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Coluna

Vai chorar o leite derramado?

21 abril 2020 - 11h33

Prezados leitores de todas as terças, mais uma semana de isolamento e distanciamento social, com decretos de prorrogação das medidas de contingenciamento da pandemia do novo CORONAVÍRUS, cujo ritmo de disseminação, segundo os painéis oficiais, permanece, ao que tudo indica, estável. Os números, porém, não demonstram categoricamente se o modelo de gestão da crise adotado pelos governos, especialmente da maioria dos estados e boa parte dos municípios, está realmente correspondendo às expectativas.

O tal achatamento da curva que serviria a dar fôlego ao SUS, na busca pela estruturação de mais leitos e equipamentos (e profissionais para operá-los), anda pressionando não somente os serviços de atendimento à saúde, como também a própria economia. Os empregos e milhões de trabalhadores, formais e informais, ainda privados de exercerem seus ofícios parecem não fazer parte dessa equação.

É legítimo afirmar que a inanição, a pobreza e a alienação do Poder Público na busca por alternativas, obviamente só agrava esse desalento e faz propagar o flagelo da desesperança, de tal maneira que a insatisfação popular é notória.

Os impactos econômicos ainda estão sendo apurados e faltam ser consolidados, mas os cenários simulados por consultorias e entidades do mercado financeiro já sinalizam para uma realidade angustiante e PIB negativo, ou seja, de retratação de riquezas e sobretudo de postos de trabalho que estão sendo diariamente pulverizados, apesar dos esforços compensatórios do Governo Federal. Neste ponto, vale reconhecer o mérito na implementação em tempo recorde de assistências dirigidas às populações mais vulneráveis, como aquelas atendidas pelo Bolsa Família e sem renda formal.

Jogando, enfim, uma lupa em nossa acabrunhada Cabo Frio, o horizonte é extremamente obscuro e incerto. O Poder Público local tem (re)agido, apenas, e, mesmo assim, timidamente, à sombra necessariamente das ações estabelecidas pelo Governo do Estado e aquelas demandadas pela União.

Mas o cerco está se fechando e a população dá sinais claros de fadiga e impaciência, em especial com a exploração oportunista de alguns ilustres detentores de cargos eletivos. Aqueles que foram cooptados pelo voto e que eram pra ser os representantes da vontade popular majoritária - princípio basilar e substrato das democracias -, parecem cada vez mais distantes e descolados da nossa (complexa) realidade.

Medidas extremas de cerceamento de certas liberdades e garantias individuais, que se perpetuam de forma imprevidente, respaldadas em atos normativos editados pelos entes federativos, a princípio dotados de aparente legalidade, começam a encontrar considerável resistência quanto à sua adequação aos postulados do Estado de Direito.

A situação anda tão polarizada que até informações de novas alternativas terapêuticas que ensejam satisfatória eficácia, tornam-se objeto de discórdia e discussões enfadonhas, e que parecem intermináveis. Enquanto debatem o "sexo dos anjos" e esses "paradoxos da atualidade" não são devidamente esmiuçados, permanecemos cumprindo "regime" de confinamento domiciliar, e sem perspectiva de "progressão".

Voltando às veredas cabofrienses, é desolador ver a nossa gente disputando auxílios governamentais oriundos da Capital Federal, enquanto a rede comercial segue de portas fechadas; pequenos e promissores empreendimentos sem alternativas de manter suas atividades, o tão relevante seguimento turístico totalmente paralisado... E em meio ao caos, começam a eclodir, pois, aqui e acolá, notícias de improbidade e malversação do dinheiro público.

É sempre bom lembrar que o município, uma vez conhecido como "locomotiva da Região dos Lagos", vive de um tripé elementar fincado nos três vetores: turismo, comércio e serviços, que, além da administração pública, respondem pela maior parte da absorção de mão-de-obra e geração de renda, a abstenção de atividades nestes setores estratégicos resultarão em queda abrupta da arrecadação, cujo efeito cascata será ainda mais arrasador. Isso tudo, numa conjuntura recente de atraso de folha de pagamento dos serventuários e protestos de suas entidades representativas. 

Trocando em miúdos: vai faltar recursos para honrar compromissos mais essenciais. Aí, não adianta "chorar o leite derramado".