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Coluna

Big Brother proibido para menores

26 maio 2020 - 20h12

A divulgação do vídeo da reunião ministerial, na sexta-feira, ganhou todas as telas no momento em que Ministro do STF, Celso de Mello, suspendeu o sigilo da gravação, apontada pelo ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, como prova da interferência política do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal.  O vídeo, entretanto, revelou muito mais a um país estarrecido diante da TV: revelou um governo que opera nas sombras e trama contra as instituições democráticas e os adversários ao mesmo tempo em que ignora leis para colocar em prática projetos, cujo viés ideológico, beira o absurdo.

Os impropérios, os palavrões, as ameaças e os xingamentos contra prefeitos, governadores, imprensa e até Ministros do Supremo Tribunal Federal, comprovam, apenas que o governo é o gabinete do ódio e é incapaz de aceitar  o contraditório, muito menos o diálogo, base da democracia. Os ataques as instituições democráticas, mais do que a tentativa de interferência na PF - que fica clara na gravação da reunião -  fazem do vídeo uma espécie de Big Brother proibido para menores.

As declarações dos ministros do Meio Ambiente Ricardo Salles e da Educação Abraham Weintraub e da Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, a pastora evangélica Damares Regina Alves revelam um governo dominado por bravatas e arroubos autoritários.Salles propõe um esforço conjunto para passar a “boiada”, nesse momento em que a cobertura de imprensa só fala de COVID, e  simplificar, de “baciada”, não só as normas ambientais mas também do IPHAN, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. 

Damares vê nas ações de isolamento social determinadas por prefeitos e governadores  para combater a disseminação do novo coronavírus a maior violação de direitos humanos da história do Brasil nos últimos trinta anos e promete quando a  pandemia  passar “pegar pesado” e pedir a prisão de governadores e prefeitos.

Weintraub que revela na reunião odiar Brasília -  “um  cancro de corrupção e de privilégio” - chama de “vagabundos” os Ministros do STF e diz que, por ele, colocava todos na cadeia. O Ministro também, diz odiar o Partido Comunista Chinês a quem acusa de querer transformar o Brasil numa colônia. A xenofobia se estende aos “povos indígenas” e ao “povo cigano”.

O que preocupa no show de horrores que assistimos é o Presidente da República revelar que tem um sistema de informações particular que, ao contrário dos oficiais, funciona e não desinforma. Bolsonaro vai além ao avisar aos ministros da Justiça e da Defesa, que pretende armar o povo para garantir a democracia.  “Eu quero dar um puta de um recado pra esses bosta! Por que que eu tô armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura! E não dá pra segurar mais! Não é? Não dá pra segurar mais”, disse o presidente.  

A prática de armar a população é comum nos regimes ditatoriais. Em  agosto de 1937  Benito Mussolini disse, num comício que reuniu 100 mil pessoas, em Catânia, na Sicília: “só um povo armado é forte e livre”.   Em 2006, Hugo Chávez, ex-presidente da Venezuela, falou ao povo, depois de comprar milhares de fuzis russos: “A Venezuela precisa ter 1 milhão de homens e mulheres bem equipados e bem armados.  Os gringos querem nos desarmar. Temos de defender nossa pátria”.  Benito Mussolini, Hugo Chavez e Jair Bolsonaro, em seus discursos, têm muito mais em comum do que imaginávamos.