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Coluna

“Só acontece no Brasil”

12 novembro 2019 - 20h07

Uma das coisas que mais salta aos olhos dos estrangeiros quando vêm ao Brasil, é o fato de “nós”, brasileiros pouco nos identificamos com os demais “latino americanos”. É como se o que acontece no resto do continente fosse algo proveniente de um país muito, muito distante. Esse estranhamento não é recíproco, quer dizer, os latino americanos não se pensam como tão distantes do que acontece no Brasil, ao contrário.

Na primeira vez que fui a Buenos Aires, fiquei impressionado com o fato das rádios locais tocarem com tanta insistência as músicas de Roberto Carlos, em compensação quase nunca ouvi uma música de algum artista argentino tocada nas rádios brasileiras. É um exemplo aparentemente banal, mas que ao meu ver é muito revelador.

Acreditamos, nós brasileiros, que aquilo nos acontece, seja em termos político, econômicos ou culturais é tão “único” e “específico”, que “só acontece no Brasil”. Engano, essa é uma expressão que se analisada com mais atenção é bem indicativa como expressamos através da língua e a cultura, a maneira como nos formamos enquanto nação. Esse processo histórico e cultural tem, a meu ver, um padrão comum, desde que a ideia de uma “nação brasileira” começou a tomar forma, lá em meados dos século XIX.

“Só acontece no Brasil”, porque o Brasil para ser entendido como Nação teve de construir toda uma narrativa que nos diferenciasse do resto do continente americano. Assim, a enorme herança indígena tão presente em outros países latino americanos, foi sistematicamente trocada, ou melhor dizendo “apagada”, em benefício de uma “identidade brasileira”, nem indígena, nem preta, nem européia, mas simplesmente “brasileira”. Isso por si só, foi em grande parte responsável pela criação de uma memória e identidade nacionais, que possibilitou nós nos víssemos como “brasileiros”, mas à custa de sacrificar nossa identificação com restante da América Latina.
Isso se tornou tão forte em nossa cultura, tão presente que passou a ser ensinado sistematicamente nas escolas, desde o século XIX, ponto de nós estabelecermos uma separação muito nítida entre a “História do Brasil”, de um lado, e a “história da América”( com minúsculas mesmo), de outro. 

Essa, na minha opinião é a raiz, a fonte de nossa “perplexidade” ante ao que está acontecendo na América do Sul, das manifestações no Chile à queda do Evo Morales na Bolívia. Não conseguimos estabelecer uma ligação entre o que acontece aqui no brasil e a repercussão disso nos demais países do continente, da mesma maneira que não conseguimos perceber em que medida que o que ocorre no restante do continente tem implicações diretas com nossa vida cotidiana.

A globalização está fazendo com que todas essas nossas crenças comecem a ser questionadas, e posso afirmar com relativa segurança que essa tendência será cada vez mais forte. Quer dizer, cada vez mais, os acontecimentos dos outros países na América Latina vão suscitar intensa discussão e também reação da opinião pública no Brasil. O que está ocorrendo no Chile, na Argentina e na Bolívia é apenas uma amostra do que está por vir.

E definitivamente não, não acontece só no Brasil.