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Coluna

Ilhas de Calor

10 janeiro 2020 - 19h28

A urbanização é um processo radical de alteração da paisagem natural. Os estudiosos chamam esta transformação de “efeito antrópico”, ou seja, quando as modificações introduzidas pelo Homem são de tal magnitude, que elas mudam completamente a paisagem natural. Pode-se dizer que a atividade econômica e social, quando combinadas são uma força análoga à força da Natureza. Elementos como o clima, o curso dos rios, a fertilidade dos solos, entre outros são profundamente modificados por esta ação antrópica provocada pela urbanização. 
A modificação ou mesmo a criação de um microclima urbano é um dos efeitos mais sensíveis desta ação antrópica. costuma-se dizer que várias cidades, na medida em que se expandem transformam-se em “ilhas de calor”, decorrente da perda de cobertura vegetal. As grandes  cidades acabam por criar estes microclimas, resultantes diretamente de fatores demográficos, como o aumento da população, o crescimento dos fluxos de transporte e a atividade industrial.
Por várias vezes, ouvi de moradores do Rio de Janeiro queixarem-se de que “no passado não era assim”, que a temperatura durante o Verão era mais suportável, que o Inverno era mais frio e que as chuvas não produziam tantos estragos. Será mesmo?
Foi tentando responder à esta pergunta que vários geógrafos no Brasil dos anos 70,  interessaram-se em estudar as modificações no clima geradas pela urbanização. 
As “Ilhas de Calor” de nossas grandes cidades são a representação mais acabada da interação entre a Sociedade e o Meio Ambiente. Em uma época em que se tornou comum “refutar” o Aquecimento Global, não custa lembrar que aqui no Brasil, há quase meio século atrás, pesquisadores já tinham construído uma sólida teoria baseada em evidências mostrando que, sim, a ação humana pode realmente provocar alterações no Clima, e elas muitas vezes não boas para nós. 
Ou seja, a teoria que criou as “Ilhas de Calor” pode ser considerada como uma das primeiras formulações cujo objetivo era mostrar que a alteração climática poderia ser resultado da ação humana.
O que seriam estas “Ilhas de Calor”? Grosso modo, são microclimas urbanos caracterizados pelo aumento da temperatura e pela sensação térmica de calor ocasionada. Os principais fatores para o surgimento destas ilhas são as obras de pavimentação e calçamento que isolam a terra, tornando o piso mais suscetível de absorver calor, principalmente com o calçamento de asfalto. Ao mesmo tempo, o crescimento de áreas urbanas com cores escuras aumenta a absorção da radiação solar, elevando assim a temperatura.
 Se fossemos descrever as cidades como organismos, poderíamos dizer que elas mais se assemelham à colmeias, ou cupinzeiros, com a diferença de que elas, as cidades drenam uma quantidade gigantesca de energia do entorno natural, mas não devolve essa energia, pelo menos na mesma proporção.
A previsão que os maiores centros urbanos do futuro próximo estarão na América Latina, onde o processo de urbanização forçosamente espelha uma trágica realidade sócio econômica, aumenta a importância do problema para nós. Ao mesmo tempo, os teóricos sociais não incluíram o clima como uma variável importante na qualidade de vida da população urbana brasileira.

(*) Paulo Roberto Araújo é professor de História.