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Coluna

O Brasil elegeu um louco presidente

21 abril 2020 - 11h28

“O Brasil é mesmo um país muito estranho. Até um louco chega a Presidente...” Calma, quero tranquilizar os defensores do presidente Bolsonaro, sempre tão avessos às críticas ao chefe. A frase não é minha, é de Rui Barbosa e se refere a outro presidente, Delfim Moreira, louco de carteirinha, que chegou ao poder após a morte do presidente Rodrigues Alves, vítima da Gripe Espanhola. 

O Brasil sempre flertou com a loucura. Delfim Moreira não foi o primeiro louco a chegar ao poder, embora tenha sido o primeiro a conquistar o poder pelo voto. A história mostra que, antes dele, ainda no Império, fomos governados por uma Rainha “Louca”: D. Maria I, Rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Maria Francisca Isabel Josefa Antônia Gertrudes Rita Joana de Bragança era a primeira filha de D. José de Bragança, então Príncipe do Brasil, e sua esposa Mariana Vitória de Bourbon, Infanta de Espanha.

D. Maria viveu no Brasil por oito anos, sempre em estado infeliz, obcecada com os castigos que o pai estaria sofrendo no inferno, por ter permitido a Pombal perseguir os jesuítas. Ela morreu no Convento do Carmo, no Rio, em 1816, aos 81 anos de idade. Após as cerimônias fúnebres, seu corpo foi sepultado no Convento da Ajuda, também no Rio.  
Quando Delfim Moreira desembarcou no Rio  para assumir o governo, testemunhas afirmam que ele parecia “mais morto que vivo” e o tempo mostrou que o Presidente estava “com debilidade gritante”, a ponto de o general Dantas Barreto afirmar ser “tão notória a incapacidade mental de Delfim, que não a ocultavam nem mesmo os que tinham de fazê-lo por conveniência política”.

Não se sabe ao certo qual era a doença do presidente mas especialistas presumem que o quadro de senilidade precoce foi motivado por arteriosclerose prematura ou sífilis terciária. O presidente segundo historiadores, assinava documentos sem ler, ficava espiando políticos e autoridades nacionais e estrangeiras por trás das portas do Palácio do Catete e debochava dos seus assessores durante as reuniões ministeriais.

Reza a lenda que Rui Barbosa e um jornalista foram visitar o presidente certo dia e ficaram aguardando por mais de uma hora. A porta do gabinete foi, várias vezes, levemente aberta e fechada e o Presidente ficou a espiá-los, sem a eles se dirigir. Entristecido, Rui teria declarado: “O Brasil é mesmo um país muito estranho. Até um louco chega a Presidente e eu, são e no gozo de minhas faculdades mentais, não posso”.  

Arthur Bernardes, o presidente que governou o país de 1922 a 1926, embora não tivesse o diagnóstico da loucura tinha no autoritarismo a forma de governar. Considerado um dos políticos mais detestados da nossa história, ele criou um campo de concentração no Amapá, chamado “Inferno Verde”, para onde mandava as pessoas que faziam oposição ao governo dele.  Em quatro anos dos 946 presos lá internados 491 morreram, principalmente por doenças. Os prisioneiros políticos eram oriundos principalmente do Rio e São Paulo, militantes do movimento anarco-sindicalista que caracterizou as lutas sociais nas primeiras décadas do século XX e foram presos no bojo da repressão ao movimento tenentista. 

O Brasil precisa vencer as ameaças dos loucos e dos autoritários, quer estejam nas ruas ou nos palácios porque um país e uma nação só podem ser construídos sob o alicerce da lucidez, na normalidade e, principalmente das liberdades e garantias individuais do cidadão. Quem defende a volta da ditadura e a instalação de um Estado de exceção não merece nada além de uma camisa de força.