Ausência de Centro de Memória em Cabo Frio desafia pesquisadores
Cidade mais antiga da Região dos Lagos vive em um limbo de preservação cultural, enquanto municípios vizinhos avançam em parcerias e acervos digitais
Apesar de ostentar o título de cidade mais antiga da Região dos Lagos e uma das primeiras do país, Cabo Frio enfrenta um apagamento histórico devido à falta de um espaço público dedicado à preservação de sua identidade. O debate sobre a urgência de um Centro de Memória ganhou força recentemente, durante as mesas de discussão do Festival Internacional de Cinema de Cabo Frio, o FINCCA. O produtor cultural e organizador do evento, Lucas Müller, disse à Folha que o festival trouxe a população para o debate sobre a preservação e apontou a gravidade da situação atual.
— Hoje Cabo Frio não tem um único centro de memória sobre o nosso povo, saberes ancestrais, cultura material e imaterial, acervos de jornais, revistas, fotos digitalizados... Não há nenhum espaço físico sobre absolutamente nada da nossa história. Em nossos monumentos históricos também não há guias locais, placas explicativas, fotos importantes... Tudo é um grande vazio, uma espécie de limbo. Quando pensamos num centro de memória público para o audiovisual é por essa urgência, de tudo o que se perde e se perdeu sobre a memória da cidade - revelou
Essa dispersão afeta diretamente a riqueza audiovisual do município. Durante o FINCCA, pesquisadores do Laboratório de Preservação Audiovisual da Universidade Federal Fluminense exibiram arquivos inéditos e homenagearam Gerson Tavares, primeiro cineasta brasileiro a rodar um longa-metragem na cidade, com o filme "Antes, o Verão", em 1968. Outras obras clássicas do cinema nacional, como "Areias Ardentes", de 1952, e "Os Cafajestes", de 1962, também utilizaram o cenário local, mas Lucas lamenta o destino desses materiais.
— A história audiovisual de Cabo Frio não está em Cabo Frio; está em São Paulo, na Cinemateca Brasileira; no Rio, no Arquivo Nacional; no Museu de Arte Moderna; no Centro Técnico Audiovisual; no Museu da Imagem e do Som, entre outros. Os cabo-frienses e moradores da cidade não têm sua história preservada. Ela está destruída e apagada por sucessivos governos que não pensam na cultura ou em um turismo de qualidade, e pela falta de iniciativa privada - pontuou.
Atualmente, o principal suporte para quem busca resgatar a história regional a partir da década de 1990 está no setor privado, mais especificamente na sede Folha dos Lagos, no Centro de Cabo Frio. Fundado em abril de 1990, o veículo mantém sob seus cuidados um arquivo físico com cópias de todas as mais de seis mil edições publicadas desde a sua fundação. No entanto, para investigações de períodos anteriores a essa data, os pesquisadores dependem de esforços individuais e recursos próprios para que as memórias não desapareçam. O professor de história, escritor e pesquisador José Francisco de Moura, o Chicão, revela o seu temor com o atual cenário.
— Eu sempre compro material justamente porque o meu receio é se perder, já que não temos um arquivo, um Centro de Memória, um museu. Não temos nada que guarde a história da cidade, como estamos fazendo lá em Búzios: um Centro de Memória que vai ter as fotos antigas, citações em jornais. Nós vamos disponibilizar isso tudo na internet, então, é um trabalho que não para. Inclusive já recebemos muitas por lá. O Centro de Memória de Búzios, e a Fundação Dom João, em Friburgo, são exemplos que deveriam ser seguidos por Cabo Frio, mas ninguém tem interesse em nada aqui - lamenta o historiador.
O esforço individual dos historiadores de Cabo Frio contrasta com a realidade de Armação dos Búzios, que caminha para a estruturação de seu próprio acervo, com parcerias com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Sem esse suporte institucional em Cabo Frio, o professor Chicão desabafa afirmando que, "como ninguém tem interesse em nada", vai fazendo sua coleção particular, assim como o pesquisador Achilles Pagalidis. Chicão alerta que se não fizessem "esse barulho, tudo já teria ido para o lixo”.
A lentidão do poder público cabo-friense em implementar uma estrutura semelhante à de Búzios é endossada pelo também professor de história, escritor e pesquisador Luiz Guilherme Scaldaferri. Ele pondera que Cabo Frio possui um corpo de historiadores com alta qualificação acadêmica, mas que esbarra na falta de incentivo. Scaldaferri lembra que existe no município um conjunto de legislações locais que obriga o ensino da história de Cabo Frio nas escolas da rede municipal, e também cobra esse conteúdo em concursos públicos. Mas, segundo ele, o descaso de mais de 25 anos, e as péssimas condições de trabalho nas estruturas escolares, sabotam a aplicação prática da lei. Para ele, o espaço proposto transformaria a realidade socioeconômica da região.
— Eu penso que o Centro de Memória seria muito importante para o desenvolvimento econômico e social de Cabo Frio. A gente teve aí, no Festival de Cinema, uma série de discussões, de exibição de filmes, de curtas, cujo cenário era a cidade, cujas histórias se passavam na cidade. E isso é importante porque o Centro de Memória seria um catalisador de produções de obras e de mão de obra cultural. A gente, por exemplo, está há mais de 10 anos com o teatro fechado, e esse teatro que já não comporta mais o tamanho de uma cidade com quase 300 mil habitantes. Então, o Centro de Memória poderia também servir para isso, para gerar emprego, gerar desenvolvimento socioeconômico para a cidade - defendeu o professor.
A necessidade de centralizar as expressões artísticas em um ambiente público e acessível também é defendida abertamente pela classe musical da cidade. O cantor, compositor e poeta Azul Puro Azul reforça a importância desse tipo de registro ao afirmar que a intenção é "manter isso tudo vivo" e fazer com que as próximas gerações tenham acesso ao patrimônio histórico e artístico. Ele defende que ter um local centralizado facilitaria muito todas as pesquisas.
— Eu costumo sempre falar que se a gente não souber de onde está vindo, também fica com uma dificuldade de entender onde quer chegar. É como se a gente estivesse vagando no espaço. Fica muito a questão individual de cada artista. Acho que para um fortalecimento da cultura regional, entender a história como um todo fortalece todos nós. E locais como centros de memória trazem essa força da coletividade. Ter um Centro de Memória em Cabo Frio seria um passo importante para que a gente consolide a cultura cabo-friense como um rico produto para a nossa comunidade. Inclusive como um turismo cultural para que os visitantes também tenham a possibilidade de conhecer mais sobre a nossa rica história - explicou.