CULTURA

Produzido em Cabo Frio, musical sobre Noel Rosa estreia em março

Com artistas da Região dos Lagos, "Não Quero Choro Nem Vela" vai iniciar a temporada no teatro de São Pedro da Aldeia

13 JAN 2026 • POR Redação • 10h15

Em março, o público da Região dos Lagos poderá conferir o espetáculo musical “Não Quero Choro Nem Vela”, que percorre a vida e a obra de Noel Rosa. Produzida em Cabo Frio, a montagem reúne diversos artistas da região. A direção é assinada pelo ator Daniel Ericsson (que está no elenco de “Ainda Estou Aqui”), roteiro de Geraldo Afonso e produção da Samburá Multiartes. A estreia será no Teatro Municipal de São Pedro da Aldeia, de onde o musical segue para cidades de todo o estado do Rio de Janeiro.

A apresentação marca o aniversário de 115 anos de Noel Rosa, que faleceu jovem, aos 26 anos, vítima de tuberculose. Já o título (“Não Quero Choro Nem Vela”) é uma referência à música “Fita Amarela”, e traz uma forte carga simbólica ao musical.

– Noel Rosa, ao invés de preservar a saúde, preferiu viver intensamente. Não se preocupava com a morte. O que realmente queria era “uma fita amarela gravada com o nome dela”. Na sua curta passagem por este mundo, foi boêmio contumaz. Homem de muitas mulheres, minou sua saúde desfrutando da vida noturna na Lapa e participando de serenatas pelos bairros de Vila Isabel, Tijuca e adjacências, além de ser viciado em bebidas geladas, de preferência a cerveja Cascatinha. Quando estava em Belo Horizonte, na casa da tia Carmem, em busca da cura para a tuberculose, o que disse para tia reflete sua filosofia de vida. A tia o aconselha: “Você tem que se cuidar, Noel”. Ao que ele lhe respondeu: “Quem muito se cuida, pouco vive” - relembra Geraldo.

Em conversa com a Folha, o roteirista revelou que o espetáculo começou a ganhar forma há cerca de oito anos, quando escreveu uma peça sobre Noel Rosa em três atos. No projeto inicial a apresentação teria duração de duas horas e meia, 20 atores e atrizes, além dos músicos. Todo o espetáculo foi baseado em anos de pesquisas históricas e musicais.

– Essa peça ficou engavetada porque sua montagem é inviável. O custo seria muito alto. Daí, o texto original foi resumido e transformado no espetáculo atual. O maior desafio foi sintetizar a vida e a obra do Noel. Não se sabe ao certo quantas músicas ele compôs porque doou e vendeu várias. Registradas são 259. Destas, pelo menos 100 são verdadeiras obras-primas. Neste vasto repertório, foi difícil escolher 26 para o espetáculo. Outro desafio foi resumir a biografia do Noel. A vida dele daria uma série na Netflix. Sua infância daria um capítulo. A sua passagem pelo Colégio São Bento daria uns quatro. Noel era o terror dos colegas e de alguns professores. Aos 15 anos ele frequentava os prostíbulos do Canal do Mangue. Os três meses que passou em Belo Horizonte, na casa da tia Carmem, em busca de tratamento para tuberculose, dariam vários capítulos, porque ele descobriu que numa cidade provinciana e pacata como era Belo Horizonte, na década de 1930, havia vida boêmia. Tem ainda a excursão que fez com Francisco Alves ao Rio Grande do Sul,  briga musical que travou com Wilson Batista, as mulheres que foram suas paixões: Clara, Josefina, Julinha Bernardes, Ceci, Lindaura... Em suma: Noel tinha três grandes paixões na vida: a música, a boemia e as mulheres - contou o roteirista.

Para contar toda essa história nos palcos, Daniel Ericsson lembra que o processo de seleção do elenco foi diferenciado, levando em conta a familiaridade musical.

– Quando montamos um espetáculo musicado é interessante que os artistas envolvidos, ainda que atores, em princípio, também tenham familiaridade com música, seja pela dança, pelo tocar de um instrumento ou pelo cantar. Nossa região tem pouco fomento à cultura, o que nos deixa talvez com a falsa impressão de escassez artística. Não é o caso. Temos uma profusão de artistas de primeira categoria, e a seleção foi feita considerando os talentos individuais de cada um e a capacidade de trabalhar coletivamente. Alguns são artistas solos em suas carreiras, e no nosso processo os talentos convergem para o bem maior que é o espetáculo - explicou.

No palco estarão Kéren-Hapuk (atriz, cantora, compositora e educadora), Roberta Sant’Anna (atriz), Manuela Dominato (atriz), Diego Vivas (ator, bailarino e professor, com atuação no filme Nosso Lar, e novelas da Record), Luiz Felipe Souza (ator, produtor, músico e professor), Yuri Vasconcellos (multiartista e professor de artes), Vitalino (cantor, compositor, violonista, cavaquinista e produtor cultural).

Atualmente “Não Quero Choro Nem Vela” está em processo de ensaio musical e cênico, e também de captação de apoio financeiro “junto ao empresário culturalmente consciente em nossa região”.

– O processo de ensaio é muito maduro. Cada artista tem sua singularidade, e eu, como diretor, me mantenho sensível a isto para que seja possível uma difusão de talentos. Quero aproveitar ao máximo o talento de cada um a serviço do espetáculo - explicou.

Se, para Geraldo Afonso, o desafio foi condensar o roteiro sem perder a essência de Noel Rosa, para Daniel o desafio é materializar em cena um texto que dialoga com a trajetória artística e pessoal do compositor.

– Eis que temos a figura mítica: Noel Rosa. Mas afinal, de que é feito um gênio? Seria a genialidade um atributo em si ou uma combinação de outros atributos? Creio que somos todos indissociáveis de tudo o que nos acontece, seja por superação ou trauma, o que vivemos nos conduz. O roteiro de Geraldo Afonso contém esta ideia: o que acontece na vida para que um poeta seja um poeta, ou para que um filósofo seja um filósofo, e assim por diante… No roteiro, as músicas de Noel Rosa estão rodeadas de acontecimentos de sua vida que, se não justificam a canção, servem ao menos de anamnese artística. O espetáculo apresenta situações de vida boas e difíceis vividas pelo artista. Suas dores são a tinta com a qual ele escreve suas letras e seus amores são as notas com que desenha suas melodias. Por isso o espetáculo dialoga com o público contemporâneo ao mesmo tempo em que mantém uma estética mais próxima da época de Noel. Grande tem sido a pesquisa do corpo e imagem da época de Noel - a belle époque carioca. Os figurinos, o linguajar, as idiossincrasias do recorte histórico específico estarão representados no palco. Não obstante, o espetáculo traz também as questões pertinentes ainda hoje - tabus, questões políticas, entre outros. Deste modo eu digo que o espetáculo é uma ponte entre o lá e o cá, um elo entre o então e o agora - revelou Daniel.

Como diretor, ele contou à Folha que espera que o público leve consigo um resgate de uma época pela perspectiva artística de um gênio musical brasileiro.

– Numa sociedade cheia de máculas imperialistas, somos quase sempre impelidos a esquecer nossa história para nos ocupar do mercado de consumo da grande máquina. A ideia de Geraldo Afonso de realizar um resgate histórico artístico, mas ampliado em seu contexto histórico e também de pontos de vista diversos, me pareceu interessante desde o princípio do processo. Uma biografia que não está em primeira pessoa. Tudo o que se conta é perspectiva das personagens que travaram contato com a pessoa Noel Rosa, de modo que ao mesmo tempo o mito é desmistificado, revelando a humanidade sem a qual nenhum verdadeiro gênio existiria. Os amores e desamores, a punção de vida e de morte que se confundem... São sentimentos ambíguos mas complementares, que penso que nosso espetáculo poderá provocar no seu público - destacou Daniel.

Essa proposta artística ganha forma a partir de março, quando o espetáculo começa a circular.

– Nossa estreia oficial será no dia 20 de março, no teatro de São Pedro da Aldeia. Antes disso vamos ter apresentações em espaços não convencionais e também em teatros privados, já que em Cabo Frio não temos um equipamento público para isso. Depois vamos circular pelas cidades da Região dos Lagos, Região Serrana, Niterói e Rio de Janeiro. Até aqui, toda abordagem que fizemos com os teatros teve uma aceitação imediata. É uma pena que na cidade onde o espetáculo está sendo construído não haja um teatro ativo - avalia o diretor.