UM ANO DE SILÊNCIO

Prefeitura de Cabo Frio ignora Conselho do Rui Barbosa sobre fechamento da escola

Mesmo protegida por lei como patrimônio imaterial, escola tem pedidos de reunião ignorados pelo município

12 JUN 2026 • POR Redação • 12h46

Um ano depois da retomada das negociações para o fechamento do Colégio Municipal Rui Barbosa, em Cabo Frio, estudantes, pais e membros do Conselho Escolar ainda aguardam ser chamados para uma reunião na Prefeitura. Desde maio do ano passado o grupo vem tentando agendar audiência com o prefeito Serginho Azevedo, e com a Secretaria de Educação, mas todos os ofícios foram ignorados.

Como forma de protesto, uma faixa foi instalada na frente da escola para marcar o "aniversário de silêncio". A falta de comunicação também se estende aos questionamentos feitos, esta semana, pela reportagem da Folha. A administração municipal não respondeu sobre os motivos para não receber a comunidade escolar, nem sobre o estágio atual das negociações definidas em um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC).

Esta não é a primeira vez que o Colégio Rui Barbosa é alvo de movimentações para encerramento das atividades. Há mais de 20 anos esse fantasma ronda a escola, mantendo a comunidade escolar em constante alerta. Em 2014, por exemplo, o então prefeito Alair Corrêa alegou falta de recursos para manter a unidade de ensino funcionando. Desta vez, no entanto, todos foram pegos de surpresa. Em entrevista à Folha ano passado, a então diretora Ivana Márcia Veríssimo dos Santos, disse que ficou sabendo da retomada das negociações por conta de uma ata que foi enviada, por engano.

— Nós recebemos a notícia de uma maneira equivocada, através de uma ata de uma reunião que teve entre o Ministério Público (MP), o secretário de Educação (Alfredo Gonçalves) e um representante da Secretaria Estadual de Educação. Essa ata acabou sendo enviada, por engano, para o Fundeb, que é um órgão fiscalizador. Foi como se o Fundeb também tivesse participado da reunião. Então foi assim que descobrimos as novas tratativas para o encerramento do Ensino Médio municipal, passando os alunos para a rede estadual — contou Ivana na época.

Então presidente do Conselho Escolar, e atual diretora do Rui Barbosa, Mônica Almeida chegou a revelar que a reunião que gerou a ata foi fruto de uma articulação iniciada ainda em 2021, a partir de uma ação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). O órgão está cobrando do município a criação de vagas em creches e no Ensino Fundamental. E, como contrapartida, propôs o encerramento total do Ensino Médio na rede municipal, justificando que a responsabilidade por esta etapa de ensino cabe ao Estado. 

Estudantes, familiares, funcionários e apoiadores do movimento #RuiResiste defendem que o orçamento do município é suficiente para expandir as vagas na educação infantil com outros recursos financeiros, sem a necessidade de sacrificar uma escola de referência. Atualmente, cinco escolas da rede municipal de Cabo Frio possuem turmas de Ensino Médio, mas o Rui Barbosa é a única unidade onde 100% das salas são dedicadas a esse segmento. 

Para driblar o silêncio do prefeito, e chamar a atenção para o assunto, a comunidade escolar vem realizando várias manifestações ao longo do último ano, com distribuição de informativos e publicação de conteúdos nas redes sociais. Um abaixo-assinado contra o fechamento do Rui também foi criado, e placas de protesto foram instaladas na fachada da escola.

“A população de Cabo Frio reagiu, apoiando a continuidade da escola, que é reconhecida por todos como uma instituição pública de alta qualidade e protegida por lei municipal como patrimônio cultural imaterial (Lei Municipal nº 3472/2022). Porém, o gabinete do prefeito não respondeu aos documentos que solicitam reunião, e também não recebeu os representantes da escola durante as manifestações realizadas. Enquanto ignorou os pedidos da comunidade escolar e da população, continuou negociando acordo que acarreta no fechamento definitivo da escola”, diz um trecho da nota enviada pelo Conselho Escolar à Folha esta semana.

Ao jornal, o grupo disse que “apesar da lei federal afirmar que as redes de ensino público devem ser administradas de forma democrática, a Prefeitura seguiu negociando o fechamento da escola de forma anti-democrática, desconsiderando os apelos da população e os pedidos de diálogo do Conselho Escolar do colégio. Desconsiderou também a própria legislação municipal, que obriga a preservação da escola enquanto patrimônio cultural”. Afirmou ainda que “não se tem informação sobre a continuidade dessas negociações em 2026, pois o MPRJ negou o pedido de acesso às novas atas das reuniões, que deveriam ser públicas, e denunciou que a Câmara Municipal de Vereadores também não teria respondido às solicitações de uso da Tribuna Livre da Câmara, “mesmo sendo um direito de todo cidadão”. A Folha questionou o Ministério Público e a presidência do legislativo municipal, mas não houve retorno.