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Instabilidade política prolonga agonia econômica de Cabo Frio

Perdas no comércio chegam a 30% apenas no primeiro semestre de 2018

16 junho 2018 - 10h50Por Texto e foto: Rodrigo Branco
Instabilidade política prolonga agonia econômica de Cabo Frio

Daqui a oito dias, o cabofriense voltará às urnas para escolher o novo prefeito e, quem sabe, dar fim a uma crise econômica que se prolonga na esteira da indefinição política na cidade. A instabilidade se arrasta há meses, desde que o ex-prefeito e agora novamente candidato Marquinho Mendes (MDB) já balançava no cargo. A reportagem ouviu comerciantes e empresários, que confirmaram sentir na pele, isto é, nos seus negócios, o grave momento nas finanças de seus negócios.

Na verdade, a própria prefeitura sente os efeitos negativos do receio do contribuinte e da falta de dinheiro circulando. Segundo o secretário de Fazenda, Clésio Guimarães, o cenário de incerteza político-administrativa repercute na queda da arrecadação própria municipal.

– A arrecadação caiu muito no mês passado. A instabilidade política se reflete no próprio IPTU. Tivemos uma queda de 20% de abril para maio. Estamos tomando algumas providências. Vamos deixar passar a eleição para intensificar as campanhas para incentivar a pagarem – explica Clésio.

Na iniciativa privada, o desaquecimento é ainda maior. O presidente da Associação Comercial, Industrial e Turística de Cabo Frio (Acia), Eduardo Rosa, estima que a redução nas vendas seja de até 30%, dependendo do setor. O empresário destaca que os segmentos mais afetados são os de confecção, venda de roupas e material de construção. Eduardo avalia que o problema é potencializado por questões externas, como a crise no Estado e no país, a alta do dólar e até mesmo a recente greve dos caminhoneiros. Ele pontua, porém, que a situação local é o que piora tudo.

– Trabalhamos dentro da realidade. A situação econômica geral vinha numa lenta recuperação, mas em Cabo Frio está pior por causa dessa eleição. Proje- tos param, e como há muitos funcionários contratados e comissionados da prefeitura que não sabem se estarão empregados daqui a um mês, existe uma retração econômica e o comércio sofre com isso – comenta.

Para o consultor de empresas Sérgio Monteiro, a lógica conservadora de ‘fechar a mão’ não é apenas dos consumidores, mas também dos próprios empresários e de potenciais investidores externos.

– O que eu vivencio é muito simples: se há instabilidade, existe o que chamo de ‘efeito retenção’. As decisões são de aguardo. Aguarda-se mais para fazer um investimento ou reabastecer os pontos comerciais por causa da incerteza. Isso afeta toda a cadeia econômica da cidade: a venda cai, o investimento cai e a o imposto arrecadado cai também – explica o especialista.

A ansiedade por dias melhores na economia de Cabo Frio não é fruto apenas de estatísticas ou de divagações no campo teórico. As dificuldades têm nome, sobrenome e CNPJ. O empresário Renard Pavlak, que é dono de uma rede de lojas de roupas na cidade, comenta que vivencia a crise da ‘pior maneira possível’. Segundo o empreendedor, o faturamento de seu negócio em abril caiu 60% em relação ao mesmo mês do ano passado, que já foi considerado fraco. Renard explica que nos dois últimos anos ainda conseguiu equilibrar as finanças por causa do comércio pela internet, mas agora, apenas com lojas físicas, ele vislumbra ter que tomar medidas mais drásticas.

– Em 2016, com três lojas físicas, fechamos com um faturamento maior do que em 2017, com quatro. Em 2018, a curva não para de descer. Estamos num microambiente pior do que o Estado, que está pior do que o país. Já fiz demissões, mas venho estudan- do reduzir mais o quadro de funcionários e talvez fechar uma unidade – lamenta o empresário.

A empresária Cláudia Guimarães Rosa, dona de uma confecção de roupas na Rua dos Biquínis, tenta ser otimista, mas reconhece que o segmento, também afetado pela baixa temporada no Turismo, sentiu o baque.

– Acho que o povo brasileiro de modo geral está inseguro, na hora de investir vai ter que repensar. Está muito complicado, mas temos que ter esperança. Na Rua dos Biquínis, a queda é bem evidente, mas em relação ao ano passado ainda não fiz um levantamento. Mas acredito que tivemos uma queda de uns 10% em relação ao ano passado por conta da instabilidade política na cidade – relata Cláudia Guimarães.

William Garcia, gerente de uma loja de material de construção na Avenida Teixeira e Souza, confirma a crise vivida pelo seu setor e apontada pelo presidente da Associação Comercial.

– Cabo Frio hoje convive com três crises: nacional, estadual, e municipal, onde a Prefeitura é o primeiro empregador. O quadro econômico da cidade é caótico. A gente faz um acompanhamento mensal do faturamento, e é fácil perceber nos gráficos que a situação por aqui é de queda, e esse percentual de 30% está dentro do que vejo pelos corredores da loja – disse William.