Paulo Cotias

Historiador, Mestre em Educação. Professor Universitário.

11/06/2017

De quem é a culpa?

Parece ser um consenso que a educação brasileira precisa de modificações profundas. Tenho lido e ouvido bastante a respeito e os argumentos que me chegam parecem ser ao mesmo tempo válidos na concepção, mas injustos na forma.

Válidos porque é um fato consumado que o modelo de escola brasileira faliu frente às demandas da contemporaneidade. É necessário, senão urgente, a construção do pensamento educacional brasileiro, o que teoriza, cria e soluciona suas demandas a partir da sua realidade, tendo por base o lastro da ciência. O que teimosamente fazemos é o inverso, pois vivemos de releituras e adaptações das inteligências estrangeiras. É preciso romper com a vassalagem acadêmica. Do mesmo modo, não cabe mais o professor que temos. Ele precisa dominar as diferentes ferramentas tecnológicas e, além delas, dominar primeiramente as humanísticas, ou seja, assumir que seu fazer não se restringe meramente a transmissão de um conteúdo (isso qualquer site de busca faz com maior talento), mas a de encantar seu aluno ao oferecer a ele as chaves do como conhecemos, e de todos os componentes e experiências que nos fazem humanos.

Mas aí vem o lado injusto dessas constatações. A enxurrada de críticas acerca da escola, das aulas e do professor, quando decantadas em seminários, palestras, textos e seus congêneres, colocam a questão como algo a ser solucionado pelo ato e vontade do professor. Talvez seja por isso que nosso país progride a passos de cágado e toda e qualquer evolução se restrinja a clubes acadêmicos, círculos quase herméticos. O que os iluminados não lembram é que para ser bom não basta vontade. É desonesto culpar o trabalhador como se ele não tivesse vontade de progredir. É desonesto colocar todo o peso do progresso e da inovação nas costas de quem tem tão pouco para dar o start a tudo isso.

A injustiça, e prefiro considerar dessa forma para não pensar em desfaçatez, é sequer considerar que o aspecto principal para o desenvolvimento ou mesmo a transformação das nossas relações educacionais passa pela base material. Se tivéssemos unidades escolares em quantidade satisfatória, todas muito bem equipadas e concebidas, com salários justos e atraentes e distribuição de carga horária que contemple todas as dimensões do fazer educativo , aí sim eu poderia fazer coro aos que falam da culpa ou da necessidade de mudar como algo intrínseco e exclusivo a vontade dos docentes. Mas a crítica de maior volume parte, quase sempre, de quem deveria estar concedendo essa base. Mas não concedem e preferem transferir a responsabilidade das inovações ao exaurido professor.

Duro é ver o professor pago para falar isso para outros professores (e fica claro que é como um ator, um intérprete do que não vive). Duro é saber que a mudança é uma condição de empregabilidade na qual você oferta o novo e recebe o velho mínimo. Duro é constatar que nossas gerações vão sendo prejudicadas , sobretudo as das classes populares.

Mas se tudo der errado, culpe o professor. E se der certo, enalteça o modelo.

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20/05/2017

Roubo dos Deuses

Prometeu e Epimeteu haviam recebido uma tarefa de grande importância dada pelos deuses: a criação de todos animais. Todos receberam seus dons e características que dispensam maiores considerações. A uns sagacidade; a outros garras, força e assim por diante. Tudo ia bem até a hora de se constituir o homem. Esgotados os melhores recursos, a matéria com a qual compuseram o tímido animal era o frágil barro e pouco restou à derradeira obra que impusesse o domínio sobre o restante da criação. A solução de Prometeu era singular. Roubar o fogo dos deuses e, com ele, dar ao homem a maior de todas as fortunas. Entretanto, um roubo desta envergadura não passaria despercebido no Olimpo. O julgamento de Prometeu foi rápido e o castigo, duradouro. Preso no Cáucaso teria um corvo diariamente devorando seu fígado, que igualmente se regeneraria, numa cena que deveria perdurar por trinta mil anos.

A criação de um modelo contemporâneo de político brasileiro tem suas analogias com o mito. Feitos de matéria cada vez mais frágil, do barro ao papel, os mandatários poderiam buscar sua força e o poder de fazer naquilo que é condição essencial do processo democrático, a representatividade. Entretanto, é assustadoramente numerosa a quantidade de envolvidos no assalto ao Olimpo. Preferiram roubar o fogo sagrado e com ele tentar criar uma espécie suprema de inatingíveis, invulneráveis e indestrutíveis: semi-deuses acima de tudo e todos.

Se a justiça será tão eficiente quando o julgamento de Zeus não é certo, assim como o castigo. Nada do que foi revelado até o momento pode ser considerado surpresa no Brasil, a não ser que a pessoa nunca tenha lido um livro de história ou vivenciando uma eleição. E justamente por não ser surpresa, o que nos sobra é apenas a sensação de decepção pelo fato de Prometeu não ter sido cuidadoso o suficiente para não deixar o rastro das chamas roubadas incendiarem toda a terra. Nosso ódio é pela corrupção que não deu certo, que não manteve a estrutura que beneficia do pequeno ao grande ereta.

Talvez seja por isso que a esquerda peça o retorno de quem sempre soube lidar com os deuses de modo que eles não se sentissem propriamente roubados, mas participantes de um grande investimento que traria benefícios a todos. Talvez seja também por isso que o atual presidente venha decepcionando tanto, pois resolveu roubar o fogo doméstico para levá-lo aos céus. Roubou do homem em favor dos deuses e eles, caprichosos, não perdoaram ironicamente sua pretensão de subir ao monte sagrado.

Se Hesíodo estivesse vivo, teria uma excelente oportunidade de contar uma história intrigante: a das delações que entregam o caráter de um povo que, para eleger um corrupto, se olha no espelho como um Narciso apaixonado pelo que vê.

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25/11/2016

Politicando... 25/11/2016

O Ataque

O coração do governo Marquinho passa certamente, em especial no primeiro ano, pelo conjunto de secretarias composto pela Fazenda, Administração, Saúde e Educação. Resolvidos os grandes problemas estruturais, organizacionais e orçamentários que hoje, sem dúvidas, são os sintomas mais agudos da paralisia de Cabo Frio, o horizonte de eventos começa a ficar mais limpo.

O Meio de Campo

As demais secretarias e setores, sem diminuir sua importância, atuarão no background, administrando um cobertor curto que demandará uma boa dose de criatividade, parcerias privadas e diálogo público. A demanda não será pequena. Muitas reformas, necessidade de incrementar ou mesmo reativar programas sociais, ordenar e organizar o espaço público, a mobilidade e, sobretudo, planejar e prepara a cidade para efetivamente viver de recursos próprios.

A  Zaga

As secretarias e demais órgãos responsáveis pelos aspectos políticos e jurídicos também terão forte demanda. Nunca é e nunca será fácil. Conciliar conflitos internos e preparar-se para combates externos e, acima de tudo, manter a máquina e o grupo coesos, será o ponto um da agenda.

Os Jogadores

A escalação agradou a torcida. São nomes em sua maioria experientes e com um bom histórico de atuação. Tem tudo para dar conta do recado.

O Técnico

Sabe por um time em campo para jogar. Sabe dar liberdade de atuação e colher os louros da vitória na medida certa. Já mostra que entendeu o recado da torcida por uma administração diferente. Continuando nessa batida, vai dar trabalho para os adversários.

E os Adversários?

Vão fazer o de sempre. Ser adversários. Claro que uns vão sentar na torcida e até tentar assistir o jogo da beira do gramado. Outros vão atazanar o governo o quanto puderem e uns poucos farão o que se espera de um adversário, que aponte erros e que fiscalize decentemente a situação, além de propor algo que faria melhor se governante fosse.

Caixa Dois

Ao que parece a anistia geral ao caixa dois é mais uma questão de sobrevivência coletiva dos eleitos do que um debate sobre filigranas jurídicas. Em tempos embaraçosos onde os pecados mortais e veniais dos altos escalões têm sido postos à confissão pública forçada, é algo que certamente vai causar mais dúvidas do que certezas. Se continuar nesse pique pode nem sobrar gás para 2017 no plano federal e estadual no caso do Rio de Janeiro.

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18/11/2016

Politicando... (19/11/16)

Transição

Há que diga que em Cabo Frio a questão não é a transição, mas a “transitividade”. Expliquemos: Fazendo analogia com a boa e velha gramática, a transitividade pode ser direta, indireta ou intransitiva. Uma coisa é certa, quanto mais complementos melhor para compreender a situação precária que se instalou na cidade e, mais importante ainda, como sair dessa “sinuca de bico”. O que a população, em especial o funcionalismo público, mais espera e deseja é que a maturidade política prevaleça.

Câmara

A câmara de vereadores de Cabo Frio bebe do veneno que ela mesma destilou. Apequenou-se ao ponto de não ser reconhecida. Nessa microscopia, as lentes miram o futuro ao invés do presente e a disputa pela presidência de uma legislatura que sequer tomou posse virou o assunto mais comentado. E o que temos no horizonte de observação? Simples e complexo ao mesmo tempo. Em foco a longevidade de um grupo político que também mal volta ao poder e já ensaia os personagens do seu próprio futuro. O resto é cauda de cometa. Claro que muita água passará por debaixo da ponte, mas em política nada é prematuro o bastante para ser desconsiderado.

Oposição Criativa

Já que estamos hoje tão enamorados da nossa língua materna, vale lembrar que meio político é campeão em matéria de contorcionismo semântico. “Oposição dialógica”, “oposição construtiva”, “oposição harmônica”, “oposição propositiva”, “oposição responsável” e outras tantas mais, são maneiras de dizer o que não pode ser dito: que as tintas do discurso engrossam ou afinam conforme os espaços abertos na situação para a oposição transitar (na melhor das hipóteses), isso quando não degenera de vez para a “oposição chantagista”. Há que diga que eram felizes os tempos que oposição era apenas oposição.

Cabral e Garotinho

O caso me lembra um trecho do poema de João Cabral de Melo Neto: “somos muitos Severinos, iguais em tudo na vida”... Presos por razões distintas, mas dentro de mesma lógica: A que organiza o modo de se fazer política no Brasil. E o que acontece em Brasília ou nos Estados também acontece nos milhares de municípios. Só muda a escala e os personagens. Há mais “Severinos” como os dois ex-governadores.  Um dia santos de romaria, agora, santos do pau-oco. As investigações prometem mais algumas novidades em breve. Resta ao PMDB saber se reconstruir nos escombros. Vão mesmo precisar de novos caciques para a tribo.

Temer

Se a Andrade Gutierrez causou um furacão Classe 5 no Rio de Janeiro, no Planalto os ventos chegaram mais amenos e favoráveis, com direito a mudança de depoimento para deixar claro que não houve propina para a chapa Dilma-Temer... Está difícil fazer a omelete sem quebrar todos os ovos.  Pelo sim, pelo não, vai ser quente a disputa pela presidência da Câmara dos Deputados, a posição que está na linha direta de sucessão ao trono, caso algo aconteça...

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