Incêndio no Museu Nacional: Pedaço da nossa história que também se vai

Milhares de itens referentes à região estavam no acervo que pegou fogo na noite de domingo

Publicado em 04/09/2018 às 08:52

O mundo chorou a catástrofe do incêndio do Museu Nacional, no Rio, na noite deste domingo, mas a dor pela perda de boa parte das peças do maior museu de história natural da América Latina bateu fundo de forma muito mais próxima, a cerca de 180 quilômetros da Quinta da Boa Vista, na Região dos Lagos do Estado. Dentre os 20 milhões de itens que compunham o acervo, estima-se que mais de cinco mil deles ajudassem a narrar a formação geológica de Cabo Frio e das cidades vizinhas.

Entre os achados arqueológicos que estavam no museu, havia milhares de líticos (rochas ou fragmentos delas), ossadas e utensílios dos sambaquis (antigas formações de conchas). De acordo com o ex-secretário de Cultura de Cabo Frio, José Facury Heluy, o material foi prospectado pela arqueóloga Lina Maria Kneip (morta em janeiro de 2002), na década de 1970, no Morro dos Índios, na Praia do Forte.

– Se tivéssemos um museu na cidade este acervo poderia estar a salvo aqui conosco. Ou não... já teria ido antes? – questionou Facury, para quem a falta de manutenção e investimento em um imóvel tão antigo tornava o local um ‘barril de pólvora’.

– Museólogos, antropólogos e cientistas sempre lutaram para impedir o inevitável. Não é acaso, nem acidente o que acontece hoje. Acabar com a UFRJ, com a Capes... Abandonar museus, universidades e centros de pesquisa à sua própria sorte é um projeto de desmonte dos bens públicos. Quando os gestores culturais pedem aos prefeitos e governadores maior zelo aos nossos patrimônios culturais, nos veem como chatos e defensores de algo moribundo – analisa.

O arquiteto e urbanista Ivo Barreto, do Instituto de Patrimônio Histórico e Artísitico Nacional (Iphan), lamentou a perda para a comunidade científica e o fim de uma importante base de pesquisa que ajudava a remontar um passado remoto na região.

– A perda do acervo que tinha ali é também uma perda de referência a todos os pesquisadores que se dedicaram a tentar entender a ocupação e a formação do território aqui na Região dos Lagos. Grande parte dos arqueólogos que pesquisam a região tinham como referência o Museu Nacional, que era muito mais que uma base de apoio – diz Ivo.

O professor de História Melch Gomez não economizou nas palavras para expressar a indignação pela tragédia no museu carioca.

– Perdemos todos. Ciência, cultura, história, mas sobretudo o sentido de um país. Era um museu que contava a nossa evolução antropológica, étnica e de que de quebra ainda nos mostrava muito da história do mundo todo. O país perde no sentido de que não pode haver desenvolvimento sem a preservação do passado, da história e da memória. E o descaso com o qual o mais importante museu da América do Sul foi tratado, mostra que estamos bem longe de um Brasil melhor. O país foi dura e irreversivelmente golpeado ontem.

Acervo foi base para obras da Sophia Editora

De centro de referência para produção científica a local muito requisitado para excursões escolares, o Museu Nacional também contribuiu bastante para a produção acadêmica brasileira. Suas obras e manuscritos também serviram de base para produções literárias. No caso específico de dois títulos da Sophia Editora, alguns elementos foram retirados de horas de pesquisa no imenso prédio de 200 anos, que é administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Trechos da obra ‘'K-36, O Zepelin Que Caiu No Cabo', de Leandro Miranda foram feitos com base em uma pesquisa da antropóloga Heloísa Alberto Torres (1895-1977).

– Durante minhas pesquisas para fazer o livro do Zepelin, estive lá e fotografei algumas partes da pesquisa de Heloisa Alberto Torres sobre o processo de interferência da Álcalis na Vila de pescadores de Arraial do Cabo. Estou muito triste com a perda do acervo dela sobre Arraial – lamenta Leandro.

Obra que está prestes a ser lançada pela editora, o livro ‘Do mar à mesa: a pesca e a culinária típica da região do Cabo Frio’, do professor de Gastronomia Fernando Melo, também consultou a obra de Heloísa.

– Estive lá três vezes para consultar o arquivo da professora Heloísa Alberto Torres, que foi parte da minha pesquisa.
O abandono do museu era visível.
Um problema de décadas.
Tenho quase certeza que o fogo pegou essa parte – comentou.

O atual secretário de Cultura de Cabo Frio, Fernando Chagas, também se pronunciou por meio da assessoria de comunicação. Segundo Chagas, o incêndio no Museu Nacional “representa uma verdadeira tragédia para a memória e cultura brasileiras” e “é uma perda sem precedentes do nosso patrimônio histórico”. A secretaria de Cultura também emitiu nota lamentando o episódio.

*Foto: Agência Brasil 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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