VERÃO

Falta de água e energia provocam prejuízos ao setor turístico na Região dos Lagos

Associações, prefeitos, moradores e comerciantes cobram providências de concessionárias após problemas durante a virada do ano

10 JAN 2026 • POR Cristiane Zotich • 09h00

Imagine a Região dos Lagos dos anos 1950: ruas cheias no verão, cidades tomadas por turistas vindos de várias partes do país e do mundo, e moradores lidando com a falta de serviços básicos: “de dia falta água, de noite falta luz”. Setenta e um anos depois do lançamento da marchinha “Vagalume” (1954), criada para satirizar os problemas de infraestrutura do Rio de Janeiro (então capital federal), os municípios da Região dos Lagos voltaram a viver esse mesmo drama. Na virada de 2025 para 2026, em plena alta temporada, com a rede hoteleira lotada e moradores recebendo visitas para a festa de réveillon, falhas no fornecimento de energia elétrica e no abastecimento de água afetaram diretamente o turismo e a economia local.

Em entrevista à Folha antes do réveillon, o secretário de Turismo de Cabo Frio, Davi Barcellos, informou que cerca de três milhões de turistas estavam sendo aguardados durante a atual temporada de verão 2025/2026, considerada uma das mais movimentadas dos últimos anos. Segundo ele, a estimativa era de um impacto positivo próximo a R$ 2 bilhões na economia da cidade, com reflexos diretos no mercado de trabalho, especialmente nos setores de comércio e serviços.

Mas, o que era para ser o início de uma temporada economicamente promissora, se tornou um grande problema com reflexos diretos para quem mais fatura e gera empregos nessa época do ano: bares, restaurantes, casas de aluguel para temporada e rede hoteleira enfrentaram reclamações e prejuízos causados pela falta de água e de energia elétrica.

Esta semana a Associação de Hotéis de Cabo Frio emitiu um comunicado manifestando preocupação com as interrupções de energia elétrica e abastecimento de água no município, registradas desde o último dia 28 de dezembro. A situação, segundo a entidade, causou “transtornos, cancelamentos de reservas e solicitações de devoluções de valores por parte dos turistas”. Em nota oficial, eles afirmaram que “Cabo Frio segue preparada para receber seus visitantes”, mas alertaram que “a regularidade dos serviços essenciais é fundamental para garantir a qualidade da experiência turística e o bom funcionamento do setor”.

Antes desse comunicado, o prefeito cabo-friense Serginho Azevedo usou as redes sociais para se pronunciar sobre a falta de água e de luz em vários bairros de Cabo Frio.

– Era previsível que Cabo Frio receberia mais de um milhão de pessoas no réveillon? Era. E que a Região dos Lagos estivesse com muita gente nesse momento? Claro que era. Por essa razão a gente fez uma reunião prévia, antes da alta temporada, com as concessionárias Prolagos e Enel, para saber se elas tinham condições de prestar o serviço adequado à população. A resposta foi que estariam preparadas. Mas hoje estamos com problema de água em alguns bairros, e fui questionar os motivos à Prolagos. A resposta foi que no dia 30 houve paralisação do serviço de fornecimento de energia, que gerou um problema na estação de tratamento de água. No dia 31 houve a ruptura de uma adutora que fornece água para Cabo Frio e Búzios. E o que a população tem haver com isso? Absolutamente nada. É obrigação (da Prolagos) resolver esse problema. Eu, enquanto poder público municipal, estou colocando a Comsercaf à disposição para auxiliar no fornecimento de carro pipa para a população que mais precisa. E de igual forma estou colocando o Procon à disposição da população, cobrando firmemente à Prolagos e à Enel para que isso não volte a acontecer - anunciou Serginho.

Em comunicado emitido nesta terça-feira (6), a Prolagos afirmou que o abastecimento de água já opera normalmente e em carga máxima na Região dos Lagos. A concessionária informou que, desde o dia 29 de dezembro, registrou 37 piques de energia, que prejudicaram o acionamento automático dos geradores responsáveis pela retomada das bombas que pressurizam a rede, além de rompimentos de adutoras. Para atender a um maior número de pessoas, a empresa disse ter reforçado os principais reservatórios com caminhões-pipa e que somente na última segunda-feira (5) forneceu 1,5 milhão de litros de água.

Já a Enel não emitiu nenhum comunicado até o fechamento desta edição, apesar das falhas generalizadas no fornecimento de energia elétrica que vinham sendo relatadas por moradores e prefeitos desde o fim de dezembro. A Prefeitura de Arraial do Cabo também chegou a acionar a empresal através do Procon, com objetivo de realizar atendimentos emergenciais para consumidores que tiveram prejuízos por quedas ou interrupções de energia elétrica.

Em Búzios, as falhas no fornecimento de energia elétrica provocaram prejuízos diretos e graves a moradores. Na noite do dia 31 de dezembro, durante a virada do ano, a jornalista Camila Raupp, do site Prensa de Babel, teve a casa atingida por um incêndio. Segundo ela, o problema foi provocado por um curto-circuito causado pelas constantes oscilações de energia elétrica no município. Nas redes sociais, ela relatou que o fogo começou enquanto comemorava a chegada de 2026 e que os bombeiros precisaram ser acionados.

– Chegamos junto com os bombeiros. Nossa casa preta de fumaça, os cachorros já salvos pelos bombeiros com a ajuda dos vizinhos. Perdemos apenas bens materiais que podem ser reconquistados. Foram três dias limpando, pintando e organizando – contou.

Nesta quarta-feira (7) o prefeito buziano, Alexandre Martins, conseguiu que o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro mantivesse multa de R$ 300 mil à Enel por descumprimento na correção de falhas no fornecimento de energia elétrica no município. Na última segunda-feira (5) o chefe do Executivo buziano havia convocado representantes da Enel para uma reunião com o objetivo de tratar dos transtornos causados pelas quedas e instabilidades no fornecimento de energia elétrica, durante o Natal e réveillon.

Em Iguaba Grande, os moradores se anteciparam à prefeitura e organizaram uma petição pública online. O documento será enviado ao Ministério Público (Tutela Coletiva da Comarca do município) para que o órgão mova uma ação de obrigação de fazer contra a Enel. O documento, que até esta quarta-feira reunia 1.149 assinaturas, revela que há meses (e, em muitos casos, anos) a população de iguabense “vem sofrendo diariamente com constantes interrupções no fornecimento de energia elétrica, bem como picos e oscilações de tensão, que atingem todos os bairros do município, sem exceção”. Afirma ainda que a concessionária “vem falhando reiteradamente na prestação de um serviço essencial, contínuo e adequado, conforme determina a Constituição Federal, o Código de Defesa do Consumidor e a legislação que rege os serviços públicos concedidos”. Somente depois de cobranças por parte da população o prefeito de Iguaba, Fabinho, se pronunciou colocando o Procon da cidade à disposição da população.

Criado em outubro de 2025, o Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento da Região dos Lagos (Conderlagos) também pautou os problemas com água e luz em sua primeira reunião ordinária de 2026. Comandada pelo presidente (prefeito de Rio das Ostras), Carlos Augusto Balthazar, os representantes das prefeituras de Araruama, Saquarema, Arraial do Cabo, Iguaba Grande, Casimiro de Abreu, São Pedro da Aldeia e Cabo Frio assinaram um ofício cobrando providências imediatas das Prolagos e da Enel após apagões e falhas durante as festas de fim de ano. O documento será encaminhado à Enel, à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), ao Ministério de Minas e Energia, ao Ministério Público e ao Governo do Estado.

– Esse encontro mostra o repúdio de oito prefeitos da Região dos Lagos. Vamos entrar com ações jurídicas e coletivas para que os consumidores sejam indenizados pelos prejuízos - disse Carlos Augusto Balthazar.

Em virtude de tantas reclamações, a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro anunciou que ajuizou ações contra as duas concessionárias, e a favor dos moradores e comerciantes de Cabo Frio, Arraial do Cabo, Armação dos Búzios, Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia. Nos documentos o órgão destacou que tanto a energia elétrica quanto o abastecimento de água são serviços públicos essenciais e devem ser prestados de forma contínua, segura e eficiente.

Os problemas de energia elétrica nas cidades da Região dos Lagos não são casos isolados. No início de dezembro, o Ministério de Minas e Energia afirmou que a Enel poderá perder a concessão para operar no estado de São Paulo por descumprimento nos índices de qualidade e as obrigações contratuais previstas. Na ocasião, cerca de 2,2 milhões de clientes foram impactados depois que ventos de 98km/h atingiram algumas regiões, derrubando mais de 300 árvores.