AGORA SÃO AS NOTAS

Com apresentação arrebatadora, Grande Rio sonha com título do Carnaval do Rio

Após bela homenagem à Martinho, Vila Isabel corre por fora e pode derrubar favoritismo da tricolor de Caxias

26 ABR 2022 • POR Rodrigo Branco • 12h02
Com um enredo autoral intitulado "Fala Majeté! As Sete Chaves de Exu'  os carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad prestaram uma reverência ao orixá cultuado nas religiões de matriz afro-brasileira - Rodrigo Branco

A sorte da campeã do Grupo Especial do Carnaval das escolas de samba do Rio já foi traçada, mas só será conhecida do público a partir das 16h desta terça-feira (26), quando começa a apuração das notas dadas pelos julgadores dos nove quesitos. Após a segunda noite de desfiles, a Acadêmicos do Grande Rio se destacou como a principal favorita à conquista, que seria inédita para a agremiação fundada em 1988.

Com um enredo autoral intitulado "Fala Majeté! As Sete Chaves de Exu'  os carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad prestaram uma reverência ao orixá cultuado nas religiões de matriz afro-brasileira. Ao mesmo tempo em que apresentaram as características da entidade, os artistas apresentaram uma forte mensagem contra a intolerância religiosa, desmistificando a figura de Exu, erroneamente associada à malignidade por alguns segmentos religiosos cristãos. 

Com um apresentação tão impecável quanto a escola de Caxias, embora sem o mesmo arrebatamento, a Unidos de Vila Isabel cantou a vida e a obra de Martinho da Vila, autor de grandes clássicos da escola, como Yayá do Cais Dourado (1969); 'Sonhos de um Sonho (1980); 'Pra Tudo se Acabar na Quarta-Feira (1984) e 'Raízes' (1987), entre outros. O apuro estético e a perfeição técnica da escola do bairro de Noel ameaçam o favotitismo da Grande Rio.

Outro destaque positivo foi a Unidos da Tijuca que trouxe o enredo 'Waranã, a Reexistência Vermelha'. A escola do Morro do Borel abusou das cores e da animação para contar uma lenda indígena sobre a origem do guaraná. As demais escolas da noite sofreram com problemas de evolução, que devem resultar na perda de pontos. O Paraíso do Tuiiti ultrapassou em dois minutos o tempo máximo de desfile – 70 minutos – e será despontuada em dois décimos.

Com uma bela apresentação na parte visual, a Portela sonha em voltar para o Desfile dos Campeãs, mas por outro lado, a Mocidade Independente foi a grande decepção da noite, com o aguardado desfile em homenagem ao orixá Oxóssi. A escola pecou principalmente no acabamento de suas alegorias. Confira abaixo as resenhas sobre cada um dos desfiles da segunda noite na Sapucaí.

Paraíso do Tuiuti

A escola de São Cristóvão levou para a Sapucaí o enredo 'Ka Ríba Tí Ye – Que nossos caminhos se abram', com exaltação às personalidades negras e á sua cultura, uma tônica nos desfiles deste ano. No retorno à escola onde trabalhou em 2003, o carnavalesco Paulo Barros estendeu a homenagem a figuras de diversas áreas de atuação, como o ex-presidente norte-americano Barack Obama; a cantora Beyoncé, e o ator Chadwick Boseman, falecido em 2020, que interpretou o personagem Pantera Negra no cinema. A escola apresentou boa qualidade na parte visual e um samba que rendeu, apesar de não ser dos mais cotados na fase pré-carnavalesca. Contudo, problemas no último carro, 'Estrelas além do Tempo' atrasaram a escola, que passou correndo nos últimos setores, mas não evitou o estouro no tempo. Os erros podem custar as últimas posições da tabela, junto com a São Clemente.

Portela

Em mais uma ode à ancestralidade negra, a escola de Oswaldo Cruz trouxe para a Avenida o enredo 'Igi Osé Baobá', em alusão à árvore sagrada da vida, conhecida por seu largo tronco. Como de costume nos trabalhos do casal Renato e Márcia Lage, a Águia passou muito bem nos quesitos fantasia e alegorias e adereços, com requinte e categoria nos acabamentos, apesar de um dos carros ter entrado com um globo terrestre danificado. O samba, criticado por alguns torcedores na época da escolha, rendeu muito bem na Avenida, graças à brilhante atuação do carro de som, sobretudo, do intérprete Gilsinho, bem como da bateria 'Tabajara do Samba', de mestre Nilo Sérgio. O casal de mestre-sala e porta-bandeira Marlon Lamar e Lucinha Nobre também devem garantir as notas máximas. A quase centenária agremiação poderia dar a volta ao Desfile das Campeãs como favas contadas, não fossem os problemas de evolução que provavelmente resultarão em perda de pontos. 

Mocidade Independente

Um dos desfiles mais aguardados do ano, por causa do badalado samba, terminou no que pode ser qualificado com a decepção do ano. A escola de Padre Miguel voltou a tropeçar em erros comuns ao longo das décadas de 2000 e 2010, como falhas de acabamento nas alegorias e evolução deficiente. Em relação a esta última, o destaque negativo foi o enorme buraco aberto pela escola bem em frente à cabine dupla dos jurados. A falha foi causada por problemas no acoplamento do gigantesco abre-alas, percalço comum a outras escolas. A comissão de frente fez uso de um drone para reprsentar a flecha do orixá Oxóssi, em recurso semelhante ao usado com o boneco do Aladdin, em 2017, mas sem o mesmo impacto. Além disso, o elemento alegórico que trazia os integrantes mostrava ferragens aparentes. A esperança da escola para evitar problemas na parte de baixo da tabela são os quesitos samba-enredo, muito cantado pelos componentes e pelo público no Sambódromo, além de uma inspirada atuação da bateria 'Não Existe Mais Quente', de Mestre Dudu, homenageado no último carro, juntamente a outros mestres históricos, como Bira, Jorjão, Coé e o mítico Mestre André, inventor da famosa paradinha. Credenciais insuficientes, no entanto, para quem sonhava com o título no pré-carnaval. 

Unidos da Tijuca 

Com um visual bastante colorido, a escola do Borel passou muito bem pela Avenida para cantar a lenda sobre origem do guaraná. O agradável samba de Eduardo Medrado e parceiros fez jus aos elogios recebidos no pré-Carnaval e foi cantado perlos componentes a plenos pulmões. O carro de som liderado pelo cantor Wantuir e sua filha, a revelação Wic Tavares, mostrou a competência habitual sustentada pela cadência característica da bateria de Mestre Casagrande, uma das melhores do Grupo Especial. O trabalho plástico do carnavalesco Jack Vasconcelos também resultou em belo conjunto alegórico e de fantasias. Sem maiores problemas, a escola mostrou que pode brigar por uma colocação na parte de cima da tabela e, consequentemente, voltar no Sábado das Campeãs.

Grande Rio

A escola de Caxias soube corrigir os problemas de evolução que comprometeram o resultado de 2020 e fez uma apresentação absolutamente irrepreensível, nos pontos de vista estético, técnico e musical. A partir de um minucioso trabalho de pesquisa, os carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad mostraram as carcaterísticas do orixá Exu com criatividade, bom gosto e acabamento impecável. O impacto começou na comissão de frente, com uma performance impresionante do ator Demerson Dalvaro representando o homenageado pelo enredo. Na sequência, a sensação de arrebatamento era renovada a cada alegoria e ala que entrava na pista de desfiles. Uma experiência de arte e encantamento para o público. A Grande Rio pisou forte na passarela, com os componentes cantando em alto e bom som o samba, com ênfase no refrão principal, iniciado pelo verso "boa noite, moça; boa noite, moço". Com mais uma atuação memorável do cantor Evandro Malandro e da bateria de Mestre Fafá, a escola fez um desfile histórico, desde já um dos melhores deste século. Resta esperar a abertura dos envelopes para saber se a frieza das notas referenderá o favoritismo. 

Vila Isabel

A Azul e Branco do bairro de Noel Rosa fechou com chave de ouro o desfile mais aguardado da história do Carnaval. Não poderia ser diferente, afinal de contas, a escola cantou seu poeta maior, Martinho da Vila, passando por aspectos da sua vida e da sua carreira, cuja trajetória se confunde com a da própria escola. O homenageado apareceu já na comissão de frente, saindo de dentro do elemento alegórico, sentado em um trono para ser coroado pelo orixá Obaluaê. Martinho voltou no fim, na ala da diretoria, para ser reverenciado novamente pelo público, que não chegou a lotar a Marquês de Sapucaí em nenhum dos dois dias de desfiles. Com alegorias grandiosas e fantasias bem acabadas, resultado do belo trabalho plástico do carnavalesco Edson Pereira, a Vila também deu um show na parte musical, com o carro de som liderado por Tinga e a suingue da bateria comandada por Mestre Macaco Branco. Outro ponte forte foi a Harmonia, impulsionada pelo canto forte da escola, sobretudo, no refrão principal que termina com a frase-desejo "a vida vai melhorar". Não à toda, o povo foi atrás da Vila, em animado arrastão. Tecnicamente perfeita, a apresentação credencia a agremiação como principal ameaça ao favoritismo da Grande Rio.

 

'