Projeto Mais Verde forma jovens lideranças socioambientais em Cabo Frio e outras cidades do estado
Iniciativa reúne cerca de 125 estudantes da rede pública para debater crise climática, ancestralidade e participação política com foco nas realidades locais
O debate sobre mudanças climáticas e conservação ganhou uma abordagem diferenciada para cerca de 125 estudantes da rede pública fluminense. Em vez de focar exclusivamente em discursos tradicionais como reciclagem, preservação ou plantio de árvores, o Projeto Mais Verde (realizado pela organização Campus Avançado, com fomento do Governo Federal por meio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima) propõe aos jovens uma reflexão mais ampla sobre justiça social, território, ancestralidade, participação política e os impactos desiguais da crise climática sobre diferentes populações. Realizada simultaneamente em cinco municípios do Estado do Rio de Janeiro, a iniciativa conecta educação ambiental crítica, cidadania e protagonismo juvenil a partir da realidade dos territórios onde os participantes vivem.
Ao longo dos últimos dois meses, os estudantes vêm discutindo temas como racismo ambiental, desigualdade urbana, povos tradicionais, agricultura familiar, participação social, emergência climática e modelos de desenvolvimento. O objetivo é estimular a compreensão de que os desafios ambientais não podem ser analisados de forma isolada das questões sociais, econômicas e históricas.
Mais do que transmitir conteúdos, a proposta busca formar jovens capazes de compreender criticamente seus territórios e atuar na construção de soluções coletivas para os desafios ambientais contemporâneos. Para isso, o cronograma de atividades incluiu aulas expositivas, dinâmicas participativas, pesquisas, visitas técnicas, ações em campo, práticas de cultivo, debates com especialistas e intervenções comunitárias.
Na Região dos Lagos, Cabo Frio tem sido palco de atividades que unem teoria e prática no cotidiano dos estudantes. No município, as atividades combinaram debates inspirados por pensadores como Ailton Krenak, Nego Bispo e Ana Primavesi, com experiências práticas de plantio, compostagem e identificação de espécies nativas. Além disso, os estudantes criaram um perfil em rede social administrado por eles próprios, transformando-se em produtores de conteúdo voltado às pautas socioambientais.
Em Campos dos Goytacazes, uma atividade sobre ancestralidade levou uma estudante a pesquisar a própria história familiar. Durante a investigação, ela descobriu documentos que revelavam que um de seus bisavôs havia sido escravizado por uma família tradicional de seu distrito, provocando debates sobre memória, pertencimento e desigualdade histórica entre os participantes. Em Teresópolis, uma caminhada guiada pelo bairro do Caxangá permitiu que os estudantes observassem, pela primeira vez, contrastes sociais e ambientais presentes em regiões separadas apenas pelo Rio Paquequer, transformando trajetos cotidianos em reflexões sobre saneamento, ocupação urbana e justiça ambiental.
A movimentação também gerou impactos na região industrial e na região metropolitana. Em Volta Redonda, os jovens relacionaram os impactos ambientais da industrialização à história da cidade, discutindo desde os efeitos da atividade siderúrgica até temas como ecofeminismo, gênero e mudanças climáticas, além de iniciarem a implantação de uma horta escolar para colocar em prática os conhecimentos. Em Niterói, a troca de experiências entre estudantes de diferentes realidades fortaleceu a compreensão de que as questões ambientais atravessam todos os aspectos da vida cotidiana, estimulando a construção coletiva do conhecimento, a escuta e a autonomia dos participantes.
Segundo a coordenação do projeto, um dos principais resultados observados até o momento é o fortalecimento do protagonismo juvenil e da capacidade dos estudantes de relacionar questões globais, como a crise climática, às experiências concretas vividas em seus bairros, escolas e comunidades. A experiência, que ganha visibilidade durante a Semana do Meio Ambiente, mostra que a educação ambiental pode ir além dos discursos tradicionais e se tornar uma ferramenta de transformação social, ampliando a participação cidadã e preparando novas gerações para enfrentar alguns dos maiores desafios do século XXI.