POLÍTICA

Cabo-friense se torna vereadora na Suécia e leva identidade negra à política europeia

Criada entre os bairros Jacaré e Ogiva, Ana Paula Stalbalk conversou com a Folha sobre identidade, imigração, formação e os desafios de ser mulher negra na política europeia

26 JAN 2026 • POR Redação • 15h02

De Cabo Frio para a política europeia. Nascida e criada entre os bairros Jacaré e Ogiva, Ana Paula Stalbalk levou para fora do Brasil a história, a identidade e o sentimento de pertencimento construídos na cidade onde nasceu. Hoje, a mulher negra e imigrante ocupa um cargo eletivo no sul da Suécia, um espaço ainda pouco acessível para estrangeiras e para mulheres negras na política europeia.
 
Formada em Desenvolvimento Empresarial (na Suécia), coach (na Noruega) e Master Terapeuta, Ana Paula contou à Folha que construiu sua trajetória longe do país após deixar o Brasil em 1990, mas sem romper com suas origens.
 
– Venho da escassez, da terra de chão da comunidade, de um lugar onde nada era fácil e tudo exigia esforço. Fui criada por uma mãe solo, humilde e generosa, que mesmo diante das dificuldades nunca deixou faltar amor, dignidade e palavra firme. Foi ela quem, desde cedo, me dizia que eu era diferente. Naquele tempo, eu ainda não compreendia totalmente o peso dessas palavras, mas elas foram ficando, criando raiz. Cresci aprendendo a sonhar acordada, mesmo quando a realidade parecia estreita. Aprendi a imaginar futuros possíveis antes mesmo de saber se eles seriam alcançáveis. Hoje, olhando para minha trajetória, reconheço o resultado daquelas palavras lançadas com fé e coragem por uma mulher que acreditou em mim antes de qualquer outra pessoa. Minha história não nasce do privilégio, mas da resistência silenciosa, do trabalho constante e da esperança cultivada no cotidiano. Trago comigo a memória da escassez não como limite, mas como força. É dela que vem minha sensibilidade, meu senso de justiça e meu compromisso com caminhos que ampliem possibilidades para outras pessoas que, como eu, aprenderam a sonhar mesmo quando tudo dizia o contrário - contou Ana Paula em entrevista à Folha.
 
Na conversa ela também abordou temas como identidade, imigração, participação feminina na política e os contrastes entre os sistemas políticos sueco e brasileiro, além de revisitar memórias pessoais que ajudam a explicar como uma mulher cabo-friense, e negra, chegou a um parlamento europeu.
 
Folha - Como (e quando) você foi pra Suécia?
Ana Paula -
Mudei-me para a Suécia em 6 de dezembro de 1990. Minha chegada foi em uma pequena cidade chamada Kalmar, localizada no leste do país. Foi ali que iniciei minha adaptação, aprendi a conviver com uma nova cultura e construí, passo a passo, minha trajetória fora do Brasil.
Atualmente, vivo no sul da Suécia, onde sigo minha atuação e engajamento político. A experiência de ter vivido em diferentes regiões do país ampliou meu olhar sobre as realidades locais e fortaleceu meu compromisso com o diálogo, a integração e o trabalho comunitário no âmbito municipal.
 
Folha - Como e quando a política entrou na sua vida?
Ana Paula -
Meu ingresso na política aconteceu muito cedo. Aos 10 anos de idade, ainda no Brasil, em pleno período do regime militar, participei de forma inocente e discreta da distribuição de materiais políticos. Naquele momento, eu não tinha a real dimensão do risco envolvido. Só fui compreender o “perigo” e o peso daquele contexto histórico já adulta, quando vivia na Suécia e podia olhar para o passado com mais consciência e distância. No final da década de 1980 atuei diretamente em campanhas políticas no Brasil. Trabalhei nas campanhas do Dr. Ivo Saldanha (no período de 1988 a 1989), experiência que marcou minha compreensão prática sobre organização política, mobilização e trabalho de base. Após minha mudança para a Suécia, houve um período de afastamento da política institucional. Retornei em 1993, quando fui convidada a organizar um grupo de dança para jovens que haviam acabado de concluir o ensino médio. Esse grupo passou a acompanhar um candidato a primeiro-ministro durante a campanha eleitoral, que acabou vencendo a eleição. Essa vivência reacendeu meu envolvimento político, agora em um novo contexto cultural e institucional. Desde então, minha relação com a política tem sido construída de forma consciente, responsável e conectada ao território onde vivo, sempre entendendo a política como um espaço de serviço, participação e compromisso com o coletivo.
 
Folha - De que forma sua identidade moldou sua visão de mundo e seu engajamento político?
Ana Paula -
Minha identidade não se resume à cor da minha pele. Independentemente de ser negra ou parda, minha visão de mundo foi moldada, sobretudo, pela experiência de ser mulher no mundo. Ser mulher é viver a realidade com sensibilidade aguçada, atravessar desafios estruturais e compreender, na prática, as desigualdades que impactam o cotidiano das pessoas. Essa vivência me ensinou a olhar além das aparências, a reconhecer injustiças naturalizadas e a valorizar políticas que considerem a vida real, especialmente a de mulheres que sustentam famílias, comunidades e histórias muitas vezes invisibilizadas. Ser cabo-friense completou essa formação. Foi no território, na convivência com as contradições sociais da cidade, que compreendi que política não é apenas teoria ou discurso, mas presença, escuta e responsabilidade com quem vive as consequências das decisões públicas. Cabo Frio me ensinou que o engajamento político nasce do compromisso com o coletivo e do respeito à história local. Minha identidade moldou um engajamento político fundamentado na experiência, no cuidado e na responsabilidade social. Não se trata de rótulos, mas de consciência. Meu compromisso é com uma política mais humana, inclusiva e conectada com a realidade das pessoas.
 
Folha - Quais são os principais temas que você defende hoje como vereadora na Suécia?
Ana Paula -
Empoderamento, engajamento e combate contra a mulher/ violência feminina

Folha - Quais são os maiores desafios da política municipal onde você atua?
Ana Paula -
Sem dúvida, a integração social e cultural. Viver na Suécia me permitiu compreender que a convivência entre diferentes culturas exige mais do que políticas públicas — exige disposição individual para o encontro. Há grupos que, por medo, insegurança ou apego às próprias referências, acabam se isolando. Mantêm apenas a língua natal, os próprios círculos e hábitos, criando barreiras invisíveis. Muitas vezes, esse isolamento é interpretado como rejeição por parte da sociedade sueca, quando, na realidade, não corresponde à verdade. A sociedade sueca, em sua essência, é amável, gentil e respeitosa. Existe abertura, mas ela se manifesta de forma diferente de culturas mais expansivas. A integração não acontece automaticamente: ela pede iniciativa, aprendizado da língua, presença e interesse genuíno em compreender os códigos sociais do país. O desafio político, portanto, é criar pontes — mas também estimular a responsabilidade individual. Integração não é assimilação forçada, nem isolamento protegido. É convivência. É aprender a viver juntos, respeitando diferenças sem abrir mão do diálogo e da participação social. A política municipal tem o papel de facilitar esse processo por meio de educação, espaços de encontro, incentivo ao aprendizado do idioma e ações comunitárias. Mas a integração só se completa quando há reciprocidade: quando o Estado abre caminhos e as pessoas escolhem caminhar por eles. Esse é um desafio delicado, profundo e atual — e enfrentá-lo exige honestidade, escuta e coragem para dizer que integração é uma via de mão dupla.

Folha - Na sua visão, quais são as maiores diferenças entre fazer política na Suécia e no Brasil?
Ana Paula - Fazer política na Suécia e no Brasil envolve realidades profundamente diferentes, moldadas por contextos históricos, culturais e institucionais distintos. Na Suécia, a política é marcada por um alto nível de institucionalidade e confiança nas instituições. As regras são claras, os processos são previsíveis e o cumprimento das normas é parte da cultura coletiva. A participação política tende a ser mais organizada, menos personalista e mais orientada ao interesse público. Há um forte senso de responsabilidade social, no qual direitos caminham junto com deveres, e a política é entendida como um serviço à sociedade, não como um espaço de protagonismo individual. No Brasil, a política acontece em um ambiente mais emocional e personalista. As relações políticas são fortemente influenciadas por vínculos pessoais, lideranças carismáticas e disputas simbólicas. Ao mesmo tempo, o país carrega desigualdades históricas profundas, o que faz com que a política municipal e nacional sejam constantemente pressionadas por urgências sociais. A participação popular é intensa, mas muitas vezes fragmentada, e a confiança nas instituições ainda é um desafio em construção. Outra diferença importante está na relação entre Estado e cidadão. Na Suécia, existe uma expectativa clara de que o cidadão cumpra seu papel ativo na sociedade, respeitando regras e contribuindo para o bem coletivo. No Brasil, grande parte da população ainda vê o Estado como o principal responsável por resolver problemas estruturais, muitas vezes sem que haja as condições necessárias para uma participação cidadã plena. Por fim, fazer política na Suécia exige diálogo intercultural, capacidade de mediação e foco na integração social. No Brasil, exige sensibilidade social, presença constante nos territórios e habilidade para lidar com demandas urgentes e múltiplas ao mesmo tempo. Ambos os contextos exigem compromisso e ética, mas pedem formas diferentes de atuação. Compreender essas diferenças é fundamental para construir uma prática política mais consciente, responsável e eficaz.

Folha - Há algo que você admira no sistema político sueco e que gostaria de ver no Brasil?
Ana Paula -
O que mais admiro no sistema político sueco é o espírito de serviço que sustenta a atuação política, especialmente no âmbito municipal. Aqui, muitos de nós atuamos como políticos, como vereadores, movidos por amor, solidariedade e compromisso com a comunidade, e não por interesse financeiro. Fazemos o nosso melhor sem remuneração ou vantagens, porque acreditamos no valor do bem comum e na responsabilidade coletiva. Esse modelo fortalece uma política mais ética e mais próxima das pessoas. A ausência de remuneração reduz a profissionalização excessiva da política e afasta, em grande medida, interesses oportunistas. O foco permanece na causa, no território e nas pessoas, e não no cargo em si. Também admiro a cultura de participação voluntária e o senso de corresponsabilidade. A política é vista como uma extensão do compromisso cidadão, e não como um privilégio. Isso cria lideranças mais conscientes, mais acessíveis e mais conectadas à realidade local. Gostaria de ver no Brasil uma valorização maior desse espírito de serviço público, onde o engajamento político fosse, antes de tudo, um ato de entrega e solidariedade. Não se trata de eliminar estruturas necessárias, mas de resgatar o sentido original da política como vocação, compromisso e cuidado com o coletivo. Acredito que unir o carisma brasileiro a essa ética de serviço poderia transformar profundamente a forma como a política é vivida e percebida no país.

Folha - Algo que você sente que o Brasil faz melhor?
Ana Paula -
Sim. O Brasil faz algo muito bem, e isso merece ser considerado: a humanidade nas relações. O Brasil tem uma capacidade singular de criar vínculos, de acolher, de conversar, de se aproximar das pessoas. A política brasileira, especialmente no nível local, acontece muito no contato direto, no olho no olho, na escuta informal, na presença constante. Essa proximidade gera pertencimento. As pessoas se sentem vistas, ouvidas, reconhecidas. Mesmo com todas as dificuldades estruturais, há no Brasil uma força comunitária, uma sensibilidade social e um carisma que mobilizam, que criam redes de apoio e que fazem a política pulsar junto com a vida cotidiana. Outro aspecto importante é a capacidade de adaptação. O Brasil aprende a lidar com realidades complexas e desiguais de forma criativa, encontrando soluções mesmo em contextos adversos. Essa flexibilidade, essa inteligência social, é algo valioso e poderia inspirar outros contextos. Trazer essa dimensão mais humana, calorosa e relacional para outros sistemas políticos, sem perder organização e responsabilidade institucional, seria um ganho. Porque política não é apenas estrutura — é relação, cuidado e presença.

Folha - Como é ser uma mulher negra na política de um país europeu que teve, historicamente, menos diversidade nas esferas públicas?
Ana Paula -
Na Suécia, a experiência de ser uma mulher negra na política é marcada, sobretudo, pela discrição cultural. As diferenças não costumam ser verbalizadas de forma direta. O preconceito, quando existe, raramente é explícito; ele aparece de maneira silenciosa, nas sutilezas, nos gestos contidos, nas expectativas não ditas. A sociedade sueca é reservada, respeitosa e institucional. Isso faz com que o debate sobre diversidade aconteça de forma menos emocional e mais contida. Ao mesmo tempo em que essa postura evita confrontos abertos, ela exige atenção redobrada para compreender os códigos sociais e políticos que não são verbalizados. Nesse contexto, a atuação política pede constância, preparo e coerência. O reconhecimento vem com o tempo, através do trabalho sério e da postura equilibrada. A presença de uma mulher negra nesses espaços, mesmo de forma discreta, carrega um significado importante: ela amplia o horizonte do que é possível e contribui para uma representação mais fiel da sociedade. Ser mulher negra na política sueca é exercer a presença com sobriedade, firmeza e consciência. É aprender a ocupar o espaço sem excessos, respeitando a cultura local, mas sem se apagar dentro dela.

Folha - Você acha que sua presença na política abre espaço para outras mulheres negras ou imigrantes se engajarem mais?
Ana Paula -
Sim, isso tem um efeito simbólico e prático muito importante. Quando alguém ocupa um espaço que historicamente foi restrito, essa presença amplia o imaginário coletivo e mostra que a participação é possível. Muitas mulheres negras e imigrantes não se veem representadas nos espaços de decisão e, por isso, tendem a se afastar da política. Quando elas passam a enxergar alguém com uma trajetória semelhante à sua atuando de forma séria e comprometida, o engajamento deixa de parecer algo distante ou inacessível. Além disso, a presença constante e coerente ajuda a quebrar estereótipos. Ela demonstra que diversidade não é exceção, mas contribuição. Abre caminhos não pelo discurso, mas pelo exemplo, pela prática cotidiana e pela construção de confiança. Não se trata de falar por todas, mas de tornar o caminho mais visível e menos solitário. Quando uma mulher ocupa esse espaço com responsabilidade, ela não substitui outras vozes, mas ajuda a criar um ambiente onde mais mulheres negras e imigrantes se sintam encorajadas a participar, contribuir e ocupar seus próprios lugares.

Folha - Você já enfrentou situações de racismo ou discriminação no ambiente político? Como lidou com elas?
Ana Paula -
Dentro do ambiente político nunca vivenciei situações diretas de racismo ou discriminação. Minha experiência nesse espaço sempre foi marcada pelo respeito institucional e pela convivência profissional. No entanto, fora desse contexto, houve um episódio que me marcou. Em uma ocasião, outra estrangeira me pediu para abrir minha bolsa e retirar meu casaco, em uma atitude que carregava desconfiança e julgamento. Diante disso, escolhi não reagir com confronto. Sorri. Não por submissão, mas por consciência. Entendi que aquele gesto falava mais sobre as inseguranças e preconceitos dela do que sobre quem eu sou. Lidei com a situação mantendo minha dignidade e meu equilíbrio. Não permiti que aquele momento definisse minha postura nem endurecesse meu olhar para o mundo. Aprendi que nem toda discriminação exige embate imediato; algumas pedem firmeza silenciosa, clareza interna e a certeza do próprio valor. Essa experiência reforçou em mim a importância de agir com maturidade emocional, sem carregar para os espaços coletivos dores que não me pertencem. Sigo acreditando que a presença consistente, o comportamento íntegro e o respeito contínuo são formas poderosas de transformar percepções e romper barreiras, mesmo as mais sutis.