João Pequeno

Editor de Brasil do jornal Destak e repórter, com passagens por O Dia, JB, Terra e Folha de S.Paulo

12/07/2016

Pleno emprego

O empregado chegou à fábrica de colchões em Rio Claro (SP) e o que viu pendurado não foi uma encomenda, mas o corpo pendular do, agora, ex-patrão. A testemunha do suicídio de Luís Antônio Scussolino, 66, fora um dos 870 funcionários a escapar da demissão em massa de 223 empregados. Não escapou da cena, com o peso de um empresário se enforcar em meio à depressão econômica que ele não fabricou.

A Grande Depressão que sucedeu a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, ganhou o nome da doença que leva a suicídios. Dar cabo da própria vida ficou bem mais comum naquele tempo da histórica americana – como em tantos casos clínicos, precedido de euforia. Por aqui no Brasil, o mito do pleno emprego foi soprado com a bolha estatal que, em uma década, elevou o crédito de menos de 25% para mais de 50% do PIB. Junto com as fraudes nas contas públicas, seu estouro reduziu em 3,8% o PIB em 2015 e levou ao recorde de mais de 1,5 milhão de demissões – que continuam.

Luís Scussolino negociou para reduzir jornada e salários, mas o sindicato, sob pretexto de proteger os trabalhadores, não aceitou a proposta e 223 deles passaram a não ter salário nenhum. Enquanto o corpo do empresário era velado, dois ladrões invadiram a casa onde ele morava e roubaram dinheiro e joias de sua família. Nenhum deles foi preso. Secretário municipal de Economia e Finanças de Rio Claro, Japir Pimentel lamentou a queda na arrecadação da prefeitura.

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18/05/2016

Precisamos falar da crise

Agora pode. Foi o que disse, rindo, a uma amiga que contara ter batido panelas contra Michel Temer no domingo. “Sempre pôde, a diferença é que desta vez, eu participo”, respondeu-me, atestando minha razão: não há de quê, só de quem ou de que lado. Quem impinge ao presidente interino tudo o que há de pior é quem praticou, por meses, o que ele fez de pior ao assumir o Planalto.

Dizer que “a partir de agora, não podemos mais falar em crise, trabalharemos”, como fez Temer, divide a janela do tempo com os que, até então, acusavam quem ia contra Dilma e PT de pegar na panela pela primeira vez, no lugar da empregada. Simultaneamente, citavam filigranas, tipo bar cheio no sábado, para menosprezar a crise – e os cerca de 2 milhões que perderam empregos desde o ano passado, só em vagas formais.

A declaração do ministro da Saúde, Ricardo Barros, de que o SUS pode não atender a todos só choca quem acha que um dia ele já atendeu ou que atenderia. Quem não crê nesses contos de fadas estatais torce é por mais sincericídios como do ministro da Fazenda Henrique Meirelles, admitindo que o desemprego oficial (10,9% no 1º trimestre) pode subir até 14%. Sob Dilma ou sob Temer, maquiar a crise é pedalar os fatos como atores ricos interpretando um coup d’état em Cannes. Uma versão agradável, mas tão verdadeira quanto as contas do governo Dilma – a cuja reprise ninguém mais quer assistir.

(Publicado originalmente no jornal Destak em 18 de maior de 2016)

Faixa-bônus: vale a pena ler o conto do advogado Rafael Rosset sobre o que um francês perguntaria a um brasileiro sobre o "coup" (sic):

Um francês observando o tapete vermelho de Cannes vê um ator brasileiro segurando cartaz onde se lê "un coup d'etat a eu lieu au Brésil". Atônito, ele pergunta à pessoa ao lado, que por coincidência também é um artista brasileiro com uma camiseta do Che:

- Que absurdo, aqui ninguém ouviu falar de um golpe de estado no Brasil! É verdade isso?

- Sim, claro. Acabaram com a democracia no Brasil.

- Mas houve presos políticos? Manifestações contra o governo reprimidas?

- Não, na verdade muita gente saiu às ruas pra apoiar a presidente apeada, e ninguém foi preso.

- A imprensa foi censurada? Jornalistas expulsos?

- Não, na verdade vários blogs, revistas e jornais se posicionaram abertamente a favor da ex-presidente, e ninguém foi censurado.

- E a presidente, foi detida?

- Na verdade ela agora está morando num palácio de 7.000 metros quadrados, reformado há 10 anos ao custo de quase US$ 20 milhões, com direito a uma equipe de 80 pessoas, segurança institucional e avião da Força Aérea à sua disposição.

- E o judiciário? O habeas corpus foi suspenso, certo?

- Não, na verdade quem determinou o rito do impeachment foi o Supremo Tribunal Federal, e o novo presidente foi empossado pelo Tribunal Superior Eleitoral, cujo presidente inclusive foi advogado do governo antes de ser juiz. - Ah...

- Mas olha vários países estão denunciando o ataque à democracia no Brasil, viu? Cuba, Venezuela, El Salvador...

- Você quer dizer aqueles países que mantém presos políticos, reprimem violentamente manifestações contra o governo, censuram a imprensa e expulsam jornalistas estrangeiros, aparelham o judiciário e ou não fazem eleições livres há mais de meio século ou não permitem que observadores internacionais independentes acompanhem suas eleições?

- É.

- Com licença amigo brasileiro, acho que ouvi chamarem meu nome em algum lugar, preciso ir.

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16/03/2016

A Babá e a babaquice

Jamais foi tão amarga a cerveja nas mesas de bar descoladas mas o porre dialético é essencial à manutenção da fé . À minha frente, seis membros de seita. “STF é nosso”, diz um, aos companheiros de rebanho ideológico, enquanto o garçom os serve.

Na ausência de respaldo real, uma alegoria serve à fantasia de quem acha que defende O Povo. “Emblemático!”, brada militante ante à foto de uma babá preta cuidando dos filhos de um casal branco indo protestar.

“Profissão somente em país com tradição escravocrata como o Brasil”, diz um amigo que nunca deve ter visto “The Nanny”, série dos EUA onde babás e empregadas domésticas têm carros e, muitas vezes, casas próprias – que ele próprio não possui.

Ao mesmo tempo, esse mesmo cara, sempre a favor do governo companheiro dO Partido, defendeu a importação de médicos cubanos com a maior de seus pagamentos retidos pela ditadura da ilha e restrições ao direito de ir-e-vir – é simples entender o que está mais longe de um regime de trabalho livre.

Pior ainda para quem faz do governismo seu ganha-pão. “Foi uma manifestação de brancos numa nação negra”, cometeu o apresentador de programa Paulo Henrique Amorim – logo ele, condenado pelo crime de injúria racial. Cuidar de filhos é trabalho digno, seja a babá de Ipanema ou a que ficou cuidando da filha dele, coforme ótima reportagem de Bruno Alfano no “Extra”. Sinal que o pagamento valeu a pena.

O mesmo vale para os camelôs que ganharam um extra no domingo – não para quem vive de bajular o governo. Como a babá disse a um desses, “vá procurar uma lavagem de roupa”.

(Publicado originalmente no jornal Destak de 16 de março de 2015)

 

 

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09/03/2016

O país não está dividido

Surgido “40 minutos antes do nada”, nas palavras de Nelson Rodrigues é invocado hoje, na ânsia de segurar resultado aos 40 do 2º tempo, por gente bem menos brilhante. A relação do clássico com atuais casos político-policiais é tão verdadeira quanto o ex-presidente ao dizer “eu nunca me recusei a dar depoimento”, uma semana após pedir (e conseguir) habeas corpus para... não ir depor. 
Após dizer que “tudo é feito de maneira muito midiática”, Lula convocou coletiva, transmitida ao vivo da sede do PT, para reclamar da condução na qual o juiz Sérgio Moro proibiu filmagens. “Vão ter que me enfrentar nas ruas”, ameaçou, seguido por aliados que prometem enfrentar nas ruas os atos pró-impeachement de domingo. Exemplo: Joaquim Crispiniano, petista de Natal, tuita que “não se pode esperar (...) para começar a virar e queimar carros da imprensa”. Não é um qualquer, mas diretor-geral da Fundação José Augusto, braço da Secretaria de Cultura do RN. Segue tranquilo e favorável no cargo, enquanto Moro recebe ameaças de morte.
Líder do governo, o senador José Pimentel (PT-CE) diz que “acirramento político coloca em risco a democracia”, enquanto Dilma acusa oposição de “dividir o país” – agora que atribuir protestos à “elite” (contra a Odebrecht?) não cola mais. Não há acirramento político nem país dividido. Há quase 90% impacientes com quem que lega recessão e cultiva relações com esquema criminoso. E há poucos partidários que chamam esses criminosos de “guerreiros do povo brasileiro”.

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