Paulo Cotias

Historiador, Mestre em Educação. Professor Universitário.

24/01/2018

De leve

Como tudo ou quase tudo se tornou uma manifestação de cultura e pensamento, fica difícil definir dentro de um contexto de liberdade de expressão o que é ou não socialmente conveniente. 

Isso se reflete nas manifestações de ódio e intolerância, algo tão recorrente nas redes sociais quanto na vida real, onde as mazelas do preconceito ainda insistem em ganhar contornos de uma inocente comédia, a da vida do outro é claro. 

Longe de advogar um moralismo estrito não estaríamos, contudo, tolerantes demais quando damos toques gourmet a coisas como o recente hit do momento, o tal da “surubinha de leve”? Para essa e várias outras concessões que transformam drogas, bebidas e comportamentos em bens de consumo desejáveis e identificáveis, só nos resta assistir com espanto a desvalorização e a vulnerabilidade cada vez maior dos segmentos já tradicionalmente mais sensíveis a esse processo.

O mais curioso é que se nos alongarmos numa palhinha antropológica vamos notar que as famílias são as maiores facilitadoras de todo esses acontecimentos pela simples e direta inércia da indiferença. O crescimento das “festinhas sociais” em casas particulares ou em conhecidos “night clubs” onde menores consomem sem nenhum tipo de constrangimento bebidas, drogas e experimentam os roteiros sexuais musicados pelos novos arautos de um execrável segmento da música funk, tudo isso devidamente registrado e compartilhado de modo viral pelos grupos de whatsapp, com a total e irrestrita anuência dos pais/responsáveis , são sintomas de que estamos diante de uma geração de abandonados. 

 E para ficar ainda mais no clima da relatividade pós-moderna, estamos vendo muitos desses jovens tanto nesses ambientes quanto em grupos de igrejas. Ou seja, será que as famílias transformaram a realidade dos filhos em uma rotina de despachos para que possam seguir “sem culpa” com suas próprias vidas? 

No fim das contas, vem o tão esperado carnaval com todos os excessos que lhe são típicos e favoráveis. Mas ele não seria tão preocupante se fosse apenas o que sempre foi, a catarse de uma sociedade sufocada pelo moralismo religioso, mas esse é um tempo que não mais existe. Hoje há uma liberdade que nos intoxica, não oferecendo nenhuma resistência, nenhum limite ou um freio à boca para quando transformam a ética em um discurso utilitário.

E olha que ainda teremos eleições e não causa nenhum espanto que esses mesmos jovens “de leve” sejam os mesmos que levantam a carregam a bandeira da violência como solução social, do preconceito como instrumento didático e do simplismo da aceitação acrítica da desigualdade como algo natural. A tal “turminha do mito”...

É torcer pelo menos para não rolar mais um surto nacional de febre amarela. Pelo menos isso para 2018...

 

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05/01/2018

O ano da sobrevivência

Em 2018 a região vai vivenciar as eleições para prefeito. Pelo menos indiretamente. Isso porque praticamente não se observa no horizonte uma candidatura viável com interesse exclusivo na representatividade legislativa. Assim, mesmo que sejam eleitos, esses representantes vão “esquentar o banco” federal ou estadual apenas para turbinar um projeto político/eleitoral de um pouco mais adiante. Arriscaria o prognóstico que a região ficará sem representante na próxima legislatura, levando a compromisso com deputados “de fora” para que possam deixar algum espaço em seus redutos para olhar para nossas bandas. Isso não é novidade propriamente. Nossas terras já foram bons currais externos e essa vocação também pode se tornar a turbina eleitoral de 2020. 

Seja como for, todas as prefeituras da região tem um tempo limite de seis meses para resolver suas pendências. O problema é o para que resolver. Aí se encontra a encruzilhada. No modo de fazer política à brasileira, o poder público se ajeita em função do calendário político, portanto, responde a projetos de poder puro e simples. Assim, qualquer melhoria será apenas melhoria, quando os tempos de hoje gritam por mudança significativa, por transformação, por abertura de espaços para pessoas não apenas íntegras como também absolutamente competentes no que fazem. Falta à política a noção de serviço. Político deveria se comportar como servidor e não como um ungido de cabeça coroada, a frente de uma corte de bajuladores interesseiros.

Com base em dados, indicadores e reunindo os cérebros certos, foram muitos os governos em todos os níveis e em todas as nacionalidades ao longo da história que constituíram projetos não apenas inovadores como também decisivos para o bem-estar de suas comunidades. Assim, conseguia-se enxergar uma identidade de grupo, uma noção de onde se parte e para onde se vai. O que mais vemos, no entanto, é um caleidoscópio de pequenas peças, se mexendo individualmente para dar alguma visão de volume ao todo. Mais ainda assim, peças soltas. 

Acreditam os paranormais da economia, em sua vidência, que 2018 será um ano de melhora. Particularmente devíamos colocar a devoção em outros santos. É de uma inacreditável ingenuidade alguém conceber capitalismo sem crise. Portanto elas, cedo ou tarde, farão parte do processo. E como gestão é administrar a escassez para que todos possam ter algo de bom, são necessários talento, integridade e inteligência, mas, acima de tudo, planejamento. O que não é mais possível é tentar colocar roupas curtas em elefantes. E isso significa coloca o modelo político tradicional na berlinda;
Sim, pois para sobreviver ele precisa continuar a reproduzir suas práticas e, para isso, precisa de grandes recursos. Mas como esses recursos não são mais graciosos é preciso produzir essas condições.

Só que para produzir essas condições os governos não podem mais ser o que são. Desse modo, manter as coisas como são exigem cada vez mais compromissos externos, loteamento de governos e tudo o mais que apenas servem para manter pessoas e não uma efetiva perspectiva de transformação e desenvolvimento.

Esse ano promete. Vamos apenas ver o que cumprirá.  

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11/06/2017

De quem é a culpa?

Parece ser um consenso que a educação brasileira precisa de modificações profundas. Tenho lido e ouvido bastante a respeito e os argumentos que me chegam parecem ser ao mesmo tempo válidos na concepção, mas injustos na forma.

Válidos porque é um fato consumado que o modelo de escola brasileira faliu frente às demandas da contemporaneidade. É necessário, senão urgente, a construção do pensamento educacional brasileiro, o que teoriza, cria e soluciona suas demandas a partir da sua realidade, tendo por base o lastro da ciência. O que teimosamente fazemos é o inverso, pois vivemos de releituras e adaptações das inteligências estrangeiras. É preciso romper com a vassalagem acadêmica. Do mesmo modo, não cabe mais o professor que temos. Ele precisa dominar as diferentes ferramentas tecnológicas e, além delas, dominar primeiramente as humanísticas, ou seja, assumir que seu fazer não se restringe meramente a transmissão de um conteúdo (isso qualquer site de busca faz com maior talento), mas a de encantar seu aluno ao oferecer a ele as chaves do como conhecemos, e de todos os componentes e experiências que nos fazem humanos.

Mas aí vem o lado injusto dessas constatações. A enxurrada de críticas acerca da escola, das aulas e do professor, quando decantadas em seminários, palestras, textos e seus congêneres, colocam a questão como algo a ser solucionado pelo ato e vontade do professor. Talvez seja por isso que nosso país progride a passos de cágado e toda e qualquer evolução se restrinja a clubes acadêmicos, círculos quase herméticos. O que os iluminados não lembram é que para ser bom não basta vontade. É desonesto culpar o trabalhador como se ele não tivesse vontade de progredir. É desonesto colocar todo o peso do progresso e da inovação nas costas de quem tem tão pouco para dar o start a tudo isso.

A injustiça, e prefiro considerar dessa forma para não pensar em desfaçatez, é sequer considerar que o aspecto principal para o desenvolvimento ou mesmo a transformação das nossas relações educacionais passa pela base material. Se tivéssemos unidades escolares em quantidade satisfatória, todas muito bem equipadas e concebidas, com salários justos e atraentes e distribuição de carga horária que contemple todas as dimensões do fazer educativo , aí sim eu poderia fazer coro aos que falam da culpa ou da necessidade de mudar como algo intrínseco e exclusivo a vontade dos docentes. Mas a crítica de maior volume parte, quase sempre, de quem deveria estar concedendo essa base. Mas não concedem e preferem transferir a responsabilidade das inovações ao exaurido professor.

Duro é ver o professor pago para falar isso para outros professores (e fica claro que é como um ator, um intérprete do que não vive). Duro é saber que a mudança é uma condição de empregabilidade na qual você oferta o novo e recebe o velho mínimo. Duro é constatar que nossas gerações vão sendo prejudicadas , sobretudo as das classes populares.

Mas se tudo der errado, culpe o professor. E se der certo, enalteça o modelo.

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20/05/2017

Roubo dos Deuses

Prometeu e Epimeteu haviam recebido uma tarefa de grande importância dada pelos deuses: a criação de todos animais. Todos receberam seus dons e características que dispensam maiores considerações. A uns sagacidade; a outros garras, força e assim por diante. Tudo ia bem até a hora de se constituir o homem. Esgotados os melhores recursos, a matéria com a qual compuseram o tímido animal era o frágil barro e pouco restou à derradeira obra que impusesse o domínio sobre o restante da criação. A solução de Prometeu era singular. Roubar o fogo dos deuses e, com ele, dar ao homem a maior de todas as fortunas. Entretanto, um roubo desta envergadura não passaria despercebido no Olimpo. O julgamento de Prometeu foi rápido e o castigo, duradouro. Preso no Cáucaso teria um corvo diariamente devorando seu fígado, que igualmente se regeneraria, numa cena que deveria perdurar por trinta mil anos.

A criação de um modelo contemporâneo de político brasileiro tem suas analogias com o mito. Feitos de matéria cada vez mais frágil, do barro ao papel, os mandatários poderiam buscar sua força e o poder de fazer naquilo que é condição essencial do processo democrático, a representatividade. Entretanto, é assustadoramente numerosa a quantidade de envolvidos no assalto ao Olimpo. Preferiram roubar o fogo sagrado e com ele tentar criar uma espécie suprema de inatingíveis, invulneráveis e indestrutíveis: semi-deuses acima de tudo e todos.

Se a justiça será tão eficiente quando o julgamento de Zeus não é certo, assim como o castigo. Nada do que foi revelado até o momento pode ser considerado surpresa no Brasil, a não ser que a pessoa nunca tenha lido um livro de história ou vivenciando uma eleição. E justamente por não ser surpresa, o que nos sobra é apenas a sensação de decepção pelo fato de Prometeu não ter sido cuidadoso o suficiente para não deixar o rastro das chamas roubadas incendiarem toda a terra. Nosso ódio é pela corrupção que não deu certo, que não manteve a estrutura que beneficia do pequeno ao grande ereta.

Talvez seja por isso que a esquerda peça o retorno de quem sempre soube lidar com os deuses de modo que eles não se sentissem propriamente roubados, mas participantes de um grande investimento que traria benefícios a todos. Talvez seja também por isso que o atual presidente venha decepcionando tanto, pois resolveu roubar o fogo doméstico para levá-lo aos céus. Roubou do homem em favor dos deuses e eles, caprichosos, não perdoaram ironicamente sua pretensão de subir ao monte sagrado.

Se Hesíodo estivesse vivo, teria uma excelente oportunidade de contar uma história intrigante: a das delações que entregam o caráter de um povo que, para eleger um corrupto, se olha no espelho como um Narciso apaixonado pelo que vê.

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