LUTO

A vida e obra de Solange Brisson: Região dos Lagos perde grande defensora do Meio Ambiente

Bióloga, professora e escritora, Solange Brisson morreu no dia 28 de abril, aos 80 anos, e deixou uma trajetória ligada ao estudo e à preservação dos ecossistemas costeiros locais

22 MAI 2026 • POR Kauã Barreto • 10h49
Solange Brisson dedicou a vida a estudar e a defender a paisagem natural da Região dos Lagos - Arquivo / Solange Brisson

A paisagem da Região dos Lagos mudou muitas vezes diante dos olhos da bióloga Solange Brisson. Vivendo entre restingas, salinas, dunas e margens da Laguna de Araruama, ela viu árvores desaparecerem, áreas verdes cederem espaço ao concreto e debates ambientais transformarem-se em disputas públicas cada vez mais acaloradas. Poucas pessoas, porém, superaram essas transformações com tanta obstinação quanto ela. Bióloga, professora, pesquisadora, escritora, Solange morreu no dia 28 de abril, aos 80 anos, após complicações de um acidente vascular encefálico hemorrágico (AVE hemorrágico). Segundo pessoas próximas, completaria 81 anos no dia 16 de maio. Ela deixou uma trajetória ligada ao estudo e à preservação dos ecossistemas costeiros da Região dos Lagos —território a que dedicou quase toda a sua vida intelectual.

Formada em História Natural —"a precursora da faculdade de biologia", como ela gostava de frisar— pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1971, Solange construiu carreira voltada sobretudo à zoologia, à ecologia marinha e à observação ambiental. Décadas depois, concluiu o mestrado em Ciências Biológicas, com especialização em Zoologia de Invertebrados, pesquisando crustáceos da região de Cabo Frio.

Mas é pouco reduzir sua trajetória apenas aos títulos acadêmicos. Solange era uma pesquisadora que não separava a ciência da paisagem, nem o estudo da convivência com o território observado. Chegou à Região dos Lagos e logo participou de debates sobre preservação ambiental, crescimento urbano e ocupação costeira. Lecionou Zoologia durante mais de vinte anos na antiga Ferlagos, hoje Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), formando muitos alunos de Biologia em Cabo Frio. Também atuou na Universidade Veiga de Almeida, nos cursos ligados ao Meio Ambiente, Turismo e Engenharia Ambiental.

Era “uma referência para a formação de biólogos da Região dos Lagos”, como lembra o biólogo e professor Eduardo Pimenta.

– Trabalhamos juntos na Universidade Veiga de Almeida/Campus Cabo Frio. Ela trabalhou no IEAPM de Arraial do Cabo, foi pioneira da maricultura regional como pesquisadora e empreendedora, cultivando organismos marinhos em água salgada, voltado para produção de alimentos, geração de renda e sustentabilidade no litoral – acrescenta Pimenta.

No Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM), em Arraial do Cabo, desenvolveu pesquisas sobre camarões da Laguna de Araruama e regiões adjacentes, trabalho que originou artigos científicos e livros voltados à maricultura e aos ecossistemas costeiros. Ao longo dos anos, a atuação dela extrapolou laboratórios e salas de aula. Participou de movimentos ambientais importantes da região, como a fundação da AMARLA, considerada a primeira ONG ambientalista da Região dos Lagos, além do Movimento Ressurgência. Também integrou discussões ligadas ao primeiro Plano Diretor de Arraial do Cabo, ajudando a pensar áreas de preservação ambiental do município.

Mas foi na defesa das casuarinas que seu nome ganhou maior projeção pública. Tema de debates intensos entre pesquisadores, ambientalistas e órgãos públicos, a presença das árvores na Região dos Lagos dividiu opiniões. Solange foi uma das principais defensoras da manutenção das casuarinas, sustentando que elas tinham papel importante na recuperação de áreas degradadas e na contenção de processos erosivos. A discussão provocou controvérsias e consolidou sua imagem como uma figura firme nos debates ambientais locais. Ela defendia que a relação da população com o meio ambiente estava marcada por um progressivo afastamento da natureza.

– Só preservamos aquilo que conhecemos e amamos – afirmou em entrevista à Folha dos Lagos em publicada na edição especial em homenagem ao aniversário de Cabo Frio, em novembro de 2025.

É uma frase que ajuda a compreender a dimensão afetiva presente em seus livros. Solange escreveu obras como “Cultivo de camarões marinhos”, “Restinga de Massambaba: os matos e seus insetos”, “Antes que seja tarde...” e “Casuarinas da Região dos Lagos: Mitos & Fatos” — publicadas pela Sophia Editora, à exceção da primeira. São textos nos quais ela misturava observação de campo, memória ambiental, pesquisa científica e indignação diante da destruição das restingas e da descaracterização da paisagem regional.

Seu último trabalho, “Um pequeno ensaio sobre a formação da Laguna de Araruama”, estava em processo de edição desde 2025 na Sophia. Nasceu do desejo de compreender a formação geológica e ambiental da laguna, sem ignorar a relação humana com esse território ao longo de milênios. Ainda na entrevista à Folha no ano passado, Solange disse que enxergava o livro como uma “provocação amorosa e inquieta”, construída a partir de mais de cinquenta anos de observação da região.

– O homem não pode dissociar-se da natureza. O resultado dessa separação é o alheamento, o vazio existencial, o estresse, a depressão. Se nos calamos, a destruição ambiental se acelerará, pois ‘quem cala consente’ – afirmou.

A relação com a natureza, ela dizia, vinha da infância.

– Tive a 'graça' de ter nascido de progenitores que amavam a natureza e desde muito pequena vivi em contato com ela nas florestas de Belém do Pará. Também passei bons períodos nas águas de Coroa Grande em Itacuruçá e nas montanhas de Itaipava/Petrópolis. Assim, sou metade mar por parte de pai e metade montanha do lado materno. Sem sombra de dúvida que esse contato ou "imprinting" com a natureza me tornaram absolutamente apaixonada por ela! – contou.

Ex-alunos, pesquisadores e amigos homenagearam Solange nas redes sociais. "Grande mestra em zoologia da Região dos Lagos", escreveu Bruna Pozzebon, ex-aluna orientada por Solange em seu trabalho de conclusão do curso de Biologia sobre a Restinga de Massambaba. Fotógrafa, Bruna também é coautora de "Casuarinas da Região dos Lagos: Mitos & Fatos".

– Foi uma bióloga e pesquisadora dedicada ao estudo da fauna de invertebrados, com atuação marcante na Região dos Lagos fluminense. Como autora, conseguiu revelar em pesquisas e fotografias a riqueza e as ameaças à restinga de Massambaba em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro, onde evidenciou o compromisso com a conservação ambiental e a valorização de ecossistemas pouco estudados, como a fauna de artrópodes. Sol era ativista e participou de movimentos históricos de proteção ambiental local como a AMARLA e o Movimento Ressurgência. Com ela aprendi a defender a continuidade dos estudos e publicações para ampliar o conhecimento a respeito da biodiversidade local. Sua partida nos deixa um inegável legado de ciência e engajamento voltado à preservação da divina natureza da Região dos Lagos – afirmou Bruna em depoimento encaminhado à Folha do Lagos.

Já Leonízia de Melo escreveu nas redes sociais: "Nunca esquecerei dos seus ensinamentos e do que defendemos cientificamente juntas".

O professor Eraldo Amay, que trabalhou com Solange na extinta Ferlagos (ele no departamento de Letras; ela no de Biologia), também lamentou a morte da pesquisadora. 

– Solange era amada e uma excelente professora. Pessoa muito querida. É uma perda bastante sentida – disse Eraldo.

A companheira Maria Luzia da Silva Pinho relatou que conviveu com Solange durante quase 12 anos.

– Ela foi uma pessoa muito especial na minha vida. E creio que na vida de outras pessoas também – afirmou.

Nos últimos anos, Solange sofreu um acidente vascular cerebral (AVC). Ainda assim, manteve-se intelectualmente ativa. Aposentada, continuava escrevendo, trocando mensagens e acompanhando debates públicos. Esteve pela última vez na sede da Sophia Editora em novembro de 2025. Chegou acompanhada por uma cuidadora e em cadeira de rodas, já não conseguia se locomover muito bem sozinha. Durante o processo de edição, demonstrava urgência em concluir a publicação do novo livro. Dizia ter paciência, mas não tempo.

Ainda neste mês de maio, o falecimento da pesquisadora ainda era desconhecido entre muitas pessoas próximas da sua trajetória. Nos últimos dias, a Folha procurou fontes oficiais, ex-alunos, pesquisadores, conhecidos e instituições ligadas à trajetória da bióloga para reconstruir os últimos dias de vida da pesquisadora e confirmar as informações. A Secretaria Municipal de Saúde de Arraial do Cabo informou que Solange deu entrada no Hospital Geral de Arraial do Cabo no dia 24 de abril, às 22h, com quadro grave de Acidente Vascular Encefálico Hemorrágico (AVE Hemorrágico). Segundo a pasta, ela foi atendida na Sala Vermelha da unidade e transferida para o Hospital Estadual Roberto Chabo, em Araruama, na madrugada do dia 25. Já a Secretaria de Estado de Saúde informou que a paciente foi encaminhada à unidade para avaliação neurocirúrgica, recebeu tratamento neurointensivo, mas teve piora clínica e morreu no dia 28 de abril. O velório teria ocorrido no dia 29, em Araruama, e o enterro no dia 30, em Arraial do Cabo.

O jornal também procurou o Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM), onde Solange trabalhou, mas, até o fechamento desta reportagem, o instituto não emitiu nenhuma nota, informando apenas que a solicitação foi encaminhada ao setor responsável.

Solange Brisson tentou compreender, registrar, explicar e defender a paisagem da Região dos Lagos. Agora, parte dessa paisagem também passa a guardar a memória de uma apaixonada e persistente defensora.