‘Se tivessem tratado no começo, ela estaria aqui’

Irmã da menina Gabrielle, que morreu com meningite, fala sobre a suspeita de negligência em Cabo Frio

Publicado em 15/03/2019 às 09:35

TOMAS BÁGGIO

 

A família ainda não aceita ter que sentir a maior dor que pode existir. A perda de Gabrielle Biral Valadão dos Santos, de 12 anos, que morreu no dia 4 de março, é ainda pior por estar cercada de suspeitas. A irmã de Gabrielle, Giselle Biral, conversou ontem com a reportagem da Folha e deu detalhes dos últimos dias de vida da menina que adorava animais e queria ser veterinária para “tirar eles da rua”, como gostava de dizer. 

Não saem da cabeça de Giselle as cenas dos médicos do Hospital da Mulher, em Cabo Frio, dizendo que a menina tinha “só uma enxaqueca”. Para a família, este foi o grande erro. Afinal, quando chegou ao Hospital da Lagoa, no Rio, já com morte cerebral, a reação foi bem diferente. Segundo Giselle, os médicos bateram os olhos nos mesmos exames feitos em Cabo Frio e deram outro diagnóstico, totalmente diferente: meningite viral (doença que não é contagiosa, ao contrário da meningite bacteriana).  

– Tudo que aconteceu foi um grande absurdo. Se tivessem tratado a meningite desde o começo ela estaria aqui com a gente. Foi uma negligência muito grande – afirma Giselle.

Gabrielle Biral começou a sentir dores de cabeça no dia 13 de fevereiro. Como a família mora no bairro São João, em São Pedro da Aldeia, a menina foi levada para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de São Pedro. Recebeu atendimento e foi liberada, mas as dores continuaram. Voltou no dia 16 à mesma unidade. Os médicos falaram em sinusite. O quadro de saúde oscilou, mas a menina voltou a sentir dores e começou a vomitar. A família, então, decidiu fazer consulta com um médico particular no dia 26.

– Logo de cara o médico suspeitou de meningite ou lesão cerebral. Ficamos desesperados. Ele nos orientou a levá-la para a UPA de Cabo Frio para fazer a tomografia e dar início imediato ao tratamento. Na UPA eles fizeram os exames e começaram a tratar para meningite, mas quando os exames chegaram eles disseram que não era meningite e mudaram o tratamento. Ela ficou internada e foi transferida para o Hospital da Mulher, mas a todo momento nos diziam que os exames não davam a causa do que ela tinha – conta Giselle.

Após um dia internada na ala infantil do Hospital da Mulher a família recebeu uma ligação. A menina havia piorado e teve convulsões. Quando a família chegou, ouviu da equipe médica que Gabrielle precisava ser transferida com urgência para uma unidade com mais estrutura. Era por volta de 15h45, de acordo com Giselle, quando funcionários do hospital avisaram à família que a ambulância tinha sido chamada para realizar a transferência para o Hospital da Lagoa, no Rio.

– A ambulância demorou muito a chegar. Quando anoiteceu, decidimos contratar uma ambulância particular por R$ 3 mil. A ambulância chegou por volta das 21h, ao mesmo tempo que a ambulância da Prefeitura. Os funcionários indicaram que ela fosse na ambulância da rede pública. Disseram que se chegasse uma paciente do SUS em uma ambulância particular não iriam receber. Mas, quando ela chegou, foi diagnosticada a morte cerebral. Na mesma hora os médicos viram os exames e disseram que era meningite – relata a irmã de Gabrielle.

A notícia de que a família Biral, composta por mãe, pai e três filhas, havia perdido a caçula, causou imensa revolta. Giselle, que é a filha do meio, tem 19 anos, e é professora da rede municipal de São Pedro, afirma que vai buscar Justiça “para evitar que o mesmo aconteça com outras crianças”.

– Queremos Justiça. Acredito que nos trataram dessa forma pensando que iríamos nos calar. A gente só queria a vida dela, mais nada, mas infelizmente isso não vai ser possível, não tem volta, então a gente quer Justiça para evitar que o mesmo aconteça com outras crianças – declarou Giselle Biral.

Foi tratada para meningite”, diz prefeito 

 Em meio a uma série de denúncias a respeito de atendimentos na Saúde, o prefeito Adriano Moreno falou ontem com a reportagem da Folha (a entrevista completa será publicada na edição de amanhã). Ele reconheceu problemas, mas bateu na tecla de que existe alarde com interesse político em relação às falhas no Hospital da Mulher. 

Sobre o caso da menina Gabrielle, o prefeito disse lamentar profundamente, classificou como “tristeza” e “fatalidade” e garantiu que ela recebeu o tratamento para meningite.

– Isso foi uma tristeza enorme, uma grande fatalidade. A menina ficou doente no começo de fevereiro e foi em vários médicos sem ter nenhum resultado. Quando chegou na UPA de Cabo Frio, ela foi atendida por neurologista, fez todos os exames e foi internada. Mas infelizmente piorou muito rápido. Ela foi tratada tanto para meningite bacteriana como também para a meningite viral – garantiu Adriano Moreno.

O prefeito comparou a situação à morte do neto do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, Arthur Araújo Lula da Silva, de 7 anos, no dia 1º de março, pela mesma doença, para frisar a gravidade deste tipo de quadro clínico.

– O neto do Lula estava em um hospital excelente e não conseguiram salvá-lo, porque é uma doença muito perigosa. O que eu acho muito triste é quererem pegar a dor, o sofrimento da família, para fazer politicagem. É muito importante dizer que a meningite viral, que foi a que ela teve, não é contagiosa. Não se pode criar um caos na cidade – disse ainda o prefeito.

Além da entrevista do prefeito Adriano, a Prefeitura também enviou uma nota oficial. Na nota, reitera que a paciente recebeu medicação adequada e diz que a transferência para o Rio foi feita em tempo adequado. Veja a nota:

“A Prefeitura de Cabo Frio informa que assim que foi constatada a meningite viral a paciente recebeu a medicação necessária para combater a doença e foi solicitada a remoção da mesma para o Hospital da Lagoa. A vaga só foi liberada por volta das 17h, a ambulância foi solicitada imediatamente e a transferência aconteceu por volta das 23h. O transporte foi feito em ambulância equipada, com equipamentos de UTI, e a paciente foi acompanhada por um médico, dois enfermeiros e a mãe.  Cabe ressaltar que o transporte de hospital público para hospital público não pode ser feito com ambulância particular”.

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