CULTURA

Documentário "Homens da Lagoa" estreia em Cabo Frio com proposta de poesia cinematográfica

Com circuito gratuito a partir de 17 de junho, obra resgata a tradicional pesca do camarão rosa na Praia do Siqueira e celebra a identidade caiçara

15 JUN 2026 • POR Redação • 10h04

No próximo dia 17 a riqueza cultural e a biodiversidade da Lagoa de Araruama vão ganhar destaque com o lançamento oficial de “Homens da Lagoa e outras histórias de pescador”. A estreia será às 18h30, no jardim interno do Museu de Arte Religiosa Tradicional (Mart), com entrada gratuita. O documentário tem cerca de 30 minutos de duração e foi idealizado como uma continuidade de “Homens do Mar”. As imagens conectam de forma poética o Canal Itajuru à Lagoa de Araruama, tendo como cenário central a Praia do Siqueira e a Ponta do Ambrósio, através da tradicional pesca artesanal do camarão rosa e do mais famoso pôr do sol da Região dos Lagos.

No dia seguinte à estreia, o filme será exibido no Museu José de Dome (Charitas). No dia 19 de junho a sessão será na Escola Estadual Praia do Siqueira. Todas as exibições serão gratuitas e acontecem a partir das 18h30h. Em conversa com a Folha, o diretor Guto Madeira disse que, além do circuito oficial, também planeja uma apresentação comunitária.

– Com certeza vamos realizar uma exibição no deck dos pescadores da Praia do Siqueira, para reunir toda comunidade na celebração da nossa arte – garantiu.

A produção de “Homens da Lagoa e outras histórias de pescador” foi contemplada pela Lei Paulo Gustavo, por meio da Prefeitura Municipal e da Secretaria de Cultura de Cabo Frio. O formato diferenciado da obra, que mistura documentário e arte, surgiu após uma mudança no cronograma do edital.

– Com o adiamento das datas finais do edital, ganhamos tempo para uma melhor avaliação sobre as gravações. Estávamos vendo muitas entregas nesse formato tradicional, e decidimos inovar. Nosso DocArte veio para entregar cenas inéditas e exclusivas da Praia do Siqueira e da tradicional pesca artesanal do camarão rosa. Acreditamos que assim iríamos sair do óbvio para uma produção cinematográfica poética moderna, inovadora, dinâmica e surpreendente. Modéstia à parte, conseguimos um resultado absolutamente de cinema – explica o Guto, que também assina a direção de fotografia.

O processo completo de desenvolvimento de todo o documentário durou aproximadamente três anos. Esse intervalo compreendeu desde a construção do argumento, a preparação e a seleção no edital, até as visitas técnicas, formação de equipe, elenco e gravações. O embasamento do filme contou com pesquisas realizadas por Liana Turrini e Heleno Turrini, fundamentais para direcionar o posicionamento da narrativa. O roteiro também ganhou corpo com o expressivo acervo de Marcio Werneck com o folclore "A Tauba de Soares" disponível em marciowerneck.com.br. Liana também assina a direção de arte e atua como poetisa cinematográfica.

Os planos de filmagem foram traçados de acordo com a disponibilidade dos pescadores locais, que contribuíram para o documentário. A proposta, segundo Guto, buscou registrar perspectivas inéditas da localidade através de cenas espetaculares e jamais vistas.

– Todos nós temos aquelas belíssimas fotografias do pôr do sol característico da Praia do Siqueira, mas até hoje ninguém fez essas cenas de dentro da Lagoa. Por isso, temos uma poesia cinematográfica inédita onde o telespectador irá se ver dentro da Lagoa – explica Guto.

A captação de imagens envolveu uma rotina intensa para a equipe de cinegrafistas, composta por Guto Madeira, Carlos Almeida, Luis Simpson e Renata Senra. O grupo precisou lidar com limitações orçamentárias que impediram filmagens noturnas (período em que o arrasto do camarão de fato ocorre). 

– Mas não desistimos. Ajustamos com os pescadores alguns pontos estratégicos e horários distintos onde poderiam encenar o que seria essa tradição. Literalmente, tive que nadar na lagoa para fazer algumas cenas. Nos reunimos sempre às 15h na Praia do Siqueira e na Colônia Z4 para organizar os planos de filmagens. E na hora certa saíamos para as captações. Foi difícil porque os pescadores não são atores, e o tempo de final de tarde é muito curto: logo ficava escuro. As canoas são apertadas, específicas para pesca e não para transporte de pessoas com equipamentos. Mas a atenção especial que os pescadores nos deram foi incrível. Vivemos uma troca de experiências excepcional onde a arte da pesca sincronizou harmoniosamente com arte cinematográfica - contou Guto.

A narrativa ganhou, ainda, um contorno heróico com a presença dos trabalhadores locais e de embarcações que contextualizam a introdução do filme. 

– As participações especiais deram um charme para nossa arte. Eu adoro quando nossos amigos e equipe confiam e acreditam nas minhas ideias. E foi exatamente isso que aconteceu com o Calypso, que é o nome do barco de Rafael Turrini e Victorio Turrini, nossos assistentes de produção. Eles nos levaram embarcados para cenas maravilhosas na Ponta do Ambrósio, e isso gerou um diferencial para as cenas de apoio que contextualizam a introdução. O mesmo ocorreu com o Gecay, nome do barco de Aldry Coutinho, pescador local da Boca da Barra, tradicional marisqueiro da região e que foi o protagonista do documentário “Homens do Mar”. Traçamos uma forma de cruzar a Boca da Barra e o Canal Itajuru, passando até a Ponta do Ambrósio e chegando à Praia do Siqueira. Essa introdução faz o passado e o presente de outras histórias de pescador ser a principal narrativa. Adriano Lemos, Aldry Coutinho, Eduardo Lopes, Fagner Luis, Marcio Rangel, Patrick Meirelles e Renato Farias – preciso deixar essa ressalva – são pescadores, mas que em nosso filme estão como heróis. Eles são os verdadeiros artistas da tradicional pesca artesanal do camarão rosa - revelou o diretor.
 
Durante conversa com a Folha, Guto lembrou que a trilha sonora do documentário foi selecionada a dedo “para preservar a necessidade de autoralidade, originalidade e autenticidade de uma obra totalmente independente e produzida por gente daqui, envolvendo cenário, temática, poesia, cenas, trilhas sonoras, elenco e equipe”. O trabalho traz canções assinadas por Ivo Vargas, Junior Carriço e Vitalino. Guto explicou que foi taxativo com relação à participação dos três músicos no documentário.

– Eles vivem dessa arte. As músicas autorais parecem que foram feitas exclusivamente para essa obra, mas não foram. Tudo isso foi uma sinergia absurda. A gente sabia que eles conseguiriam passar para o público a sensação do próprio caiçara viver e produzir sua arte. O público vai se sentir pertencente ao DocArte - revelou.

Para o diretor, realizar o projeto com o suporte da Lei Paulo Gustavo representa a realização de um sonho, além da oportunidade de colocar em prática as ideias e dar visibilidade às tradições, culturas e obras de artes de Cabo Frio. Citando uma declaração do ator Wagner Moura, que se definiu como fruto das leis de incentivo à cultura, Guto reforçou que sua produtora (Filmadera), e a viabilização de sua equipe, também dependem desse fomento.

– A maioria acha que é fácil ser beneficiado por essas leis de suporte cultural, mas isso é algo que exige muita dedicação, noites sem dormir, e muito conhecimento e amor por aquilo que se faz. E o mais absurdo disso tudo é poder ver a obra pronta, iniciar os preparativos das exibições e perceber o quanto o público quer ver essas histórias. E ainda tem todo o carinho que venho recebendo de forma geral, como vocês, da Folha, que estão sempre de portas abertas para gente falar sobre nossa arte.

O filme carrega ainda uma carga afetiva profunda, sendo dedicado à memória da mãe do diretor. Guto recorda que ela costumava contar que um antigo diretor de escola previa seu futuro dizendo "esse aí vai ser artista". A homenagem, segundo ele, se consolidou de forma espontânea quando o cartaz do documentário foi publicado nas redes sociais justamente em um domingo de Dia das Mães.

O olhar sensível impresso na direção do DocArte é diretamente associado por Guto aos sentimentos e à criação que recebeu da mãe dele, fazendo com que as relações pessoais e profissionais andem juntas.

– Esse DocArte retrata isso de forma inovadora e sensível. As cenas contam as histórias por si só, apenas acontecem, com total harmonia. Os recortes são precisos. A imersão dessa poesia cinematográfica não deixa passar nenhuma cena: todas elas fazem sentido e dão continuidade. Mensagens subliminares estão evidentes, e algumas são declarações de amor. Vamos fazer o público se emocionar com uma pescaria e, melhor ainda, se sentir como se fizessem parte dela. Eles também vão refletir sobre o que é legado histórico cultural. Meses atrás ouvi sobre estar sendo um guardião da memória, e isso me tocou profundamente, aumentou minha responsabilidade e compromisso com nossas histórias – explica Guto.

Para produzir o filme, ele também contou com direção executiva de Renata Senra e Taz Mureb. A assistência de produção ficou por conta de Renata Senra, Liana Turrini, Carlos Almeida, Sophia Senra, Victorio Turrino e Rafael Turrini. A pesquisa de argumentação e texto ficou por conta de Liana e Heleno Turrini. A co-produção é assinada pela A Casa da Praia e Rasta Filmes. Também colaboraram no documentário Pono Marcenaria e 3H Imper.