Paulo Roberto Araújo

19/01/2018

O político como "seguidor"

Donald Trump, na semana passada declarou que em seu governo, as leis de imigração iriam ficar ainda mais restritas para aqueles países que ele denominou de “Shithole Places”. Em português bem popular, a expressão significa “um lugar de merda”. Trump referia-se a países como o Haiti e a África. 

A declaração evidentemente, gerou uma torrente de protestos em todo o mundo. Não foi a primeira vez que Trump usou deste tipo de expressão para referir-se a países que ele julga inferiores aos Estados Unidos. Também não será a última vez que ele fará isto.

O que explica este tipo de comportamento do Chefe de estado do país mais poderosos do mundo? Simples, Twitter, redes sociais. Elas são os novos canais de comunicação que os políticos possuem com os seus eleitores.

Quando o assunto é “governo”, em todo o mundo, e não só no Brasil, as pessoas falam de ineficiência, corrupção e distância. Seja nos estados Unidos, na Suécia, no Brasil, a imagem do “governo” é sempre descrita pela população como algo ruim.

O Twitter foi a primeira rede social a inaugurar um canal de comunicação de via dupla entre o político e seus eleitores/seguidores. Isso foi uma inovação do governo Barack Obama que Donald Trump segue religiosamente.

O Twitter permite que o político entre em uma conversação direta com seus eleitores, sem mediações. Quando era governador da Califórnia Arnold Schwarzeneger foi interpelado em sua conta por uma moradora de São Francisco que lhe perguntou o que ele, pessoalmente estava fazendo para cortar despesas. Imediatamente, “Arnie”, como é conhecido na Califórnia respondeu que não mais recebia seu salário de governador, dirigia o seu próprio carro ( um utilitário Hummer) e tinha cortado mais da metade de seus funcionários.

O que isso tem a ver com a polêmica declaração de Trump? Ele fala este tipo de coisas, não por um destempero de seu caráter, mas por uma conduta que está lentamente tomando conta do mundo político. O homem público, cada vez mais é “seguidor” da moral da multidão. As redes sociais transformaram-se em um termômetro muito mais preciso do estado moral de seus eleitores do que pesquisas de opinião. São também formas muito mais baratas de estar em contato com aquilo que realmente pensam seus eleitores.

Eu mesmo já me dei ao trabalho de “seguir” Donald Trump e suas declarações de 140 caracteres. Seu comportamento flutua ao sabor do humor dos eleitores, muitas vezes buscando antecipar-se à reação deles. 

O caso de Trump é apenas exemplo de fenômeno muito mais amplo e complexo que é a maneira como os políticos estão aprendendo a lidar com as redes sociais.  Mudando de galho, mas permanecendo na mesma árvore, esta parece ser a grande tendência das eleições de 2018. Políticos estão aprendendo a lidar com este novo instrumento, as redes sociais. Enfatizo o verbo “aprendendo”, pois até mesmo para eles, não é algo simples de lidar. 

O sucesso da campanha de Jair Bolsonaro, na minha opinião, é o mais evidente exemplo disto no Brasil. Mas sobre ele e a maneira como usa as redes sociais vou escrever um pouco mais na próxima coluna.     

 

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16/01/2018

Simple minds

A Escócia na década de 60, passou por um processo muito parecido com o que aconteceu aqui, na Região dos Lagos. Lá, em 1964, a British Petroleum descobriu enormes reservas de petróleo nas águas profundas e revoltas do Mar de Norte. A tecnologia desenvolvida ali para explorar petróleo em águas profundas serviu de modelo para que a Petrobras, pouco tempo depois pudesse explorar as jazidas de óleo nas Bacias de Campos e Santos.

O petróleo do Mar do Norte tornou a Inglaterra autosuficiente, fez com que a Escócia recebesse um caminhão de dinheiro na forma de royalties, gerou empregos, trouxe prosperidade para as cidades daquele país. Mas, depois de 50 anos, os ingleses sabem que a festa vai acabar. Na verdade, ela pode acabar até mais cedo do que os ingleses imaginam, já que tecnologias limpas estão sendo adotadas com grande velocidade.

É possível que antes do último poço secar, a humanidade já tenha abandonado completamente o uso de combustível fóssil.

Seja como for, as cidades escocesas tomaram consciência de que elas terão de sobreviver em um mundo sem petróleo, pior em mundo sem o dinheiro proporcionado por ele. Como fazer então?

Algumas cidades escocesas anunciaram que este ano vão iniciar experimentos no sentido de adotarem um programa de renda básica universal. Isso significa que todos os habitantes destas cidades, independente de sua renda anterior receberão um subsídio. A lógica deste mecanismo reside na suposição de que a renda básica é um mecanismo de correção de desigualdades. Para quem ganha muito, a renda básica dada pelo governo não fará muita diferença, mas para os que ganham menos ela fará diferença, sim.

E por qual motivo os escoceses estão recorrendo a isso? Lá, como aqui, a riqueza do petróleo trouxe também muita desigualdade. A distância entre ricos e pobres ficou maior, e não menor com dinheiro proporcionado pelo petróleo.

Não acho má ideia que algo semelhante seja adotado também aqui no Brasil. Afinal, os recursos dos royalties não impediram que as cidades do Rio de Janeiro entrassem em uma grave crise econômica.

Então por quê motivos os cidadãos ao receberem um tipo de benefício como este fariam pior do que os atuais governos atolados até o pescoço em escândalos de corrupção?

Não custa lembrar que a Escócia foi o berço de Adam Smith que acreditava que os indivíduos, mesmo sem instrução, sabiam mais dos seus interesses do que seus cultos governantes em Londres. Os escoceses têm um ditado: “Simple Minds, Simple Ideas”, mentes simples têm Ideias Simples. A história mostra que muitas vezes estas ideias simples mudaram o Mundo.    

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14/07/2016

Mais uma reforma? 

Dia desses, depois de ler pela enésima vez algo relacionado sobre o movimento que se auto denomina como “Escola sem Partido”, perguntei aos meus botões: afinal de contas, o que isso quer dizer, realmente?

A rigor, a Escola ao menos formalmente, deve ser realmente “sem partido”, ou seja, aquilo que é transmitido passa por um crivo que não é o político, mas o científico. Ok, até aí tudo muito bem. O argumento dos defensores desse movimento (estou fazendo um esforço muito grande para considerar a defesa de uma proposta como essa como um “argumento”) é que nossas escolas, ao invés de ensinarem estão “doutrinando” nossas crianças com valores que, no entender de seus defensores entram em choque com os valores da família e coisa e tal.
Além disso, seguem os defensores da “Escola sem Partido”, ideologias de esquerda predominam no discurso de nossos professores, notadamente os ligados às Ciências Humanas. Gostaria de saber sinceramente, como seria uma aula de Física e Matemática dentro dessa proposta, digamos, “inovadora”. 

A História mostra que toda vez que a política tentou livrar a Ciência da ideologia de seus cientistas, a coisa acabou mal, bem mal. Quando Josef Stálin chegou ao poder, ele decidiu estabelecer como parâmetro de correção científica, aquilo que prescrevia o materialismo histórico dialético, ou pelo menos como ele assim o interpretava. Sob essa perspectiva, a Genética era encarada como uma “Ciência Burguesa” e por isso foi praticamente banida das universidades soviéticas. O mesmo aconteceu com a Estatística, considerada também tributária de valores simpáticos ao capitalismo. Esse amontoado de asneiras teve efeitos a longo prazo muito sérios não só para a União Soviética, mas para a ciência russa. Embora os russos sempre tenham se notabilizado por contribuições científicas, campos como a Biologia foram afetados por este tipo de postura.

Na Alemanha, quando Hitler e os nazistas chegaram ao poder em 1933, a Teoria da Relatividade de Einstein deixou de ser ensinada em muitas universidades sob o pretexto de que ela era uma “Ciência Judaica”. O mesmo se deu com a Psicanálise de Sigmund Freud. Ora, foi exatamente por causa deste tipo de postura que milhares de cientistas russos e alemães foram parar nas universidades dos Estados Unidos.

Esse foi o “presente” que Hitler e Stálin deram aos Estados Unidos. Desde então, as universidades americanas não fizeram mais do que colecionar prêmios Nobel, ano após ano. Nossa Educação, como é de conhecimento geral, nunca foi lá essas coisas. Corre o risco de ficar pior se um movimento como esse vingar. Volto a falar: gostaria muito de saber como seria uma aula de ciências dentro do “currículo” da Escola sem Partido.

Creio que as reais motivações de um movimento como esse são aquelas velhas de sempre: poder e dinheiro. Mesmo desacreditada, a Educação é o setor das políticas públicas que mais recebe recursos, perdendo somente para a Saúde. Existe toda uma cadeia produtiva que vai do livro didático à merenda escolar, passando pela concessão de financiamento de projetos de pesquisa que se tornaram alvos daqueles que defendem que nossa Educação deva ser conduzida sem partidarização. 

Não me espantaria se depois de algum tempo, posições chave dos conselhos do CNPQ, CAPES, FAPERJ e FAPESP estejam ocupadas por membros ou simpatizantes deste movimento. Da mesma maneira, não seria surpresa também se o currículo dos ensinos fundamental e médio fossem reescrito, por outros atores, mais afinados com o  movimento Escola sem Partido.

Tudo isso representa bilhões de reais em verbas e financiamento. Na minha opinião, isso é motivo suficiente para tirar muita gente da cama disposta a lutar contra a ”doutrinação” que como um espectro, ronda a cabeça de nossas crianças.  

 

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