Pesquisas com baleias em Arraial do Cabo revelam novas condutas das espécies no litoral
Especialista revela que animais usam o mar cabista para reprodução e alimentação, e não apenas como área de passagem
O monitoramento científico de baleias, em Arraial do Cabo, está avançando na coleta de dados e revelando descobertas importantes sobre como os animais utilizam o litoral da região. Os novos dados ganham destaque justamente com o início da atual temporada de migração na costa cabista, no mês de maio.
Coordenadora de um projeto de pesquisa focado nessas espécies no município, a bióloga Samara Valle conversou com a Folha e falou sobre as novidades observadas e os desafios do trabalho de campo. De acordo com a especialista, a atual temporada apresenta uma frequência bastante consistente de registros, fornecendo dados importantes para as análises.
— Tem sido uma temporada muito boa. Temos observado as baleias com uma frequência bastante consistente. Agora, no início, temos mais grupos pequenos em deslocamento. Ainda não tivemos registros de filhotes ou grupos maiores, mas com certeza virão ao longo da temporada - explicou Samara.
Sobre o levantamento de dados populacionais, e uma estimativa exata de quantos cetáceos já cruzaram o litoral em comparação com anos anteriores, a bióloga esclareceu a metodologia aplicada.
— Ainda é cedo para ter uma estimativa deste ano. Além disso, o nosso método de pesquisa é baseado principalmente em saídas embarcadas. Então, não fazemos um levantamento populacional de fato. Nós registramos, sim, a quantidade de baleias que acompanhamos no dia, coletamos outras informações importantes, mas a parte de estimativa de quantidade de baleias costuma ser mais adequada para trabalhos realizados em ponto fixo em terra. Eu não posso fazer uma comparação exata com os anos anteriores mas, até então, tenho visto uma quantidade semelhante em relação ao ano passado - detalhou.
As pesquisas realizadas por Samara têm transformado o entendimento tradicional sobre o papel do mar cabista na rota dos cetáceos. Historicamente, acreditava-se que a costa de Arraial do Cabo servia apenas como um corredor de deslocamento em direção a Abrolhos (no sul da Bahia) que é considerado o principal berçário da espécie no Brasil, e onde acontece o nascimento e o cuidado dos filhotes. No entanto, o monitoramentos feitos nos últimos anos desenham um cenário diferente.
— Durante muito tempo a gente acreditava que Arraial do Cabo era só uma área de passagem. Mas nos últimos anos temos observado também a presença de filhotes, além de sempre vermos grupos competitivos, que são formados por vários machos disputando por uma fêmea. E esses registros mostram que as baleias também realizam atividades reprodutivas aqui na costa cabista, e que não utilizam essa área só para passagem - revelou a bióloga.
Além do aspecto reprodutivo, novas condutas inéditas começaram a ser mapeadas pela pesquisa de campo.
— A região do Brasil continua sendo uma área de reprodução. Tivemos alguns registros pontuais de alimentação nos últimos anos. Não é um comportamento considerado comum durante a migração reprodutiva, já que a área de alimentação delas é na região da Antártica, nas ilhas Geórgia do Sul. Então,foi algo muito interessante de se registrar, e que talvez possa até mudar o que conhecemos sobre elas, embora ainda sejam somente eventos ocasionais - avaliou.
O trabalho de monitoramento científico, embora importante, enfrenta limitações que, segundo Samara, não estão no controle dos pesquisadores. A equipe depende de condições ambientais, especialmente da intensidade do vento e do estado do mar, que também compromete a visibilidade nas buscas pelas baleias na costa de Arraial do Cabo. A atividade também exige bastante paciência, e às vezes um pouquinho de sorte para respeitar o tempo e o comportamento dos animais.
Durante as saídas embarcadas, os pesquisadores registram a localização exata dos animais, a composição do grupo (se são adultos, juvenis ou filhotes) e alguns comportamentos, além de marcas, cicatrizes e interações com outras espécies.
O foco principal do monitoramento, de acordo com Samara. está no registro para fotoidentificação. No caso das baleias-jubartes, ela explica que cada indivíduo possui uma característica única na região ventral da cauda, funcionando como uma digital.
– É através da avaliação dessas características que a gente consegue saber se a baleia já passou por Arraial anteriormente, e se ela foi registrada em alguma outra região, em outros anos. Quanto mais informações tivermos sobre a espécie e sobre a forma que ela está utilizando a nossa região, mais conhecimento teremos para contribuir com medidas de conservação e proteção desses animais - revelou a pesquisadora.
À Folha, Samara também explicou que a posição geográfica de Arraial do Cabo funciona como um ponto fundamental para a realização desses estudos devido à formação do cabo. A região, segundo ela, fica diretamente na rota migratória das baleias em direção ao norte. Enquanto algumas baleias passam mais afastadas da costa, a grande maioria margeia o litoral, permitindo que os cientistas e moradores observá-las muito próximas da terra firme.
Outro diferencial apontado pela pesquisadora é a riqueza ambiental local. Arraial, de acordo com a Samara, sempre foi uma região extremamente rica em biodiversidade devido ao fenômeno da ressurgência, que torna o ambiente marinho local muito produtivo e atrativo para as espécies.
Durante a conversa com a reportagem da Folha, a bióloga também apontou quais espécies de baleias costumam frequentar o mar cabista.
— A principal espécie que vemos nessa época é a baleia-jubarte, sem dúvidas. Ela realiza essa migração todos os anos, então, entre os meses de maio a setembro, é a espécie mais garantida de conseguir avistar aqui, especialmente de junho a agosto. Mas, todos os anos, também temos registros de algumas baleias francas: elas também realizam essa migração. Não são tão comuns por aqui, elas costumam ficar mais concentradas no sul do Brasil, porém sempre tem uma ou outra que acaba subindo para cá. Além delas, temos a baleia de bryde, que, apesar de ser mais difícil de ver, está sempre por aqui, e outras que são vistas com menos frequência, como a minke, a fin, fora as espécies de odontocetos, como o golfinho nariz-de-garrafa, que é o mais frequente, e, claro, as orcas também - enumerou.
Para garantir a integridade dos animais mapeados e a segurança das embarcações, regras rígidas de avistamento foram criadas pela Prefeitura de Arraial do Cabo, e devem ser seguidas na região, que integra a área da Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo (RESEX). Conforme as diretrizes oficiais de fiscalização ambiental para a temporada de 2026, é expressamente proibido perseguir os animais, se aproximar de barco com o motor engatado a menos de 100 metros de distância do animal, ou bloquear o curso natural de deslocamento das baleias. Quando os animais demonstram aproximação espontânea, os comandantes devem manter os motores em neutro para evitar acidentes com as hélices.
O fortalecimento da pesquisa e da preservação, de acordo com Samara, passa pelo envolvimento direto dos moradores locais.
— Aqui nós temos a iniciativa do turismo de base comunitária, onde os moradores e pescadores passam por uma capacitação e se tornam os protagonistas no turismo de avistamento de baleias. E é muito legal porque, além de eles passarem pela capacitação, eles carregam muito conhecimento empírico e geracional. Acho muito legal ter essa troca com eles e trazê-los mais para perto da conservação desses animais - defendeu.
A colaboração no fornecimento de dados e registros também foi estendida ao público geral.
— Da mesma forma, a população em geral também pode ajudar. Cada vez mais as pessoas estão se interessando pelas baleias, realizando fotos, vídeos e trazendo informações que podem, sim, contribuir para a pesquisa. Mas, claro, isso pode ser feito de forma consciente e buscando os meios certos para isso - orientou a pesquisadora.
Para organizar e receber esse volume de dados gerados por moradores e turistas, a pesquisadora contou que existem redes específicas estruturadas na região.
— Nós temos alguns grupos de ciência cidadã, que incluem a comunidade geral e pesquisadores, que também utilizam esses canais para receber informações sobre avistamentos, também o compartilhamento de fotos e vídeos. E o ICMBio, que é o maior órgão responsável pela Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo - concluiu Samara.