candidatura competitiva à Câmara Municipal de Cabo Frio. “Nós já estamos há muito tempo sem uma representação do campo progressista na Câmara Municipal.”

Segundo o historiador, a direita se mantém coesa nas disputas locais, e a esquerda só terá chance se priorizar a unidade entre partidos e movimentos.

Saída de Flávio Bolsonaro

Cotias também comentou a saída de Flávio do Brasil. O senador desembarcou na região de Miami (EUA) na quarta-feira (28), com a mulher e as filhas. “Ele não é um exilado, ele não é um perseguido político”, disse o historiador. Para ele, a viagem está relacionada às investigações a que Flávio responde.

O senador é alvo de dois inquéritos no STF. Um apura suspeita de lavagem de dinheiro em operações ligadas ao advogado Willer Tomaz. Outro investiga o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, com recursos atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

Flávio nega irregularidades, e sua defesa afirma que a relação com Tomaz se limita à amizade entre as famílias. Aliados descrevem a viagem como exílio motivado por perseguição política. Na noite da eleição, o senador disse que não reconheceria o resultado e que pediria a anulação do pleito.

A PF afirmou que a decisão de Moraes não autorizava a prisão do senador. Deputados do PT pediram a prisão preventiva de Flávio por descumprimento da ordem judicial.

Governo do Rio

Questionado sobre a possibilidade de segundo turno para o governo fluminense, Cotias avaliou ser difícil que o STF mude seu entendimento por pressão política. O TSE anulou os 274.411 votos de Anthony Garotinho (Republicanos), que teve o registro de candidatura indeferido, e Douglas Ruas (PL) foi proclamado eleito no primeiro turno com 50,88% dos votos válidos. O PSD, de Paes, pediu ao Supremo a realização do segundo turno. O relator, ministro Cristiano Zanin, ainda não decidiu.

Livro

Cotias é professor, mestre em educação e colunista do jornal Folha dos Lagos. É autor de “12 Lições contra o Neofascismo” (Sophia Editora), lançado em 2024, que descreveu como um ensaio, e não um tratado acadêmico.

Segundo ele, o livro parte do conceito de “ur-fascismo” do escritor italiano Umberto Eco, para quem o fascismo reaparece sob novas formas, e propõe maneiras de identificá-lo e combatê-lo. O próximo livro, disse, tratará de democracia.

O historiador afirmou que a democracia brasileira vive um de seus momentos de maior solidez e citou crises anteriores, como a Revolução de 1930, a ameaça à posse de Juscelino Kubitschek em 1955, a renúncia de Jânio Quadros em 1961 e o golpe de 1964. “Ela pode ser resistente, mas ela não é indestrutível.”