​Por um turismo cultural: conservar o quê, por quê e para quem?

Publicado em 07/10/2017 às 12:29

POR IVO BARRETO

Desde pelo menos meados da década de 1970, o conceito de “Patrimônio Histórico e Artístico” vem se flexibilizando nas trincheiras da política de preservação, por influência da antropologia e outros estudos do período. Antes disso, por décadas foram reconhecidos como “patrimônio” testemunhos da história dita oficial, supostamente compartilhada por todos. Entretanto, como hoje sabemos, escolhas estas com a marca de seu tempo, e, via e regra, ligada à história dos “vencedores”. Multiplicaram-se, neste tempo, as fortificações e igrejas dentre os bens tombados pelo “Patrimônio”.

A justa reivindicação de que outras histórias precisam ser contadas, de camadas apartadas destes relatos oficiais, deslocou, enfim, o conceito do “Histórico e Artístico”, substituindo-o pela ideia de “Patrimônio Cultural”. Admitiu-se, com isso, que também o fazer cultural do povo direcionasse a conduta de interpretação de nossas heranças, convocando o patrimônio a se relacionar com nossas vivências mais cotidianas, com a diversidade cultural que nos faz sociedade. Surgem, então, tombamentos mais contemporâneos, a exemplo da Casa da Flor, em São Pedro da Aldeia, que declama um relato de resistência e resiliência: construída dos descartes da história, ajuda a contar, numa linguagem artística indescritível e poeticamente tocante, pelo que passaram negros e pobres da região, a partir da abolição.

Bom, você deve estar se questionando, o que fazemos então com as fortificações e igrejas, teriam elas perdido sua importância? Obviamente não. As cidades, como organismos vivos, estão em eterna transformação e as heranças estão aí, diversas, prontas à nossa leitura. Mas nos perguntemos: tal qual se apresentam, que história estes bens ajudam a contar ainda hoje, senão a mesma e parcial retórica dos vitoriosos?

Não só de Menalaus e Vespúcios vive nossa história. É preciso buscar o que há de mais humano nas memórias de nossos acervos patrimoniais, recuperar os laços que provocam o diálogo com os sujeitos de hoje e suas questões de vida. Questioná-los por respostas. “Quantas mãos indígenas do aldeamento que aqui existia empilharam as pedras do Forte? Quem eram eles?”. Como ouvi certa vez do africanólogo Alberto da Costa e Silva, sobre palavras do escritor nigeriano Chinua Achebe, “a história não é boa nem má; a história é, e nós somos esta história com seus momentos luminosos e demorados e terríveis pesadelos”. É preciso adentrar este tipo questionamento na busca pelo sinal de humanidade destes acervos.

Conservar estes patrimônios na contemporaneidade – e por consequência, desejar um turismo cultural que seja construtor de reflexões sobre nossa condição humana – não se resume, portanto, a restaurar a matéria. Para além de algumas demãos de cal em paredes antigas, há que se conservar estes laços afetivos efetivos, só que para acessá-los é preciso educar. Mas não falo aqui de “ensinar”, falo de “educar”, ação que como quer Paulo Freire, exige um caminho de mão dupla, dialógico: falar e, sobretudo, escutar e aprender com o outro. E convenhamos, amigo leitor, assistimos pouco, ou nenhum, esforço dos gestores em implantar uma rotina institucional de escuta.

Se na política ou na gestão já não há lugar para monólogos, é preciso exigir diálogo também da conservação de nossa memória.

*Ivo Barreto é arquiteto, especialista em Patrimônio Cultural e mestrando em Projeto e Patrimônio.

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