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Coluna

Vamos sair melhores?

25 julho 2020 - 11h03

Algumas propagandas televisivas e personalidades mundiais - entre elas o Papa Francisco - têm manifestado a esperança de que a humanidade saia melhor, enquanto humanidade mesmo, do período pandêmico.

Obviamente, o termo esperança se coaduna bem com essa expectativa, tendo em vista que, ao menos na perspectiva da teologia paulina, ela se alinha ao conceito de fé, que, na ótica cristã, seria a certeza daquilo que não se vê. Isso porque, sob o ponto de vista aristotélico do conceito de previsão (relação de causalidade), a possibilidade é exatamente contrária. 

A causalidade em Aristóteles é a relação direta entre uma consequência posterior e uma causa anterior no tempo. Assim, me parece muito difícil visualizar uma melhora no aspecto da empatia humana, por exemplo, como consequência das restrições e dificuldades pandêmicas, se as possíveis causas desse efeito são absolutamente diversas disso.

A completa ou parcial indiferença da população em relação às recomendações científicas não são novidade no Brasil, vide a chamada Revolta da Vacina há mais de 100 anos. O Brasil é um celeiro de mentes brilhantes rejeitadas ou pela opinião pública ou pelo próprio sistema acadêmico, que o digam o próprio Oswaldo Cruz, mas também Rui Barbosa, Paulo Freire e Darcy Ribeiro, só para exemplificar. 

Os governos seguem na mesma toada, com o Plus do aproveitamento financeiro e eleitoral da perda de vidas. 

Some-se a isso a divulgação, pela mídia, das famosas carteiradas - seja do engenheiro ou do desembargador - que não são novidades no estado brasileiro, como defendeu Roberto da Matta ao escrever, há mais de 40 anos, na obra “Carnavais, Malandros e Heróis” o célebre capítulo “Você sabe com quem está falando?”.

Entender o outro como portador de um menor valor humano é a chave da segregação e do preconceito para Norbert Elias. Assim, a pandemia somente está mostrando, de forma mais evidente, o que a maioria da população brasileira sempre foi. As iniciativas solidárias mantêm quem já as faz no campo da empatia, mas as ações indiferentes, fraudulentas, egocêntricas e preconceituosas revelam o paternalismo clientelista e o conservadorismo hipócrita de quem guardava  esses tesouros malignos nas sombras. Como uma lente de aumento, a realidade triste da pandemia maximiza a evidência de nossa história pouco bonita. Desculpem a opinião, mas não sairemos melhores. Sairemos sabendo quem somos, que é o que sempre fomos.