Kalu Coelho é semifinalista do Prêmio Jabuti com primeiro livro de poesia
Compositora, violonista e musicoterapeuta radicada em Búzios concorre na categoria Escritor Estreante Poesia com "O silêncio é a música mais antiga do mundo"
Antes de virar livro, a poesia de Kalu Coelho ocupava um espaço quase particular. A compositora e musicoterapeuta escrevia havia anos. Em 2024, depois de mostrar os textos ao poeta Edson Cruz e receber dele o incentivo para publicá-los, começou a transformar aquela escrita em uma obra. Dois anos depois, “O silêncio é a música mais antiga do mundo”, publicado pela Editora Patuá, colocou Kalu entre os dez semifinalistas da 68ª edição do Prêmio Jabuti na categoria Escritor Estreante – Poesia. É a primeira obra literária da artista, radicada em Búzios e dona de uma trajetória que, até então, tinha a música como linguagem mais visível.
— Já é uma vitória estar entre os 10. Mas não muda a minha relação com a escrita não... claro que é um importante aval, isso tem grande valor, mas não quero colocar num lugar de vaidade... — diz a poeta em conversa com a Folha.
Aos 49 anos, Kalu, nome artístico de Ana Carolina Cruz de Freitas Coelho, carrega a música desde muito antes da estreia literária. Nascida em Campos dos Goytacazes, em 1977, é filha da diretora de teatro Ana Coelho e do professor Hélio Coelho. Aos 20 anos, mudou-se para estudar Música na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), onde se formou. Compositora e violonista, lançou o primeiro disco autoral em 2013, trabalho que reuniu participações de nomes como Guinga e Filó Machado. Ao longo da trajetória, passou também pela educação musical e pela criação de trilhas para o teatro. Desde 2020, mergulhou na musicoterapia.
E talvez por isso seja difícil encontrar, na obra de Kalu, o ponto exato em que termina uma linguagem e começa outra. Ela escreve pensando em música e compõe música instrumental pensando em palavras.
— Acredito que a poesia está em tudo. Requer uma certa “afinação” do olhar e da escuta. Somos permeados por palavras e sons. Tá tudo misturado. A palavra, o silêncio e o som — afirma.
Em “O silêncio é a música mais antiga do mundo”, essa mistura às vezes cabe em uma boca. Em um dos poemas, a noite aparece “calada como só uma boca pode ser” diante de “um silêncio enorme”. É dali que emerge o verso que batizou a obra —um título que, contudo, não trata o silêncio como ausência.
— Penso o silêncio não como um vazio, mas como algo que produz escuta. Esse tema tem muitas ressonâncias tanto na clínica quanto na arte em geral. O silêncio é aquilo que está antes e também depois — diz.
É nesse intervalo entre palavra e som que os poemas percorrem temas como ancestralidade, amor, tempo e natureza. Em Ancestralidade, gerações de mulheres se embaralham até que passado e futuro deixem de obedecer a uma ordem convencional. Já em Possuir, o amor encontra imagens no mar, no vento e na tempestade.
O mar reaparece em Mar adentro. São apenas cinco versos, nos quais a fronteira entre corpo e paisagem também parece desaparecer: “Eu entro no mar / como se o mar entrasse em mim”. A personagem retorna da água com algas nos cabelos, escamas na pele e “silenciosos olhos de peixe”.
A imagem encontra Kalu também fora das páginas. Ela diz que viver perto do mar é uma escolha. Ao explicar essa relação, recorre a Sophia de Mello Breyner Andresen, poeta portuguesa cuja obra também foi profundamente marcada pelo oceano.
— Acho que a gente sempre escreve sobre aquilo que atravessa a gente. Certamente tem um pouco de tudo isso — diz.
Essa confluência também foi percebida por Edson Cruz. Ao apresentar O silêncio é a música mais antiga do mundo, o mesmo poeta que incentivou Kalu a publicar os escritos identifica nos textos uma poesia carregada de música e uma “brisa marítima”, além de destacar a maturidade da voz encontrada no primeiro livro.
A estreia já levou essa voz para além das páginas. A obra integrou a programação da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e, agora, chegou ao Jabuti, uma das mais tradicionais premiações do livro brasileiro.
Além de Kalu, concorrem na categoria Felipe Bier Nogueira, Mariana Castro, Juliana Cajives, Camila Paoletti, Ivana Fontes, George França, Stella Prata, Lucas Ortolan e Andressa Nunes. A próxima etapa será em 14 de outubro, quando serão anunciados os cinco finalistas. Os vencedores das 23 categorias serão conhecidos no dia 27, em cerimônia na Sala São Paulo, na capital paulista.
Independentemente de até onde o primeiro livro chegar na disputa, a experiência não parece empurrar Kalu para longe da música. É justamente o contrário.
— Sempre vou procurar integrar minha música na minha poesia e colocar poesia na música. Isso pra mim deve ser junto e misturado o tempo todo. Já terminei esse pensando no próximo. Tá quase pronto!