Polícia investiga morte de três mulheres em intervalo de quatro dias na Região dos Lagos
Casos sob suspeita de feminicídio mobilizam movimentos sociais e expõem escalada de crimes contra a mulher na região
A Polícia Civil de Búzios e Rio das Ostras está investigando a morte de três mulheres. Os corpos de Valéria Matos Ribeiro, Emanuelly Caroline Gomes de Oliveira e Taís de Souza Santana foram encontrados em um intervalo de apenas quatro dias. A suspeita é de que as três mulheres tenham sido vítimas de feminicídio, crime caracterizado pelo assassinato de uma mulher em contexto de violência doméstica e familiar ou por menosprezo ou discriminação à condição de mulher.
Em Búzios, Valéria (48 anos) foi assassinada no bairro Vila Verde. O suspeito é o ex-companheiro da vítima, Ademilson da Silva, de 54 anos, encontrado morto horas depois em uma residência no bairro da Rasa. Valéria deu entrada no Hospital Municipal Dr. Rodolpho Perissé na última sexta-feira (23) com uma faca alojada no abdômen. Apesar dos procedimentos cirúrgicos e das transfusões de sangue, a mulher faleceu na madrugada deste domingo (25). Segundo informações divulgadas por familiares, o ataque ocorreu na presença do filho da vítima, de apenas 8 anos. Ao tentar proteger a mãe, a criança também sofreu ferimentos no braço.
No mesmo bairro, policiais militares encontraram, nesta terça-feira (27), o corpo de Emanuelly. A jovem, de 19 anos, estava com as mãos amarradas para trás e apresentava um corte profundo no pescoço. Embora tenha sido registrado inicialmente como homicídio doloso, investigadores da 127ª Delegacia de Polícia não descartam a possibilidade de feminicídio.
Em Rio das Ostras, Taís, de 24 anos, foi encontrada morta nesta segunda-feira (26). O corpo estava dentro de sacolas plásticas, às margens de um valão na Avenida Flor do Campo, no bairro Âncora. Segundo informações, Taís morava com a família e estava desaparecida desde a última quinta-feira (22). Segundo a perícia havia marcas de violência e ferimentos profundos na cabeça.
Os três casos provocaram manifestações de indignação nas redes sociais, e chamaram a atenção de movimentos feministas para os números da violência contra a mulher.
– Eu estou muito ansiosa e tentando entender de onde vem esse sentimento. Fiquei tentando refletir, e acho que é impossível ter outro sentimento que não seja esse, de raiva, de indignação, de insatisfação, de urgência. A verdade é que a gente está vivendo na pele as contradições desse sistema maldito que é o capitalismo, que coloca a vida das mulheres como absolutamente nada. Nós tivemos três feminicídios na região essa semana, e isso não pode ser uma coisa que a gente ache que “tudo bem, está normal, acontece, é estatística”. O discurso de ódio que foi construído nessas eleições, o discurso de que não existe feminicídio, o discurso de que existem plenos direitos entre homens e mulheres, de que não existe violência de gênero, ele é um discurso que repercute, que ganha na consciência das pessoas, e nós precisamos mostrar o outro lado: o lado de que essa violência é inerente a esse sistema em que a gente vive. O capitalismo se sustenta pela violência das mulheres. Ele se sustenta com esse sangue que está sendo derramado na nossa região. E nós precisamos discutir isso na sociedade, nas nossas cidades e ir para a rua. O Estado precisa ser responsabilizado pelo que está acontecendo com as mulheres na nossa cidade, na nossa região - desabafou Chantal Campello, uma das fundadoras da Casa de Referência Inês Etienne Romeu, em Cabo Frio.
A Casa Etienne foi criada em novembro de 2023 através da ocupação de um imóvel abandonado no bairro Itajuru. O espaço, gerido gratuitamente e de forma voluntária pelo Movimento de Mulheres Olga Benário, funcionou como centro de acolhimento para mulheres vítimas de violência e em situação de vulnerabilidade até julho de 2025, quando a Prefeitura acionou a justiça para despejar o movimento social.
– Nós tínhamos uma ocupação que acolhia mulheres em situação de violência, e que por duas vezes foi despejada de forma bastante violenta: essa é a resposta que o Estado dá para o problema da vida das mulheres. Esse vídeo é um convite, uma convocação para você, mulher indignada, homem indignado, que quer transformar a sua raiva em organização e luta, porque não existe outro caminho que não seja esse. Justiça pelas nossas mulheres que foram brutalmente assassinadas no passado e no presente - convocou.
Pétala Cormann é a coordenadora estadual do Movimento de Mulheres Olga Benário na Região dos Lagos. Ela também postou vídeo nas redes sociais.
– Sabe o que tem na Região dos Lagos além de um monte de praia bonita? Um mar de sangue de mulher vítima de feminicídio. Hoje mais uma mulher foi encontrada morta, degolada, dentro de casa, e a polícia está investigando. Ontem, outra mulher foi encontrada em Rio das Ostras, dentro de duas sacolas plásticas, no bairro do Âncora: o corpo já estava em decomposição. E no domingo, a Valéria morreu, depois de ter sido brutalmente esfaqueada pelo ex-companheiro, enquanto levava o filho para a escola. Esse é o sistema que nós vivemos, onde a vida das mulheres vale cada vez menos. E nós precisamos responsabilizar o Estado, porque ele não protege a vida das mulheres, não investe em combate à violência contra a mulher. Ainda fazem um discurso cínico de que não existe feminicídio, de que não existe violência de gênero contra as mulheres: as mulheres estão morrendo por ciúme, por posse, por cobrar pensão do ex-companheiro. Essas mulheres são vítimas de feminicídio, são mulheres trabalhadoras que sustentam essa região, e mesmo assim morrem brutalmente assassinadas pelo descaso, pelo cinismo, pela omissão - pontuou Pétala.
Dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro revelam que somente este ano, entre os meses de janeiro e julho, foram registrados de forma oficial 48 feminicídios e 200 tentativas de feminicídio no estado do Rio de Janeiro. Ano passado, foram contabilizados 105 feminicídios e 307 tentativas. Em 2024, foram 107 feminicídios e 382 tentativas. Em 2023, houve 99 feminicídios e 308 tentativas. O ano de 2022 registrou o maior total de feminicídios do período, com 111 vítimas. Naquele ano, o estado também registrou 293 tentativas. Em 2021, foram 85 feminicídios e 264 tentativas; em 2020, 78 e 270, respectivamente. Em 2019, o levantamento aponta 85 feminicídios e 334 tentativas. Em 2018, foram 71 feminicídios e 288 tentativas. Em 2017, 68 feminicídios e 248 tentativas. Em 2016, os registros foram de 14 feminicídios e 43 tentativas.
Na Região dos Lagos, dados do ISP para o período de janeiro de 2016 a julho de 2026 colocam Araruama na primeira posição do ranking regional de casos de feminicídio: foram 10 casos em 10 anos (dois em 2026, um em 2024, 2023, 2022, 2020 e 2016, e três em 2017). Cabo Frio aparece logo em seguida, com nove mortes de mulheres: uma em 2026, 2025, 2023, 2022, 2021, e duas em 2024 e 2017. Saquarema aparece em terceiro lugar no ranking regional com cinco registros: quatro deles foram apenas em 2024, e um em 2022. Arraial do Cabo, Búzios e São Pedro da Aldeia têm quatro casos de feminicídio cada. Iguaba Grande contabiliza dois em 10 anos.