Relatora da CPI do Hospital da Mulher na Alerj faz críticas à gestão da Saúde

‘Saída do diretor parece ter sido cortina de fumaça’ 

Publicado em 22/06/2019 às 09:47

RODRIGO BRANCO

 

Uma das três deputadas que compõem a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa (Alerj) que investiga as mortes de bebês no Hospital da Mulher de Cabo Frio, a relatora Enfermeira Rejane (PC do B) não tem medido palavras contundentes durante as oitivas e audiências realizadas. Em uma delas, o secretário de Saúde Márcio Mureb foi duramente sabatinado e repreendido pela falta de documentos apresentados na ocasião.

Na última segunda-feira, quando foi realizada uma reunião aberta na sede da OAB de Cabo Frio, no Braga, não foi diferente. A parlamentar, que já foi presidente do Conselho Regional de Enfermagem (Coren), não economizou nas críticas sobre a ausência do próprio Mureb e também do prefeito Adriano Moreno (Rede) à audiência pública. Próxima de fechar o relatório, apesar do pedido de prorrogação da CPI por 60 dias, Rejane conversou com a reportagem sobre os últimos movimentos da comissão, falou sobre os problemas da saúde na cidade e admitiu que o prefeito pode ser chamado a depor na CPI. A deputada disse que será proposta a criação de uma comissão gestora para administrar a unidade.

À Folha, a relatora criticou a relação do governo municipal com a rede privada; o excesso de contratos na saúde cabofriense; a falta de realização de concurso; e disse ter visto uma tentativa da prefeitura de atrapalhar os trabalhos da CPI ao exonerar os antigos diretores da unidade Paul Herbert Dreyer Neto e Lívia Natividade.

– Parece que quiseram jogar para debaixo do tapete essa irresponsabilidade que ocorreu no hospital. Quero deixar um recado que nós vamos levantar essa questão e que aqueles que estavam ali serão responsabilizados sim – disparou.

Folha dos Lagos – Além desta audiência, os documentos e depoimentos obtidos até agora permitem fazer que análise sobre o Hospital da Mulher?

Enfermeira Rejane – Na realidade, é um problema que não é só do Hospital da Mulher. Não é um problema de agora, é um problema crônico que perpassava pela questão do financiamento, dos recursos humanos de gestão. Nós não podemos mais ter essa promiscuidade de médicos  e políticos contratualizarem com a rede privada, em detrimento da rede pública. Isso é muito ruim. E isso em Cabo Frio é exacerbado. A gente sabe o acontece por trás dos panos. A outra questão é a do recursos humanos. Enquanto a gente tiver um ‘rodízio’, podemos chamar assim, de médicos, funcionários e profissionais de Enfermagem sob um regime de trabalho que é o contrato, a gente não vai a frente. A gente precisa ter um funcionário público concursado para que ele se dedique à unidade de Saúde e não viva à mercê dos políticos e dos gestores que estão no momento. É preciso que haja vínculo independente da gestão. Essas coisas precisam ser sanadas imediatamente. A saúde precisa ser tratada de forma responsável e não dessa forma que a gente está vendo. Isso só leva à morte de crianças e de mães e da população em geral, porque isso não acontece só no Hospital da Mulher.

Folha – Durante a audiência, a senhora criticou duramente a ausência do prefeito e do secretário de Saúde. De que forma eles poderiam contribuir para o debate, na sua opinião?

Enfermeira Rejane – Aqui não veio um gestor e isso é muito ruim. É um descaso com o parlamento, com a população e a gente não entende como os gestores, Executivo e Legislativo, não possam tratar da Saúde do seu povo. (Nota da Redação: As assessorias de Prefeitura de Cabo Frio e da Câmara Municipal emitiram uma nota dizendo não terem sido convidadas oficialmente para a audiência na OAB). A gente está aqui para debater. Essa CPI tem a responsabilidade de debater e encontrar soluções a curto, médio e longo prazos, mas infelizmente os gestores da cidade de Cabo Frio não têm interesse nisso.

Folha – Durante a audiência, a senhora fez várias observações que, de certa forma, antecipam o diagnóstico dos problemas que estará no relatório. Como serão os últimos passos desta CPI?

Enfermeira Rejane – A gente já viu em outras audiências lá no Rio, na Alerj, o que vem acontecendo. A falta de Comissão de Mortalidade Materna, falta de comissão de Ética, e por aí vai. A gente apontou para uma proposta para que exista um conselho para fazer a gestão nesse período crítico, apontando e levantando junto com a gente internamente esses problemas. Queremos solução aqui em Cabo Frio. Não precisamos que morra mais nenhuma criança e nenhuma mãe. Precisamos que haja humanização, mas para que isso aconteça, é preciso humanização com os seus funcio- nários da área da Saúde que estão sem salário, há quatro anos exigindo pagamentos de salários que parecem que foram esquecidos, como se o gestor atual não tivesse responsabilidade do que aconteceu lá atrás. Os trabalhadores não têm que pagar esse pato.

Folha – A senhora chegou a dizer que estranhou a exoneração dos antigos diretores logo no começo da CPI. O que quis dizer com isso?

Enfermeira Rejane – Na realidade, cada gestor tem que se responsabilizar pela sua nomeação, com o que aconteceu naquele momento. Quando a CPI iniciou, imediatamente, o gestor foi afastado. Isso prejudica a CPI. Primeiro, porque passa uma ideia de que o que aconteceu lá a gente não vai conseguir levantar. Parece que quiseram jogar para debaixo do tapete essa irresponsabilidade que ocorreu no hospital.

Folha – A senhora viu dolo nessa iniciativa? Uma tentativa de atrapalhar a investigação?

Enfermeira Rejane – Quero deixar um recado que nós vamos levantar essa questão e que aqueles que estavam ali serão responsabilizados, sim. Para assumir uma gestão tem que ter clareza do bônus e do ônus e, nesse caso, só teve ônus para a população. Vamos levantar quem foram os responsáveis por essas mazelas e quem negligenciou a saúde da população em Cabo Frio.

Folha – O prefeito Adriano Moreno pode ser chamado a prestar esclarecimentos até o fim da CPI?

Enfermeira Rejane – Com certeza. O prefeito não estar na audiência já mostra descaso. Ele tinha que estar aqui, é o gestor máximo. Ele tinha que estar dialogando com a população. Aqui tem pessoas de diversos matizes, do Conselho de Saúde, da OAB, Defensoria Pública, Ministério Público, o Legislativo (estadual) está presente. Por que ele não veio aqui e mostrou a sua preocupação com as mulheres da sua cidade?

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