Rodrigo Cabral

Jornalista, músico, editor-chefe da Folha dos Lagos e diretor da Sophia Editora.

14/08/2018

Sobre o fim da Ler & Ver

Dizem por aí: de solidão nunca padecerá quem aprende a tocar instrumentos musicais. 

Acrescento por aqui: de solidão nunca  padecerá quem escolhe um livro como bom companheiro.

Pode ser uma obra densa como sinfonia clássica, radiante como clássico da  pop music ou despojado tal qual a malandragem entoada nos sambas de raíz.

Seja qual for o ritmo, timbre e afinação, literatura é vida, porque recria a vida em camadas, cores e possibilidades nunca antes imaginadas.

Bem, este é o trabalho do escritor. E o leitor? Ah, ao leitor cabe apenas se permitir ser guiado rumo ao desconhecido, como o ‘Timoneiro’ de Paulinho da Viola: “quem me navega é o mar”. E há muito a ser descoberto no horizonte.

Em Cabo Frio, ainda que agosto seja de ventos fortes, o anúncio do encerramento das atividades da Ler & Ver traz previsão não tão agradável: calmaria total, neblina, péssima visibilidade.

À deriva, órfãos da tradicionalíssima livraria situada na Rua Raul Veiga,   os leitores de Cabo Frio ficam um pouco mais solitários. Na verdade, ao perder um de seus estabelecimentos mais tradicionais, Cabo Frio está ficando mais solitária.

Há não muito tempo, sob nova gestão, a Ler & Ver reabriu as portas com a altivez de uma marca de 50 anos de história. Tudo reformado, bem ajeitado, com direito a um caprichado café no segundo piso – onde, tempos atrás, muito antes da internet e das facilidades do Youtube e Netflix, funcionava uma das locadoras mais concorridas da cidade.

Mas, no meio da travessia, que prometia ser gloriosa, havia a crise. A crise que todos conhecem  e, mais especificamente, a do mercado editorial, que encolheu 21% de 2006 a 2017, segundo a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). 

 Perdemos a Ler & Ver. Mas navegar é preciso:  nós precisamos dos livros – e eles, mais do que nunca, de nós. Avante.

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02/08/2018

Dor à beira-mar

 Ando. Ando pelas areias. Ando sobre as conchas, raspando os pés descalços na fina camada d’água que vai e vem. Uma pedra pontiaguda perfura meu pé esquerdo.Ando. Ando pelas areias. Ando pelas areias com a minha companheira, dor. Ela me desloca da paisagem paradisíaca para um universo paralelo, onde é  protagonista: grita, me paralisa e consome. Um pouco de sangue escorre e se dissipa na onda que bate em meu calcanhar.  Abaixo-me para verificar a profundidade do corte. Coisa pouca, bobagem. Ando. Ando pelas areias. Ando pelas areias com a minha companheira, dor, a quem peço, quase em súplica: por favor, fale um pouco mais baixo – preciso ouvir o som do mar.

 

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02/08/2018

Terminais, estações, aeroportos

Este texto seria sobre felicidade. Depois, propuseram-me alguns rabiscos sobre a palavra da moda: ranço. Os temas ficaram para depois. É que estas linhas preferiram encontrar morada em lugares de idas e vindas, de abraços e despedidas, de sorrisos e lágrimas: terminais rodoviários, estações de trem e aeroportos, especialmente. 

Que seja breve a estada, pois tem pressa o redator.

Há uma mágica silenciosa nesses espaços, mas que grita a quem quiser observá-la bem. Penso até: pode ter vindo dessa coisa instigante a inspiração de J.K Rowling, a autora de Harry Potter, para fantasiar a plataforma 9 ¾ da estação King’s Cross, em Londres, onde seus personagens passam pela parede para pegar um trem rumo à escola de bruxaria de Hogwarts.

Mas falo sobre mágica real. Do cotidiano – que, muitas vezes, pode ser mais fantástico do que as mais mirabolantes ficções. 
Há mágica nesses espaços porque cada pessoa que chega e parte carrega um universo particular, com dramas e aventuras, conquistas e fracassos, prazeres e desprazeres. Ah, quanta história há no fluxo dos terminais, estações e aeroportos...

Há as chegadas e partidas de rotina – embora também haja na rotina muito sobressalto: o ônibus que não passa, o trem enguiçado, o voo cancelado de última hora. E, também, as chegadas e rotinas que são como que capítulos de um livro: a ida para uma longa viagem, a mudança de cidade, a busca por novos territórios e encontros.... 

Quando não é para ser um singelo “até logo”, a passagem vem carimbada com um punhado de sofrer.

Vez ou outra, mudar é preciso. Arrumar as malas e deixar para trás tudo que é velho é preciso. Despedir-se do que outrora foi fonte de felicidade é preciso. Projetar-se para o novo, reencontrar-se numa nova jornada, escrever-se como protagonista de sua própria vida: tudo isso é preciso. Mas dói. Dói que é uma beleza. 

É uma dor auspiciosa, no entanto. Porque tem de ser sentida.

É o alerta de que estamos vivos. Afinal, sentimos. Sentimos porque somos de carne e osso, porque nos importamos, porque somos humanos. Nos terminais, nas estações, nos aeroportos, paira no ar essa simbiose entre alegria e tristeza. A dicotomia perfeita de um mundo que precisa girar.

Nos terminais, nas estações, nos aeroportos, paira no ar isto que guiou tantos clássicos do cancioneiro popular. Vinícius de Moraes, com toda sua sabedoria, nos ensinou: “Depois da chegada, tem sempre a partida, porque não há nada sem sem separação”. Milton Nascimento também embarcou: “Todos os dias é um vai-e-vem, a vida se repete na estação, tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais”. 

Pois é. Também temos, em nosso íntimo, terminais, estações, aeroportos. Para que não percamos os rumos para este destino chamado vida, importante é saber a hora certa de de comprar a passagem só de ida. De derramar o pranto aqui para colher o sorriso lá na frente. De seguir em frente, simplesmente. E que a decisão seja pontual, para hoje. Senão, é como avisava Adoniran Barbosa: “Se eu perder este trem, que sai agora às onze horas, só amanhã de manhã”.

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17/07/2018

Deus na despedida da metrópole

Despeço-me da cidade nesta noite de domingo. O ônibus cruza a ponte. De longe, os edifícios pequenos. Luzes alaranjadas. A metrópole se apequena. Sento na cadeira do corredor. Melhor para esticar as pernas. No escuro, além das luzes dos celulares, é nítida apenas a inscrição refletida em vermelho ao lado da janela: saída de emergência.

À esquerda, debruçada no colo da mãe, uma menina fala. Fala, fala, fala sem parar. Desde que partimos, coisa de 20 minutos. Tiro os olhos do celular por um momento para fitar suas sombras no breu: mãe e filha, algo em torno dois oito anos, agasalhadas uma pela outra nos 26°C impostos pelo ar condicionado. 

Volto os olhos para a tela.

Ouço.

– Eu adoro conversar com Deus – diz a menina, baixinho.

– É? E o que você diz? – responde a mãe.

– Eu falo tudo que estou sentindo. Tudo mesmo. E peço proteção para você e para o papai. E para mim também. E, depois que eu digo tudo, sinto meu corpo tão quentinho. Sinto que é Deus me respondendo.

Fez-se um breve silêncio. Como se a mãe estivesse mastigando o que acabara de ouvir. Ter um filho deve ser mesmo tarefa árdua, penso eu aqui, enquanto olho para o céu. Afinal, que é que pode ser dito à altura da revelação da criança? A resposta veio logo em seguida, quando a mãe naturalmente retoma o diálogo.

– Deus gosta muito de você, sabia?

– Como você sabe?

– Ah, ele me conta.

– É mesmo, mãe?

– É, sim. Olha, aperta bem a minha mão. Tenho certeza de que Deus iria adorar se nós duas falássemos juntas com ele. Vamos fazer uma oração?

Começaram a rezar, sincronizadas, o Pai Nosso. E por algum tempo foi apenas o que se podia ouvir, além do barulho do motor. Fechei os olhos, inconscientemente. Revisitei as palavras aprendidas na catequese, provavelmente quando tinha a idade da menina. Amém.

Voltei a olhar para frente. Segui a seta vermelha do leitreiro de saída de emergência, que indicava a direita, e voltei a contemplar o céu, a vida e seus mistérios. Uma hora chegamos lá.

Guie-nos em paz, motorista.

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