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Coluna

Futuro, pandemia e dor de barriga

05 maio 2020 - 11h54

A saúde e a redução das desigualdades sociais, assim como a geração de emprego e renda, serão os principais temas da campanha eleitoral quando a pandemia passar e o nosso olhar se voltar para o futuro. Estaremos todos, não tenham dúvidas, ainda sob o choque do número de mortos pelo novo coronavírus e traumatizados por um sistema de saúde que transforma o socorro ao cidadão numa loteria ao lançar um protocolo de pontos para decidir quem vive e quem morre diante da demanda e da incapacidade de atender a todos os cidadãos num momento de urgência como o que estamos vivendo.

O sucateamento da saúde pública já se revelava em tempos de normalidade incapaz de atender as necessidades básicas do brasileiros. Uma consulta ambulatorial leva meses para ser marcada. Um exame de sangue completo nem se fala. Tomografia computadorizada e outros exames de alta complexidade não estão ao alcance da população que precisa não só madrugar em filas intermináveis, como também, enfrentar a máfia das fichas em busca de atendimento. O sistema tem se mostrado incompetente até para gerir uma vacinação contra a gripe. Não são poucos os idosos que ainda não foram vacinados, nem os que ainda esperam, pacientemente,  nos diversos municípios da região uma equipe de saúde bater a porta para ser imunizado em casa.

Não tenham dúvidas que a culpa do caos que os municípios vivem hoje e que deve piorar com o avanço no número de casos do novo coronavírus é de prefeitos, vereadores e da ingerência política na saúde que tem servido de baganha nas campanhas eleitorais. Os efeitos colaterais desse troca-troca de favores, infelizmente, serão trágicos. 

Todo mundo viu a enfermeira Marilene Vianna, moradora de São Pedro da Aldeia, concursada na prefeitura de Cabo Frio,  lotada no São José Operário fazer, através das redes sociais, um desabafo e mostrar  que os profissionais da saúde da unidade trabalham com uma máscara caseira feita de TNT em plena pandemia de coronavírus.

Marilene está na linha de frente da defesa dos profissionais da saúde não é de hoje. Digo isso para que não vejam a denúncia dela como um ato político. Não foi. Em 2015 ela denunciou o uso de saco de lixo por profissionais da saúde do pronto-socorro do município de São Pedro da Aldeia, no lugar de EPIS como capote e avental impermeável para a lavagem de materiais e instrumentais contaminados. A falta dos equipamentos de uso obrigatório coloca em risco não apenas a vida dos servidores mas também dos pacientes.

A Saúde pública precisa de investimentos maciços, assim como, após a pandemia, vamos precisar investir nas pessoas, protegê-las, principalmente as mais vulneráveis. São homens, mulheres, crianças, jovens e idosos, uma massa de cidadãos que estavam jogados no subemprego por uma política econômica perversa, que instituiu no Brasil o salve-se quem puder, mas que precisam ser resgatados e incluídos. Vivemos na região o reflexo do Brasil: opulência e miséria. O emprego não pode ser um prêmio para o grupo que está no poder. É um bem de todos.

Cabo Frio não tem máscaras para os profissionais de Saúde que estão na linha de frente do combate ao COVID-19, nem luvas, nem os demais equipamentos de proteção individual,  mas por ironia do destino, o estoque de papel higiênico no almoxarifado da saúde  colocaria a cidade como referência  caso estivéssemos  enfrentando um surto de diarreia. Embora a gente saiba que dor de barriga não dá uma vez só, não é esse o problema que precisamos vencer com urgência.