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Coluna

A Mensagem Oculta de “Cosmos”, de Carl Sagan

04 dezembro 2019 - 20h30

No fim da década de 70, início dos anos 80, o programa “Cosmos”, do astrônomo americano Carl Sagan tornou-se famoso em todo o mundo, inclusive no Brasil. Com trilha sonora do grego Vangelis, “Cosmos” era uma série baseada no livro de mesmo nome de Carl Sagan. Provavelmente o programa tenha sido a série de divulgação científica mais conhecida do mundo, a ponto de receber uma nova edição, apresentada pelo também astrônomo Neil de Grasse Tyson.

Carl Sagan pensou em criar uma série que mostrasse ao cidadão comum que a Ciência poderia ser compreendida, sem que para isso fosse necessário ter uma formação “científica”. Ou seja, a ideia por detrás da série, tanto nos anos 70, quanto atualmente é apresentar a Ciência como um produto da Cultura Humana, e não apenas o trabalho especializado de cientistas.

Essa proposta tem um argumento que serve de base, e que merece ser analisada com mais detalhes, e este será o objetivo desta coluna.
Basicamente, a formação de um cientista é um investimento caro em qualquer sociedade, seja ela rica ou pobre. Investir na formação de um cientista, assim como apoiar a sua pesquisa, não custa apenas dinheiro. Exige também a criação de uma mentalidade que compreenda que o trabalho do cientista, embora importante, nem sempre terá um impacto social imediato.

Ou seja, nem sempre uma pesquisa científica será financiada apenas visando aplicações práticas imediatas. Isso quer dizer que investir em Ciência, significa, ao mesmo tempo, financiar um projeto de mapeamento genético que pode combater o Câncer em pouco mais de 5 anos, e também conceder uma bolsa de pesquisa para um Arqueólogo, que está escavando as profundezas de um sítio arqueológico em pleno Centro do Rio de Janeiro, onde se localizava o antigo porto de desembarque de escravos. Ambas as pesquisas têm a sua importância, sem dúvida.

Mas prestemos atenção no seguinte: a cada ano, ingressam em nossas universidades milhares de jovens que de uma maneira, ou de outra, se tornarão pesquisadores e cientistas mais tarde. A formação destes jovens inclui, em primeiro lugar treiná-los nos métodos de pesquisa científica, assim como torná-los familiarizados com conceitos científicos, e é exatamente aí que as coisas começam a se complicar.
Por exemplo, a formação de um engenheiro exige que este tenha um conhecimento de Cálculo, que na maioria das vezes não existe em sua formação anterior, no Ensino Médio. O resultado é que todos os anos, é enorme a quantidade de alunos de graduação reprovados, assim como é grande a evasão dos cursos, seja em instituições privadas ou públicas.

A inexistência de uma familiaridade anterior, com a Ciência tanto nas escolas, quanto fora delas, acaba fazendo com que a longo prazo, os custos de formação de um cientista em nossa sociedade, sejam ainda maiores. Explicando ainda mais, a inexistência de uma “cultura científica”, que desde a infância familiarize estas pessoas com os conceitos da Ciência faz com que mais tarde, ao ingressarem nas universidades, a aprendizagem destes conceitos seja muito mais complicada, e infelizmente deficiente.

Ou seja, analisando em perspectiva de 40 anos, a ideia de Carl Sagan, por trás de sua série “Cosmos”, assume o seu pleno sentido. Desenvolver uma “cultura de valorização científica”, ou seja disseminando esses valores na sociedade é a melhor maneira de aumentar a eficiência do treinamento profissional que estes pesquisadores terão nas universidades.

Trata-se de uma forma de “diluir”, ou de socializar” os custos da educação profissional: um jovem que já possui um “gosto” pela Ciência, cultivado desde a infância, no ambiente familiar e com seus amigos aprenderá muito mais rápido os conceitos científicos em uma universidade, do que outro que nunca viu estes mesmos conceitos, e que por isso conta apenas com a universidade para incutir “esse gosto”.

Só por isso, vale a pena ver de novo a série “Cosmos” de Sagan.