Preço 'absurdo' dos combustíveis nos postos faz motoristas sofrerem para rodar de carro
Especialistas apontam que política de preços da Petrobras e dólar alto são vilões nas bombas
Mais do que um conforto, andar de carro nos tempos atuais é quase um exercício de ostentação. Desde que a Folha publicou a última reportagem sobre a alta dos combustíveis, em março deste ano, o preço cobrado nas bombas dos postos da região subiu 23%. Se àquela época, o litro da gasolina beirava os R$ 6, hoje pode ser encontrado a quase R$ 7,40 o litro, obrigando os motoristas a fazer malabarismos para tirar o veículo da garagem, muitas vezes sem poder abrir mão de fazê-lo.
Morador do distrito de Figueira, em Arraial do Cabo, o aposentado José Coelho é obrigado a vencer semanalmente os 25 Km de distância até o Centro da cidade ou Cabo Frio para fazer as compras da casa ou levar a esposa para consultas médicas. Com a precariedade do sistema de transporte público na localidade, ele se vê obrigado a usar de estratégias para conseguir rodar com o máximo de economia possível. Mesmo com carro flex, ele conta que sofre o impacto no bolso.
O preço da gasolina, assim como o do álcool, está um absurdo. A gente não tem mais condições de sair de casa. Toda vez que eu vou a Cabo Frio, tenho que deixar para fazer as coisas todas de uma vez, porque se eu for todo dia, não há dinheiro que a gente. Indo uma vez por semana, eu já gasto R$ 46 só de álcool, imagina se fosse de gasolina desabafa.
Resignado com a situação, o professor do Instituto Federal Fluminense (IFF) Gabriel Neves afirma que tem feito cada vez mais uso do transporte em duas rodas, pedalando. O docente explica que o trabalho em home office colabora para fazer economia, uma vez que precisaria pegar a estrada para ir trabalhar na instituição de ensino, que fica no limite de Cabo Frio com Armação dos Búzios.
Não tem muito o que fazer. O combustível cada vez cabe menos no orçamento. Por sorte, estamos ainda no trabalho remoto, mas tenho usado bicicleta cada vez mais no dia a dia, dispensado viagens, etc explica.
"Sem solução em curto prazo"
A empresária Sandra Canciler é dona de agência de carros e afirma quer não percebeu uma redução no movimento, mesmo com a crise econômica e o preço da gasolina nas alturas. Ainda assim, ela admite que o impacto é grande na vida dos cidadãos.
O aumento do combustível impacta em todos os setores, pois em todos os produtos, precisamos de transporte, consequentemente, o aumento é repassado para as mercadorias, diminuindo assim o poder de compra dos consumidores. Porém, quanto à venda de automóveis, o veículo é um meio de locomoção importante, para quem usa para o trabalho. Para seu lazer, com a pandemia, muitas pessoas resolveram ter seu próprio automóvel, por questão de segurança. E brasileiro é vaidoso. Gosta de trocar de carro. Colocam um GNV, mas não abrem mão da compra do veículo avisa.
A opção do Brasil pelo transporte rodoviário tanto para o lazer como para logística e transporte é uma das explicações encontradas por especialistas para o modo como a economia fica refém dos humores do mercado de petróleo e gás. Entretanto, os grandes vilões da atual situação, na opinião de quem acompanha o assunto de perto, é a política de preços adotada pela Petrobras, a partir de 2015, que torna o valor do óleo e derivados flutuarem excessivamente ao sabor da concorrência internacional, bem como a forte alta do dólar associado à desvalorização do real frente à moeda americana.
A gente tem o que eu chamo de tempestade perfeita, que é chuva forte com maré alta. Que é elevação do preço internacional do petróleo com desvalorização da moeda nacional, que é o real. Então o consumidor acaba pagando mais caro por isso. Então há o rebatimento que a gente está tem na economia porque tudo leva combustível porque eu preciso de transporte. Não tem uma coisa dentro da economia brasileira ou dentro da economia de qualquer país que não dependa de transporte, seja barco ou carro de entrega, tudo leva combustível. Então a nossa dependência com essa fonte de energia é muito significativa e não termina de uma hora para outra explica o economista e consultor da área de petróleo e gás Fábio Neves, que nega que as sucessivas remarcações tenham a ver com impostos, como é constantemente divulgado em redes sociais.
A tributação que incide nos combustíveis é a mesma desde 2014. A tributação não é o grande vilão hoje, que é o preço através dessa paridade que está tornando cada vez mais frequente repassar o preço do petróleo, a paridade cambial e o terceiro componente que é a questão do emprego e a renda. Como cada vez mais a gente tem problema de emprego e renda, então a gente está mais sensível às variações de preço finaliza.
Para o administrador Leandro Cunha, que também é especialista no mercado petrolífero, não é possível prever até onde vão os preços dos combustíveis. Cunha é pessimista quanto à mudança no perfil da Petrobras ainda neste governo.
Então isso não vai ser resolvido a curto, médio nem longo prazo. Se isso for mantido [política de preços], a tendência é que haja essa equiparação ao preço do mercado internacional e sempre que houver aumento da taxa do dólar frente ao real, você vai ter essa pressão inflacionária sobre os preços dos combustíveis. E outra questão, essa política afeta outros derivados de petróleo, como GLP [gás de cozinha] e diesel. O etanol não entra muito nisso aí. O ideal é que tivesse uma política de preços para cada tipo de derivado para poder não ter um aumento generalizado nesses preços, como ocorre hoje, isso não tem muito sentido. Na gasolina, você adota a mesma filosofia de preços para os demais combustíveis. Você distorce o preço porque não é a mesma matriz de produção do que a gasolina observa.