Conquista histórica: o percurso da água potável nos quilombos da região
Famílias do núcleo Zebina, no Quilombo de Baía Formosa, em Búzios, abrem torneiras há apenas dois anos
NOVO TEMPO: Valquíria esbanja sorriso ao lavar louça na pia da cozinha pela primeira vez
(Foto: Elissa Oliveira)
A água cai da torneira da cozinha de uma das casas do núcleo Zebina, no Quilombo de Baía Formosa, em Armação dos Búzios, e Valquíria dos Santos Conceição, de 51 anos, abre um sorriso largo: é alívio em forma de felicidade.
– Foram 49 anos tomando banho com balde e caneca. Para lavar louça a gente reaproveitava a água do balde. Tenho até dor na coluna por causa do peso de ter passado anos carregando latas de água nos ombros - contou a quilombola.
À reportagem da Folha, ela também relatou hábitos recentes e muito distantes da realidade de quem sequer precisa refletir sobre o privilégio que é, por exemplo, um banho de água morna após um dia de trabalho, a limpeza da louça do almoço com água da torneira ou o uso da máquina de lavar para ter roupas limpas.
– Até hoje lembro do dia que a água chegou no quilombo: as crianças pulavam de alegria. Água significa tudo pra gente. É poder lavar louça, lavar roupa, cuidar dos animais. Só não pode demorar com a torneira aberta - reforçou com a consciência de quem cuida do bem conquistado sem dar espaço para o desperdício.
Para as famílias que vivem nos quilombos da Região dos Lagos, algum tempo atrás o acesso à água potável só existia nos relatos de quem vivia fora do território. No quilombo da Rasa, em Búzios, o abastecimento chegou em 1998, com o início da concessão da Prolagos. No quilombo da Caveira, em São Pedro da Aldeia, a água encanada virou realidade em 2012. E, para as 56 famílias que vivem no núcleo Zebina, do Quilombo de Baía Formosa, a água potável só começou a cair nas torneiras há apenas dois anos.
A primeira moradora da comunidade foi Zebina Antunes dos Santos, que morreu em 2007. Descendente de negros escravizados, tornou-se matriarca de todo o núcleo, que surgiu em 1912 e hoje leva o nome dela. Por 112 anos, os moradores desse povoado precisaram equilibrar baldes na cabeça, nos ombros ou na garupa das bicicletas para ter acesso a um recurso tão presente na vida de grande parte das famílias buzianas, inclusive das que vivem ali no entorno. Antes da rede de abastecimento da Prolagos chegar, eles usavam água de poço para higiene e alimentação. Mas o recurso era limitado, e nem sempre próprio para consumo.
Tataraneto de negros escravizados que fugiram da Fazenda Campos Novos, em Tamoios, Ricardo Bem Querer é ex-presidente da Associação de Moradores e da Comunidade Quilombola da Baía Formosa, e um dos moradores do núcleo Zebina. Foi durante a gestão dele que o sonho da água potável começou a virar realidade no quilombo buziano.
ALÍVIO: Com água tratada em casa, Ricardo revela alegria pelo banho no chuveiro enquanto rega as plantas
(Foto: Elissa Oliveira)
– Nossa comunidade existe desde 1912. São 80 mil m² de terra só do núcleo Zebina. Em 2002 criaram a Área de Proteção Ambiental (APA) do Pau Brasil e incluíram nosso quilombo dentro dessa delimitação. Em 2013 criaram o Parque da Costa do Sol, e também incluíram nosso quilombo nessa área de proteção, e isso nos trouxe limitações com relação ao fornecimento de energia elétrica e abastecimento de água. Tivemos que acionar o Ministério Público Federal e o Incra para provar que nós já estávamos aqui antes da criação dessas áreas ambientais, e conseguir autorização para termos acesso à água e luz. Foram quatro anos de luta, até que em 2024 conseguimos o abastecimento de água, e em agosto do ano passado o fornecimento de energia elétrica. A chegada da água potável melhorou tudo pra gente. Pra mim, trouxe a dignidade do primeiro banho de chuveiro na minha casa. Antes a gente tinha que usar balde, cacimba e latões de tinta para buscar água no Poço da Mangueira. Eram latas pesadas, daquelas de 20 litros. A gente tinha que acordar cedo pra pegar água no poço porque se demorasse muito só pegava barrenta. E era essa mesma água que a gente bebia. Por isso, hoje, quando ligo o chuveiro, dou o maior valor. Antes tinha que tomar banho de caneca e reutilizar a água no vaso sanitário. Agora podemos ter até máquina de lavar e tanquinho - contou Ricardo.
À Folha, a Prolagos informou que foram implantados pouco mais de 1 km de rede de abastecimento de água no núcleo Zebina. A intervenção permitiu que os imóveis da localidade passassem a receber água tratada de forma regular pela primeira vez. Segundo a concessionária, a ação integrou um pacote de pequenos projetos de extensão de rede em Armação dos Búzios, que somaram um investimento de aproximadamente R$ 1,2 milhão, contemplando também outros trechos na Baía Formosa, na Rasa e na Vila Caranga.
Para viabilizar a expansão, a concessionária informou que foi necessário realizar um planejamento técnico da nova estrutura, e sua integração ao sistema de abastecimento existente, considerando as características da região e as condições necessárias para garantir a segurança operacional e a eficiência do fornecimento.
– A implantação de uma nova rede exige um planejamento cuidadoso para que a infraestrutura seja integrada de forma adequada ao sistema existente e possa operar com segurança e eficiência. No núcleo Zebina, nosso objetivo foi justamente ampliar a estrutura de abastecimento e possibilitar que os moradores passassem a ter acesso à água tratada de forma regular. É um trabalho que contribui diretamente para a melhoria da qualidade de vida da comunidade - explicou Dinomar de Oliveira, coordenador de manutenção da companhia.
Segundo a geóloga Kátia Mansur, especialista com experiência em Geologia Ambiental, Hidrogeologia e Geoconservação, o Poço da Mangueira é uma escavação vulnerável às oscilações do clima, e que seca em períodos de estiagem. Ele fica localizado em uma área de mata próxima ao núcleo Zebina.
– Conheci a comunidade quilombola da Baía Formosa em 2014, mas o núcleo Zebina só conheci em 2023, quando conseguimos recursos de um edital do Parque Tecnológico da UFRJ para implantar painéis solares para bombeamento de água para agricultura familiar e de subsistência no quilombo. Em reunião com a comunidade, eles elegeram dois núcleos para receber o projeto: o Zebina e o Origens. Então, passamos a percorrer o território, visitar residências, conhecer os pontos de água existentes e conhecer as pessoas, saber das necessidades delas. Visitamos quase todas as casas do núcleo Zebina, e naquele momento eu conheci o tal do Poço da Mangueira. Foi quando decidimos que ali seria ideal fazer outro poço. Conseguimos aprovação do Inea para fazer a perfuração, mas pra isso tivemos que alugar dois geradores, porque descobrimos que eles não só não tinham água, como também não tinham energia elétrica, e sem energia não dava para usar a sonda para furar o poço. Os recursos desse projeto serviram para fazer um poço com o kit de energia elétrica solar em Zebina - contou a pesquisadora, lembrando que foi preciso instalar um painel de energia solar no telhado da casa de um morador, e um dispositivo na parede, para bombear a água do novo poço de forma sustentável.
Desde que foi fundado, em 1912, o núcleo Zebina, do Quilombo de Baía Formosa, sempre sobreviveu da agricultura. Mas a falta de abastecimento de água era um problema constante. Zé Paulo, de 80 anos, é filho de Zebina. No quintal de casa ele tem plantação de mandioca, abóbora, abacaxi, batata e couve entre outros. À Folha ele contou que a água do Poço da Mangueira não era suficiente para a rega da plantação e para o consumo e higiene.
CONSCIÊNCIA: Zé Paulo usa a água da Prolagos pra consumo e higiene, e deixa a água de poço para a plantação
(Foto: Elissa Oliveira)
– Já teve época, há muitos anos, de ter que ir de bicicleta no Jacaré, em Cabo Frio, para buscar água. Depois passamos a pegar aqui perto do IFF. Para a plantação não tinha jeito: era esperar a chuva para regar tudo. Mas desde que a água da Prolagos chegou, em 2024, a água do poço ficou só pra plantação. Agora tá tudo brotando com força - contou.
Essa transformação na rotina se refletiu de forma direta dentro das casas e no preparo das refeições. Filha de Zé Paulo, Valquíria dos Santos Conceição mora no núcleo Zebina desde que nasceu, há 51 anos. Acostumada a cozinhar usando água do Poço da Mangueira, ela contou que a comida ganhou outro sabor com o uso da água potável.
Médico sanitarista, Beto Nogueira lembra que do ponto de vista da saúde pública existem considerações importantes que devem ser feitas com relação ao uso da água de poço.
– A água de poço, utilizada há séculos pela população, atendia perfeitamente as comunidades da nossa região, até porque eram as únicas fontes de água potável que a gente tinha: as águas de poço e de cacimba. Mas, com o crescimento das comunidades do entorno, esses poços passaram a receber expressões demográficas com uso mais constante, levando ao seu esgotamento contínuo e mais grave: a contaminação por dejetos urbanos. Os principais riscos para o consumo de água de poço são as doenças de veiculação hídrica como diarreia, as gastroenterites, Escherichia coli, as hepatites, cólera, tifo e outras salmoneloses, amebíase, giardíase e várias verminoses. Já a água potável tratada é importante também para a higiene pessoal por não transmitir agentes de doenças de pele e as dermatites, assim como também é importante na higienização de produtos do lar, porque a água tratada tem cloro, que é um bactericida, enquanto a água de poço não tem nenhum bactericida. Se você lavar qualquer coisa na água de poço, e ela tiver algum agente patogênico, esse agente vai permanecer na louça lavada ou na pele. Então, além de ser uma segurança para a saúde pública da população, a chegada da água potável deve ser um respiro para que o Poço da Mangueira seja preservado para as futuras gerações - revelou.
Beto Nogueira também reforçou que mesmo que o Poço da Mangueira apresentasse boa qualidade nas análises realizadas, ainda assim não era uma água tratada. “Água de poço sempre vai sofrer com condições adjacentes: chuvas, enxurradas, dejetos a menos de 17 metros do poço, utensílios que são inadequados para captar essa água…”
Agora, com água potável nas torneiras de casa, Valquíria conta que até o ato de lavar louça é motivo de alegria. E no caso dela, a chegada da água potável através da Prolagos significou muito mais do que cuidar melhor da casa, melhorar o sabor da comida, ou ter acesso a certos confortos, como ter uma máquina de lavar. Mãe de quatro filhos, para Valquíria a água encanada também significou aumento na renda familiar.
RENDA EXTRA: Com o uso sustentável da água, Valquíria aumentou a produção de licor e melhorou a renda da família
(Foto: Elissa Oliveira)
– Eu tenho muitas árvores no meu quintal, e sempre usei as flores e frutas para fazer licor e vender. Tenho pé de tangerina, mangueira, limoeiro, coqueiro, bananeira, jabuticabeira… Mas elas não davam frutos porque a gente não tinha água pra regar. A água do Poço da Mangueira era limitada e só para consumo: não tinha o suficiente pra usar na plantação. Então só nos restava esperar pela chuva pra molhar o quintal. E como aqui chove pouco, a produção também era pequena. Com tudo o que conseguia colher, fazia uns 50 litros de licor. Mas quando a água potável chegou, passamos a usar a água de poço só para a plantação, até porque ela é mais salobra. E, como com água tudo floresce mais rápido, minha produção de licor mais do que dobrou - revelou.
Do ponto de vista hidrogeológico, Kátia Mansur reforça que não só em Búzios, mas em toda a Região dos Lagos, existe muita dificuldade de ter água de poço isenta de sal por conta da pouca chuva que recarrega o aquífero. Segundo ela, tem ainda a questão da água do mar, que acaba infiltrando e contaminando o lençol freático e a água subterrânea. Por isso, ela defende que a chegada da água potável foi um grande avanço para a comunidade quilombola do núcleo Zebina.
– Eles nem deveriam beber a água de poço por causa da grande concentração de sal. Aquela água teria que passar por um processo de filtração por osmose reversa para tirar a salinidade, e ainda tem alguns elementos químicos que não são adequados para consumo humano. Mas ela serve para uso nas plantações, e para lavar algumas áreas. Já do ponto de vista dos impactos ambientais e sociais, o abastecimento com a água potável mudou tudo pra eles. Imagina não ter água pra lavar roupa, pra higiene da casa como um todo. Tudo isso era crítico, e eles contavam apenas com a água do Poço da Mangueira, que secava. Ou seja, em um alguns períodos eles não tinham água nenhuma. Quanto à segurança hídrica, isso foi outro ganho incrível: a água encanada não é adequada para molhar as plantas porque tem um custo financeiro para eles. Mas a água de poço vai ser infiltrada no mesmo local de onde ela foi tirada, e isso tem sustentabilidade. Além disso, como eles não usam agrotóxico, não há nenhum tipo de contaminação sobre essa água que volta a ser infiltrada no solo - explicou.
Além da expansão do abastecimento de água, a Prolagos informou que também mantém projetos voltados à expansão da cobertura de esgotamento sanitário nos quilombos da região. Na comunidade de Botafogo-Caveira, em São Pedro da Aldeia, a empresa anunciou que já está em andamento uma obra que prevê a implantação de mais de sete quilômetros de rede coletora de esgoto. Até o momento, já foram implantados mais de 2,5 quilômetros de rede. O projeto contempla ainda uma Estação Elevatória de Esgoto, mais de cinco quilômetros de linha de recalque e 163 poços de visita. A previsão é que as intervenções sejam concluídas até o final de 2026.
Para a região do quilombo da Rasa e de Maria Joaquina, em Búzios, a implantação de redes coletoras de esgoto está na proposta da concessionária para o próximo plano de investimentos, que será apresentado à Agência Reguladora.
Fotos: Elissa Oliveira