Paulo Roberto Araújo

Paulo Roberto é professor de História.

18/09/2019

O Eleitor e Sua História

Por mais de 150 anos, quer dizer desde o Segundo Império, até meados do século XX, o Brasil era um país com dimensões continentais, mas com relativamente poucos municípios, em comparação com outros países. A França, um país que em dimensões territoriais é pouco maior do que o estado de Minas Gerais, tem quase 30,000 municípios atualmente, quase 5 vezes mais do que o Brasil de hoje.

O número de municípios começou a aumentar em escala exponencial, a partir da década de 70 do século XX, e explodiu pouco depois de promulgada a Constituição de 1988. Quase 50% dos municípios existentes no Brasil hoje, foram criados em menos de 40 anos, e muitos não têm sequer duas décadas de existência.

Ao mesmo tempo, desde a Constituição de 1988, os municípios passaram a assumir a maior parte das responsabilidades pela produção de bens públicos, como Saúde, Educação, Limpeza Urbana, Transporte, etc. Cada um destes municípios brasileiros, para prover tais serviços precisa ao mesmo tempo, gerar receitas próprias, na forma de arrecadação e receber repasses do Governo Federal.

Todos estes problemas tomam uma dimensão mais dramática, quando chega a época das eleições municipais. É possível compreender os padrões de votação de uma cidade, de modo a identificar que tipo de preocupações movem o eleitor, quando este decide votar? Basicamente, é possível fazer uma análise destas intenções de voto, no sentido de identificar como as intenções de voto do eleitor foram mudando ao longo do tempo, como resultado de uma série de mudanças sociais, econômicas e culturais.

O caso do Rio de Janeiro, é emblemático nesse sentido. Nas décadas de 60 e 70, o perfil do eleitor carioca era o resultado de uma série de fatores que constituíam a economia e a sociedade da capital do Estado do Rio de Janeiro. Nessa época, boa parte da classe trabalhadora estava trabalhando em empresas ligadas à indústria e aos serviços, era em geral, declaradamente “católica”, com uma escolaridade menor do que a de hoje.
O perfil do eleitor, de alguma maneira influi no tipo de candidato que termina por vencer as eleições. Essa regra serve para compreender a história eleitoral do Rio de Janeiro, mas pode perfeitamente ser aplicada às demais cidades do Estado do Rio de Janeiro.

Se você quiser conhecer o futuro das eleições, dE uma olhada no Passado, na história do voto e de seus eleitores.       
   

 

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04/09/2019

Imagem sem retoques

Recentemente, o IBGE divulgou os dados de um  estudo baseado nos dados sobre a maneira como os brasileiros se vêem do ponto de vista da Cor. Como se sabe, desde que o primeiro Censo foi realizado no país, em 1872, este quesito ‘Cor” foi alvo de intensas controvérsias.
Quando este Censo de 1872 foi realizado, a ideia de D. Pedro II era usar uma ferramenta de administração pública que vários estados na Europa e também os Estados Unidos, já utilizavam largamente.
Os Censos na Inglaterra, dizia-se na época, contavam pobres e os franceses, criminosos, mas todos tinham o mesmo objetivo, qual seja, mapear a população governada pelo Estado.
Qual cor deveria ser anotada, para efeito de contagem? A cor que o funcionário atribuía ao cidadão ou aquela que este mesmo  cidadão atribuía a si mesmo? O Brasil, desde aquela época, ficou com a última alternativa, ou seja, aqui quem atribui a cor é quem é entrevistado pelo IBGE.
Agora vejam só. Há mais de um século, com eventuais lacunas aqui e ali, os Censos no Brasil são publicados, e segundo os dados constantes nestes censos, os “negros” constituíam “minoria” no Brasil. Como isso era possível, perguntavam os estudiosos?
Nelson do Valle Silva e Carlos Hasenbalg pesquisaram este fenômeno por muitos anos e chegaram à seguinte conclusão: o brasileiro em geral, quando perguntado sobre a sua cor, costumava atribuir a si, uma cor que na verdade não correspondia à realidade. Assim, muitos negros auto denominaram-se como ‘pardos”, ou mesmo ‘morenos”. Da mesma maneira, muitos pardos, não viam problema em classificarem-se como “brancos”.
O fenômeno revelava como a cor no Brasil era muito mais um marcador de posição social do que um atributo físico e biológico. Assim, um “negro” poderia classificar-se como um “pardo”, mas o inverso, ou seja, um “pardo” atribuir a si a cor “negro” não ocorria. Da mesma maneira, um “pardo”” atribuía-se a cor “branco”, porém o “branco” não seguiria o percurso contrário. A cor assim, segundo estes pesquisadores reproduz um hierarquia social onde “cor” e condição social estariam intimamente associados.
Eu mesmo constatei isso quando pesquisa o universo de alunos e seus familiares na rede escolar do Ensino Fundamental em um município da Região dos Lagos. Quando perguntados sobre a cor que os pais atribuíam a si mesmos, os questionários devolvidos tinham como resposta “pardos”, brancos” ou “morenos”, em um território onde maioria da população é negra. Isso entre 2014 e 2015.
O IBGE registrou que o número de pessoas que agora auto denominam-se 
como “negros” cresceu mais de 14%, em comparação com pesquisa realizada anteriormente. Isso significa que ao menos do ponto de vista racial, as pessoas agora, estão “saindo do armário”, ou seja sentindo-se mais à vontade no sentido de atribuírem a si como “negras”. Quais os determinantes deste fenômeno? Afinal, o que faz com que alguém saia do armário e olhe para si sem retoques?  

 

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26/08/2019

A atualidade de Malba Tahan

Quando criança, um dos primeiros livros que caiu nas minhas mãos foi “O Homem que Calculava”, escrito por Malba Tahan, um pseudônimo do professor Julio César de Melo e Souza. Ambientado no antigo mundo árabe, o livro é um romance, onde cada capítulo conta as aventuras e desventuras de Beremiz, um jovem que passa a vida a resolver problemas de matemática e contar estórias que mostram o cotidiano do mundo muçulmano.


A primeira coisa que se constata é como este livro mostra o Islã de uma forma totalmente diversa da visão  senso comum  de hoje sobre os árabes e sua cultura. Em lugar do fundamentalismo, uma civilização extremamente sofisticada e apreciadora do legado antigo deixado por gregos e romanos.
Nos pequenos contos de Malba Tahan, não há espaço para o obscurantismo, o fundamentalismo e a intolerância. MalbaTahan pode ser lido hoje com toda segurança, como um verdadeiro antídoto contra todas estas manifestações , tão presentes nos dias de hoje.


O retrato que ele pinta dos muçulmanos é o de verdadeiros guardiões da ciência e da filosofia antigas. “O Homem que Calculava” foi criado como um livro de divulgação científica. Através de estórias Julio de Melo e Souza vai desconstruindo o medo que a maioria das pessoas nutrem pela Matemática.


Não é por acaso que o livro de Malba Tahan teve dezenas de edições, desde o seu lançamento, em 1939. Poucos livros no Brasil tiveram uma trajetória de tanto sucesso junto ao público. Talvez um outro autor com este sucesso só mesmo Chico Xavier. 


Mas  MalbaTahan não é atual somente pelo ensino da matemática. Ela reside também no fato de que a “moral” de todas as histórias onde Beremiz é  personagem é de que a tolerância religiosa é possível e necessária.


Malba Tahan mostra que demonizar o Outro, seja ele Católico, Protestante ou Muçulmano é contrário aos princípios de todas as grandes religiões. Fico pensando aqui porquê cargas d’água, em meio a tantas manifestações de obscurantismo, nenhum educador até o momento atentou para o detalhe de que aqui mesmo no Brasil tivemos alguém que se preocupou em escrever para crianças, algo que hoje tantos adultos esqueçaram.


 Essa semana, mais uma vez, as Trevas nos brindaram com mais uma demonstração de que elas vieram para ficar. Uma criança de 11 anos, foi apedrejada na cabeça, por sair em público com uma vestimenta de sua religião, o candomblé. O que diriam Beremiz e Malba Tahan depois de uma coisa como esta? Não sei, mas penso que ambos achariam que seria muito melhor continuar a perambular pelos desertos montados em camelos,  contando suas histórias em acampamento de beduínos.

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19/08/2019

Volátil

O ano é 2013. Em uma mesa de bar, um grupo de amigos conversa animadamente sobre suas apostas para o futuro do Brasil, e do mundo também. Vamos supor que a conversa tenha se passado nessas reuniões de fim de ano, que colegas trabalho troquem presentes e promessas sobre o que vão fazer no ano que está por chegar.


No meio dos amigos, um deles vem com as seguintes “previsões”. Em 2020, a Esquerda no Brasil não estará no poder, posto que foi derrotada por ampla maioria por um candidato de extrema direita, que em sua campanha defendia a liberação do porte de armas para cidadãos comuns, era abertamente contra as políticas de igualdade de gênero, etc, etc.


Além disso, a maior parte dos eleitores que garantiram a vitória de sua campanha foram exatamente os mesmos eleitores que deram a vitória à esquerda no Brasil, desde que o PT conseguiu eleger Lula como o Presidente do Brasil. Não contente com isso, nosso convidado disse também que nos Estados Unidos, um presidente também de extrema direita acabou com o longo ciclo de governos democratas e liberais, que deram a Bill Clinton e Barack Obama a vitória.


Não satisfeito com isso, nosso convidado também “previu”, que muitos políticos importantes, entre eles o próprio Lula estariam presos, e que a presidente Dilma seria deposta, por um processo de impeachment.


Quem quer dissesse algo parecido em um jornal, naquele não tão distante ano de 2013, seria certamente tomado por louco, para dizer o mínimo.
E no entanto, tudo isso, e muito mais aconteceu no espaço de menos de 6 anos. O que aconteceu afinal, com nossas “previsões”, com nossas pesquisas e projeções? 


No jargão do mercado financeiro, o termo “volatilidade” significa que as negociações de títulos, moedas e ativos são tomadas de incerteza, em determinadas conjunturas. Por exemplo, comprar Dólar pode ser um bom investimento hoje, mas uma notícia de uma recessão na Europa, ou nos Estados Unidos, pode desfazer esse cenário em um piscar de olhos.


As eleições na Argentina nos últimos dias mostraram exatamente isso. A candidatura de oposição, que aqui no Brasil é considerada como uma plataforma “de esquerda”, embora na prática esteja muito longe disso, fez com que os mercados financeiros, no Brasil e no resto do mundo reagissem imediatamente.


Em 2020, teremos eleições para Prefeito. Eu não ficaria em nada surpreendido se essa ‘volatilidade”, tão comum no mundo financeiro se manifestasse mais uma vez, na política fazendo com que candidatos absolutamente desconhecidos chegassem à vitória. Isso vale para cidades como o Rio de Janeiro, mas também para as pequenas, como a própria Cabo Frio. Ou seja, talvez o próximo Prefeito de sua cidade seja alguém de que pelo menos até hoje, você nunca tinha ouvido falar antes. O Governador Wilson Witzel está aí exatamente para nos lembrar todos os dias isso.    

 

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