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Mauro Bernardo: ‘Tô doido pra assumir e acabar com esse depósito’

Policial reformado foi eleito deputado estadual com 16,8 mil votos

09 outubro 2018 - 09h15
Mauro Bernardo: ‘Tô doido pra assumir e acabar com esse depósito’

TOMÁS BAGGIO

 

O primeiro turno das eleições 2018 pegou muita gente de surpresa. Resultados que não eram esperados pelo eleitorado ou pelos institutos de pesquisa se espalharam pelo Brasil. Na Região dos Lagos não foi diferente. Enquanto nomes que ocupam ou já ocuparam cargos eletivos foram rejeitados nas urnas, um novato na política conquistou a preferência de parte significativa do eleitorado. O policial militar reformado Mauro Bernardo dos Santos, ou subtenente Bernardo, como é mais conhecido, irá ocupar uma das 70 cadeiras da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) a partir de 2019.

Bernardo foi eleito deputado estadual com 16.855 votos e foi às ruas ontem para agradecer a votação. Parou em frente a uma galeria comercial onde costuma ficar no Centro de Cabo Frio e recebeu muitos cumprimentos de eleitores. Uma das plataformas de campanha de Mauro Bernardo é o combate aos depósitos de veículos. “Você paga pra eles destruírem seu carro”, afirma.

Em seu tempo de policial na ativa, era famoso pela linha dura e recebeu o apelido de “terror da bandidagem”. Agora, na reserva, é sempre visto nas ruas contando histórias do tempo de PM. Durante esta entrevista, rodeado por populares, um episódio arrancou risos de quem estava por perto. Bernardo falava quando foi interrompido por um senhor, barba e cabelos brancos, que chegou dizendo: “votei em você mesmo já tendo sido preso por você uma vez”. No que Bernardo, de pronto, respondeu: “ah, mas com certeza eu respeitei os seus direitos, direito de ficar calado, ligar pra um advogado, sem esculacho...”, e a entrevista seguiu. Leia abaixo na íntegra:

Folha dos Lagos – O senhor esperava mesmo ganhar?

Mauro Bernardo – Quando eu comecei a campanha o pessoal me conhecia pelos 35 anos como policial, sem pegar dinheiro na rua, sem ofender ninguém. Logicamente, ter que fazer mais de 15 mil votos, disputar com o pessoal do Rio de Janeiro, uma campanha sem dinheiro, contando com a ajuda desse pessoal aqui de graça, era complicado. Primeiro eu achei que ia ter uns dez mil votos. Mas quando eu fui sábado em São Cristóvão (bairro de Cabo Frio) e vi aquilo tudo, eu pensei: “cara, eu to eleito”.

Folha – Como foi a campanha?

Bernardo – O único dinheiro que eu tinha, gastei comprando aqueles santinhos santinhos, foram R$ 1 mil. Aí eu dava de mão em mão, quando alguém jogava no chão eu pegava pra dar pra outra pessoa. E fui assim, com a verdade. Cabo Frio tem que parar de dizer que o eleitor não sabe votar, sabe votar sim, tanto é que votaram em mim sem ganhar nada. O eleitor que vende o voto não pode cobrar o deputado. Eu não, se o eleitor me cobrar eu tenho que abaixar a cabeça e respeitar porque ele não me vendeu, ele me deu o voto dele, então eu tenho que respeitar.

Folha – Quais são seus planos quando entrar na Alerj?

Bernardo – Eu quero ajudar essa população sofrida, fazer essas coisinhas pequenas... Eu odeio esse depósito de carro, é uma arbitrariedade pagar essa porcaria de vistoria. Essas apreensões de carro são ilegais. Quando um bandido é preso, em 24 horas tem que se apresentar a um juiz pra poder ver se a sua prisão está correta. Já o seu carro, se o cara prende num domingo e tá tudo fechado, você não tem a quem recorrer. Tinha que ter, no minimo, um fiscal do Detran de plantão pra ver se o policial está certo. O policial é dono do mundo? E se ele estiver usando de arbitrariedade? Você vai correr atras de quem? Não tem aquele (bordão) “chama o Meirelles?” Agora não tem mais Meirelles, agora é chama o Bernardo.

Folha – O que pretende fazer para mudar o que acontece atualmente nos depósitos?

Bernardo – O depósito, pra começar, se a licitação foi feita com o (ex-governador) Sérgio Cabral, é certo que tem malandragem no meio. Não tem nem área coberta no deposito, esses caras pensam que a gente é burro. Você paga pra eles destruírem seu carro. O carro fica lá abandonado, gastando seu dinheiro. Se o depósito está correto, então vamos lá: eu quero cobertura no depósito, que no sábado e no domingo o carro não seja mais apreendido, ou então tem que ter alguém do Detran pra você ter o direito de defesa igual o bandido tem. Hoje o seu carro fica na mão de um empresário que está cada vez mais rico.

Folha – O senhor está propondo mudanças dependem, muitas vezes, de aprovação de leis, ou seja projetos que precisam ir a votação. Como pretende negociar com os outros deputados para aprovar as suas iniciativas?

Bernardo – Eu não estou sozinho, eu estou com 17 mil pessoas que votaram em mim. Lá (na Alerj) eles são só 78, eles que estão sozinhos. É botar a população contra. dizer “olha só, eu quero fazer isso e aquele deputado não quer porque ganhou isso ou aquilo”. Então eu não estou sozinho, estou com 17 mil pessoas comigo.

Folha – Que outras bandeiras pretende levantar durante o seu mandato?

Bernardo – Eu acho, por exemplo, interessante que a Assembléia dá um carro bonito com motorista (coloca à disposição dos deputados), que eu sempre vejo passar. Eu queria, quando falo isso fico até emocionado, mas eu queria usar esse carro pra ajudar as pessoas que têm problemas, que precisam ir no Rio uma vez por mês, que têm câncer e muitas vezes são pobres. Então eu queria doar meu carro (cedido pela Alerj) para isso. Se eu pegar meu carro particular, parar em Niterói e pegar uma barca, já estou na assembleia. Não quero mais o cidadão de Cabo Frio implorando por uma coisa que tem direito. Tem que parar com isso. Dinheiro pra terno, esses negócios... eu gosto muito da Apae, do Médico Sem Fronteiras e quero doar o dinheiro do terno pra eles porque eu nâo uso terno de jeito nenhum.

Folha – Não vai usar paletó no plenário da Alerj?

Bernardo – O problema é esse, eu tinha medo de ganhar exatamente por causa do terno. Eu já deixei de ir em casamento, em aniversario de 15 anos, só pra não usar terno. Mas agora acho que não vai ter jeito, não.

Folha – Como vai receber as cobranças da população? Agora, como deputado, vai ter que prestar contas, explicar sobre o seu voto em cada projeto...

Bernardo – Eu quero que me cobrem mesmo. Eu tô entrando pra resolver o problema de vocês, que é o meu também, porque eu também tenho família. Eu vou na UPA de madrugada e ver quantos médicos bateram ponto, se estão todos lá, porque isso é direito do deputado. Em todo lugar que tiver dinheiro do estado eu vou estar lá.

Folha – Já tem eleitor seu falando em uma candidatura para prefeito de Cabo Frio. O senhor tem essa vontade? Como vê seu futuro político?

Bernardo – No momento eu não quero ser prefeito, nem candidato, porque quero resolver esses problemas pequenos. Se um motorista esquece o documento do carro em casa, o carro não pode ir pro depósito. Tem que dar uma multa por não portar documento, mas não apreender. Mas aí tem três policiais na blitz, você vai discutir? Quem vai te ajudar quando você precisar? Então eu vou ajudar. Vou até lá e vou ajudar. Também quero acabar com essa vistoria obrigatória. Eu quero ser o deputado das pessoas humildes porque eu sou de família humilde, e tudo que vocês passam a minha família passa. Quando você vai no hospital e não tem médico, a minha família passa por isso também. Quando vai na delegacia e fica duas horas esperando pra fazer uma ocorrência, é a mesma coisa. Então se o deputado pensasse que o que ele não quer pra ele, ele não quer pros outros, as coisas seriam melhores. E as coisas estão mudando, vocês estão vendo aí.

Folha – Está ansioso pra assumir?

Bernardo – Eu tô doido pra assumir e acabar com essa p de depósito.seu carro.