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Coluna

Segurança sanitária nas escolas públicas: há recursos, falta vontade!

30 setembro 2021 - 15h48

Imagine se seus filhos fossem convidados para uma excursão a um canteiro de obras onde está sendo erguido um grande edifício. Porém, chegando lá, eles não recebem capacetes. O barulho das britadeiras, bate-estacas e marretas é ensurdecedor, mas não há protetores de ouvido. Vergalhões de aço usados para construir as colunas, pilares e vigas, estão expostos em locais com grande risco de queda. Apesar disso, não foram instaladas barreiras de segurança para evitar que as pessoas caiam sobre eles e sejam perfuradas em caso de acidente. Um operário perde o equilíbrio em um andaime e morre. Mesmo assim, a excursão continua como se tudo estivesse normal.

Num cenário tão óbvio não é difícil entender o quão perigoso seria colocar crianças em um ambiente insalubre e sem condições adequadas de segurança. Porém, guardadas as diferenças entre um canteiro de obras e uma escola em contexto de pandemia, é mais ou menos esse tipo de desordem que está acontecendo no retorno às aulas presenciais na rede pública.

Porém, a pandemia torna os riscos presentes nas escolas menos “visíveis” do que neste cenário hipotético. É muito mais fácil que as pessoas se enganem quanto ao real perigo quando os próprios governantes difundem notícias falsas, promovem o negacionismo e banalizam as mortes. Também colabora com o engano a inexistência de campanhas de comunicação massivas para conscientizar as pessoas sobre como ocorrem os contágios e quais medidas preventivas são eficientes para evitar adoecimentos.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) atualizou na última semana o seu documento técnico intitulado “Recomendações para o retorno às atividades escolares presenciais no contexto da pandemia de COVID-19”. O manual reforça o que o Sepe Lagos tem defendido há cerca de 1 ano: as adaptações para melhoria da ventilação e da qualidade do ar nas salas de aula e demais ambientes devem ser realizadas com a máxima prioridade. Porém, mesmo com as escolas fechadas por tanto tempo, os governos não investiram em obras para viabilizar estas adequações.

O Sepe Lagos tem tentado debater estas medidas desde o ano passado. O sindicato elaborou com o apoio da Frente de Defesa da Educação de Juiz de Fora e de pesquisadores da área da saúde uma ampla Proposta de Protocolo de Biossegurança no Ambiente Escolar (disponível em sepelagos.org.br/covid19). O material já está em discussão com as prefeituras de Cabo Frio, Arraial do Cabo e Armação dos Búzios, porém poucas medidas concretas foram aplicadas por estes governos até o momento.

Os alunos retornaram às escolas e as encontraram tal como elas estavam há mais de 1 ano atrás, sem qualquer tipo de adaptação dos prédios. Muitos responsáveis tomaram a correta decisão de não enviarem seus filhos para as escolas, reivindicando a manutenção do ensino remoto. Eles têm ciência de que a pandemia está longe de ser controlada e de que apenas uma pequena parcela da população teve acesso à vacinação completa.

As nossas crianças e adolescentes nunca estiveram tão expostos ao risco de morte por COVID-19. O fato é pouco noticiado, mas segundo dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, a doença já é a principal causa de mortes de crianças e adolescentes (na faixa etária de 10 a 19 anos) no Brasil. Somente este ano, mais de 1.500 jovens nesta faixa etária morreram de COVID-19 até o mês passado e a situação, segundo os cientistas, tende a se agravar com a variante Delta.

O Sepe Lagos alerta a toda população que o “teatro da higiene” instalado nas escolas, com álcool em gel e máscaras de pano, não constitui medida suficiente para uma eficaz prevenção de contágios. As crianças, os jovens, os trabalhadores da educação e seus familiares estão correndo grave risco. A demagogia dos governos para que as famílias enviem suas crianças às escolas, não muda a realidade de que não há condições adequadas de segurança.