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Coluna

Lagosta nada ou anda?

16 junho 2020 - 13h01

A irrelevância dos assuntos que dominam o debate no Brasil tem, não apenas, nos atirado no radicalismo e na polarização política mas, também, nos transformado em párias e nos isolado do restante do mundo. O país do futuro, o celeiro do mundo, vem perdendo credibilidade e, consequentemente, afastando investimentos. Estamos deixando de lado o desenvolvimento e abrindo mão da liberdade e da lei como nosso bem maior e optando pela defesa absurda de ideias antidemocráticas, de teorias conspiratórias, sem falar do negacionismo em relação a gravidade da pandemia do novo coronavírus que que só faz aumentar, a cada dia, o número de famílias enlutadas.

O Brasil, sem sombra de dúvida, é o melhor país do mundo para investimento. Tem uma base de energia limpa maravilhosa. Tem riquezas minerais gigantescas. Tem tudo para ser realmente ser o celeiro do mundo, além disso tem boa ciência e boa cultura. Mas nos falta tranquilidade. Nos EUA você pode eleger dez Donald Trump sem perigo de retrocesso, porque a Lei é o bem maior do povo americano. Aqui, a Lei é um joguete na mão de poderosos.
 Uma hora se interpreta a execução de pena em segundo grau, na outra, a interpretação muda para atender interesses de um Congresso cheio de parlamentares investigados por corrupção.

“O Brasil não é um país sério”. A frase, atribuída erroneamente ao General francês Charles De Gaulle, mas de autoria do diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza Filho, embaixador do Brasil na França, entre 1956 e 1964, ilustra bem  os equívocos que tem marcado a história do Brasil e contribuído para a perda da credibilidade do País diante do mundo.

O episódio contado por Carlos Alves no livro “Um embaixador em tempos de crise” teve origem na Guerra da Lagosta, conflito em que - tal qual a famosa Batalha de Itararé, não se disparou um tiro nem  uma gota de sangue –  e girava em torno da captura de lagostas por parte de embarcações de pesca francesas, em águas territoriais brasileiras.

Alertado por pescadores brasileiros, o então presidente João Goulart que, após reunir o Conselho de Segurança Nacional, mandou para a área um contingente da Esquadra Nacional, apoiado pela Força Aérea Brasileira.

De Gaulle, por sua vez, convocou o embaixador brasileiro para uma conversa no Palácio do Eliseu, sede do governo francês e o episódio serviu para a imprensa francesa lançar o debate: lagosta anda ou nada? Caso nadasse poderia considerar que estava em águas internacionais; caso andasse, estaria em território brasileiro, uma vez que se admitia à época que o fundo do mar pertencia ao Brasil.

No debate diplomático, a tese francesa, naturalmente, sustentava que a lagosta nadava. Sem contato com o leito oceânico, poderia ser considerada como peixe. Portanto passível de ser pescada legalmente pelos franceses. O almirante Paulo Moreira da Silva, especialista da Marinha, que empresta o nome ao Instituto de Estudos da Marinha de Arraial do Cabo, foi quem  contrapôs os franceses com um argumento simples: Se a lagosta fosse considerada peixe quando dá seus “pulos” se afastando do fundo do mar, então teria, da mesma maneira, que ser acatada a premissa do canguru ser considerado ave, quando dá seus “saltos”.

A frase surgiu quando o embaixador foi questionado por um jornalista do Jornal do Brasil sobre o encontro com De Gaulle e sobre o quadro geral da crise. Alves de Souza Filho sempre achou o governo brasileiro inábil no trato da questão  diplomática, chegou a  citar durante a conversa informal o “Samba da Lagosta”, de Moreira da Silva, e arrematou a conversa  com a famosa frase.

Investimentos, geração de emprego e desenvolvimento dependem de credibilidade. Ninguém coloca dinheiro ou concede crédito a mau pagador, a não ser que tenha outros interesses. Ninguém investe num país onde as instituições democráticas são alvo de um movimento orquestrado de dentro do Palácio do Planalto. O mesmo ocorre nos municípios, a base do país.  Nenhum empresário sério vai investir numa cidade onde as principais lideranças políticas, vez por outra, são acordadas pela Polícia Federal. Não tem credibilidade um governo que não consegue pagar os salários dos servidores nem tapar os buracos da cidade. Que é incapaz de dar as contas públicas a transparência que a Lei exige só resta debater se lagosta nada ou anda.