Assine Já
segunda, 24 de fevereiro de 2020
Região dos Lagos
25ºmax
20ºmin
Apartamento
Coluna

Pessoa Idosa: insegurança doméstica

16 dezembro 2019 - 18h21

Caríssimos leitoras e leitores de todas as terças, nesta semana vamos voltar as lentes para os nossos idosos e a estarrecedora constatação estampada pelo Dossiê Pessoa Idosa 2019, publicado pelo Instituto de Segurança Pública fluminense, em outubro deste ano.
A quarta edição do estudo revelou que 61% dos casos de agressões ocorreram justamente dentro de casa, cujos crimes mais comuns e de maior repercussão, inclusive, consistem em lesão corporal dolosa (intencional), ameaça, maus tratos, estelionato, extorsão e homicídio doloso, além daqueles previstos no Estatuto do Idoso. Ademais, como se não bastasse, ainda foram identificados com elevado grau de recorrência, as mortes provocadas pela falta de assistência médica.

O velho jargão popular comumente entoado em verso e prosa de que “panela velha é que faz comida boa”, pelo visto está ficando cada vez mais fora de moda. O desrespeito e abandono com a população idosa tem se tornado um epidêmico flagelo.
As rugas não traduzem mais o respeito de toda experiência acumulada ao longo de uma vida de lutas e sacrifícios. A julgar pelo resultado da pesquisa, considerando o ambiente de violência doméstica, todo esse holocausto transfigura-se em grave atentado contra o quarto mandamento: “honrar pai e mãe”.

Emparedadas e vulneráveis dentro de seus próprios lares, e geralmente desacompanhadas, as vítimas de cabelos grisalhos e sem o vigor físico necessário a sustentar uma reação mais eficaz, naufragam nas lágrimas do abandono e do desprezo. Confinadas nos quartos da solidão, permanecem à deriva da sanha voraz de seus algozes, impulsionados nas velas da ganância, da crueldade, verdadeiros monumentos de angústia e desumanidade.

Invariavelmente, “câmeras escondidas” acabam expondo ao mundo flagrantes repulsivos (e de causar náuseas) de espancamentos e humilhação, perpetrados por quem deveria justamente ter o dever de cuidado.

E uma ideia de quão assombrosos são os registros, a partir de criteriosa analise do estudo em questão, patente concluir que no estado do Rio de Janeiro 3.472 idosos foram agredidos em 2018, o equivalente a dez por dia.

Apesar do cenário retratado trazer à superfície uma melancólica e dura realidade, artigo de Michele Souza, da Fundação Oswaldo Cruz, inserido no referido levantamento, na seção “Outros Olhares”, indica que foram obtidos alguns avanços. A autora destaca o marco normativo com o advento do Estatuto do Idoso, advertindo, porém, quanto aos desafios de “efetivação dos direitos preconizados”.
No mesmo adendo do relatório, mantendo-se no campo da proteção, a especialista Cristiane Branquinho, do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), destaca o uso da ferramenta “Disque 100”, serviço telefônico do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, dentre outras ações no combate à violência contra o idoso.

Todavia, apesar de todos os recursos colocados à disposição para debelar essa chaga social, a verdadeira cura para os corações petrificados e corrugados pelo egoísmo, já nos foi apontada na linda reflexão de Madre Teresa de Calcutá, hoje canonizada, que prescrevia: “não ame pela beleza, pois um dia ela acaba. Não ame por admiração, pois um dia você se decepciona. Ame apenas, pois o tempo nunca pode acabar com um amor sem explicação”!

E concluo com um forte apelo: não se omita ou ignore, ou mesmo releve ofensa de qualquer natureza. Denuncie imediatamente às autoridades!