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Coluna

Amor, Sexo e Desigualdade

20 dezembro 2019 - 15h17

O programa “Amor e Sexo”, transmitido pela Rede Globo não me atrai nenhum pouco. Para dizer a verdade, acho pouco criativa a tentativa de misturar programa de auditório, com “Talk Show”. Os temas são chatos e repetitivos, mas enfim, tem quem goste.
No entanto, em uma das edições do programa, chamou-me atenção que o tema que estava em debate era nada mais, nada menos do que “Desigualdade”. Sim, ela mesma, a Desigualdade, tema mais comuns entre Economistas e Políticos.
Os participantes, simulando um interesse e certa profundidade ensaiaram algumas explicações para compreender como e por quê nossa desigualdade é tão perene, resistindo à inúmeros governos e políticas públicas criadas exatamente para acabarem com ela, a Desigualdade.
Um argumento muito interessante foi esse: “é preciso que a Classe Média no Brasil se de conta de que ela, enquanto classe está mais próxima da classe trabalhadora, do que dos ricos”. Entusiasmada com a própria eloquência, a moça arrematou: “é preciso que a renda seja distribuída de modo equitativo, mas para isso, é preciso que os ricos sejam taxados”.
Comecei a me interessar pela conversa, primeiro pelo inusitado do lugar. De repente, em meio a temas como “homofobia”, “masturbação”, entre outros, a taxação dos ricos do Brasil entrou na roda de conversa. Ali percebi, como aquele argumento, mais do que qualquer outro mostra de maneira muito clara como as classes sociais pensam a desigualdade no Brasil. Quer dizer, não tem lugar melhor para essas verdades aparecerem do que na cama.
Basicamente, o argumento pode ser resumido da seguinte maneira: se os ricos devem taxados para diminuir a desigualdade, onde estão afinal, estes ‘ricos”? Bem, se perguntarmos a uma pessoa que está faixa salarial de 50,000 Reais mensais, esta vai admitir que em verdade, seu salário está acima da média nacional, mas que afinal, ela não se considera “rica o suficiente para aceitar arcar com o ônus da desigualdade”.
Outra pessoa que ganha 40,000 reais mensais, também vai argumentar da mesma forma que o que ganhava 50,000 mensais. O mesmo argumento será repetido para faixas salariais mais baixas como 30,000 reais, 20,000, 10,000, e assim por diante.
Nesse “jogo de empurra”, onde ninguém no brasil se considera “rico”, a pergunta que não quer calar é: onde estão afinal, os ricos?
A resposta parece meio óbvia: longe demais para serem alcançados por qualquer malha fina fiscal. Quer dizer, o argumento da moça no programa, embora aparentemente “justo”, não é mais do que uma forma elegante de safar-se da real necessidade de pensarmos a desigualdade e transferirmos para outrem essa responsabilidade.
Esse padrão de comportamento não é novo na sociedade brasileira. De fato, em diversas ocasiões, a opinião pública reconheceu que problemas muito graves deveriam ser enfrentados, mas na hora de cada um assumir a parte que lhe cabe, a responsabilidade sempre acaba sendo transferida para terceiros.
O mesmo pode ser dito sobre a Violência. Todos reconhecem a gravidade do problema, mas como temos visto, o ônus sempre acaba sendo transferido para terceiros. A Educação é outro exemplo, assim como muitos outros.
Mas nem tudo está perdido: se a desigualdade já é assunto a ser disputado entre outras pautas, como o sexo, é porque ele adentrou no mais sacrossanto dos espaços sociais, a vida privada. Já é alguma coisa.
(*) Paulo Roberto Araújo é professor de História.