Fernanda Carriço

Um blog dedicado a todos os sabores irresistíveis da gastronomia

17/06/2017

Sobre comida, dons, desperdícios e outras coisas mais

Cada dia me convenço mais que escrever sobre comida é uma das minhas mais novas missões nessa vida. Nada é por acaso. É como se em algum de- terminado momento da vida, você escutasse um chamado e o seguisse por intuição. Foi assim que aconteceu. Não lembro bem o dia que resolvi escrever minha primeira crônica sobre gastronomia. Mas ela existe e, por mais que não me recorde da motivação para fazê-la, o texto cumpriu seu papel de abrir caminhos para algum caminho que não imaginava que existisse. E ele não só existia, como segue ampliando horizontes há aproximadamente seis anos. Onde ele vai dar, eu não tenho a mínima ideia. Mas sei que ele tem os seus objetivos traçados. Destino? Quem sabe...

Tenho refletido muito sobre as minhas missões nessa área da comida e literatura e, por mais que não me sinta perdida, sinto que ainda não sei onde piso e que sementes exatamente tenho plantado. Sei que quero que comamos melhor, que a gente consiga abolir o desperdício, que a gente não torne fugaz o que é primordial para a nossa existência, que é o que a gente ingere e como ingere. De onde vem o que comemos? Por sorte, cada vez que este tema ganha mais espaço na sociedade e eu quero sim ser uma das pessoas que participa do movimento por um mundo onde comamos alimentos mais saudáveis, sem agrotóxicos, sem transgênicos, sem porcaria. E sem desperdício, claro. Mas qual meu papel exato, ainda não sei. Na vida também devemos nos deixar levar por intuições e eu vivo coladinha com as minhas.

Hoje caminhando para o trabalho vim com os passos menos largos e sem estar com o tempo na corda bamba, me fazendo correr desesperadamente e não perceber nada que esteja à minha frente. Como escrevi semana passada, a falta de tempo é uma doentia opção dos tempos ‘mudernos’. Mas hoje vim com calma e observando cada detalhe ao meu redor. Mas me perdi mesmo foi nos meus pensamentos. Estava refletindo sobre o movimento da comida e literatura na minha vida. Cortei para a escrita e por lá me perdi. A cada passo para frente, em direção à sede da Folha, minha mente caminhava para trás e me levou aos tempos em que sentia a terrível agonia de imaginar que nunca saberia escrever ou saber o significado de todas as palavras do vocabulário popular. Sim, este medo me perseguia durante um tempo. Ficava aflita em aulas de tempos verbais, e depois delas, por achar que nunca saberia lidar com as palavras. Aquele medo de aterrorizava na infância.

Também lembrei do medo que senti quando a professora da antiga alfabetização falou que aprenderíamos a escrever nossos nomes. Meu pai, que pavor! Canhota, mal conseguia segurar o lápis, e morria de vergonha de fracassar na frente da turma. Dormi e sonhei com isso. Não sei de que maneira cheguei na turma no outro dia e, mesmo antes da professora me ensinar, havia escrito meu nome. Guardo comigo até hoje a satisfação e orgulho que seguiram aquele dia.

Perdidas nestes pensamentos e no que exatamente escreveria aqui neste espaço hoje, chego à redação e me deparo com todas as notícias do dia a organizar no jornal. Violência, política, problemas. Diante da tela do computador, coloco um jazz para deixar a redação num clima de fim de jornada da semana.

Penso nos documentários sobre comida, alimentação e na comida que preparei para os meus e para mim. Penso em quem não teve o que comer e em quem teve e desperdiçou. Penso em quem pegou comida no lixo e em quem não teve nem o lixo para remexer. Penso na terra e me recordo das sementes de tomatinho que joguei e que em menos de três dias já se exibem para mim. Penso em dom e sorrio com a possibilidade de estar descobrindo mais um, que é o de plantar, afinal, mesmo cercada por prédios, tento transformar minha varanda em horta e me surpreendo a cada dia com o poder das plantas. Sorrio. Sinto gratidão. Me sinto feliz por estar alimentada e por estar plantando boas sementes: na terra e na vida. Sigamos.

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11/06/2017

Rico é quem tem tempo!

Eu tenho uma amiga advogada que conseguiu uma proeza. Largou o escritório, saiu da loucura do vai e vem do Centro do Rio e da vida na capital e foi morar perto do mar. Ela e a linda família que construiu. Às vezes passa na minha timeline alguma foto dela cuidando do jardim, levando o filho para praticar esportes, sorrindo. Ela sempre teve um sorriso largo e encantador. Mas agora está mais radiante que nunca. Dia desses ela fez um post que me chamou a atenção: “Hoje consegui responder todas as mensagens de felicitações pelo meu aniversário. Rico é quem tem tempo”. Fiquei envergonhada de ler porque pensei na hora que até hoje não consegui ter tempo para responder as lindas mensagens que recebi no meu aniversário (e foi em abril). Entendo o motivo da beleza da minha amiga estar latente, ela tem o que poucos têm: tempo.

Poucas vezes na vida me alimentei tão mal quanto nesta semana. O motivo? O tempo, ou melhor, a falta dele. E não tem nada mais desagradável para uma cozinheira do que ‘comer qualquer coisa’ para matar a fome. Que sensação desagradável, gente. Não troco meu almoço por nada, mas nestes dias muito corridos, tive que trocar por um salgado, um sanduíche, um biscoito. Triste. Na verdade, constrangedor confessar isso. Hoje mesmo enquanto escrevo, tenho ao meu lado um salgado integral de ricota com brócolis. Tá, alguns vão dizer que é integral e era de ricota com brócolis. Mas é um salgado e não um prato de comida. E não consigo ficar satisfeita se não sentar para comer uma boa comida. Nada substitui o feijão nosso de cada dia. Mesmo tendo comido pouco e mal, certamente devo ter engordado, porque comi o que chamamos de besteiras.

Especialistas são unânimes em afirmar que a falta de tempo para comer é uma das maiores responsáveis pela crescente obesidade. Mas é muito mais que isso. É além do peso e medidas. É a gente diminuir um tempo fundamental, que é o tempo da troca. Sei que a tendência é que cada vez mais as pessoas deixem de sentar à mesa. Em muitos lares isso nem existe mais, cada um faz a refeição a hora que dá ou então cada um pega o prato e vai para o seu canto. Que tristeza. Dizem que comida é feita para ser partilhada e desde os primórdios este é um dos momentos mágicos da humanidade. Mas a cada dia perdemos um pouco mais deste momento revigorante. Dia desses estava pensando no quanto sou grata por ter uma família que se reúne todos os dias para almoçar e jantar. Eu não faço parte desta rotina e integro a porcentagem de pessoas que come sozinha na maior parte das vezes. Mas quando vou lá, sinto o qual é importante o ritual na vida deles e na minha quando dá para participar. Cada um tem o seu lugar certo à mesa, existe uma rotina que é respeitada. Ali se fala sobre o que aconteceu no dia, sobre a comida, sobre a vida. Momentos que me refazem e que vejo o quanto são fundamentais para a família. E toda vez que saio de lá questiono o meu tempo, o que faço com ele e o quanto tenho que dividi-lo melhor, priorizando o que amo, quem amo e a mim mesma.

ORAÇÃO AO TEMPO (Caetano Veloso)

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo
Quando o tempo for propício
Tempo Tempo Tempo Tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo Tempo Tempo Tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo Tempo Tempo Tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo Tempo Tempo Tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo Tempo Tempo Tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo Tempo Tempo Tempo

 

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31/05/2017

A história de Sara

Sara foi criada no campo. No interior de uma das muitas belas cidades do Brasil, cresceu em meio a pés de laranja, goiabas, jabuticabas e muito verde. Cafezais, hortas cheirosas, vacas, bois, galinhas, patos. Ela tinha tudo o que precisava para comer no dia-a-dia. Aliás, ela tinha mais. Ela tinha uma vida sem agrotóxicos. Ela tinha uma vida sem conservantes. Sara tinha toda a energia do mundo e a mesma não vinha do açúcar refinado – aliás, ela quase não o usava pois os sucos naturais eram mais doces que o mel. E por falar em mel, a família dela também mantinha uma produção do néctar dos deuses nas terras que possuíam.

A pequena Sara não tinha tecnologia. Não sabia de jogos ou redes sociais. Não tinha a mordomia de uma televisão de 40 polegadas, mas a que tinha dava para sintonizar em algum canal com amenidades. Mas Sara também não tinha tanto tempo. Estudava de manhã e quando chegava da escola costumava se perder no meio de tantas terras, árvores e bichos. Costumava dizer que o porquinho Zé era o seu melhor amigo e o poupava das matanças. Havia crescido com ele e nutria um grande amor pela sua companhia. Parecia seu cachorrinho de estimação, onde um estava o outro ia atrás. Corriam e Zé às vezes parecia sorrir de tanta alegria por estar ao lado dela.

Mas o porquinho Zé não era o único. Os pais da pequena morriam de orgulho da cria. Trabalhadora, responsável, Sara adorava ajudar a mãe nos afazeres domésticos e o pai nos da roça. Espalhava muita alegria ao se sentir útil em seu mundo. Era de fato uma menina especial pois, no alto dos seus 10 anos, nunca havia repetido de ano; não fazia malcriação e tinha gratidão por tudo. Adorava aprender a cozinhar com a mãe. Fazia bolos, ajudava a mexer o tacho, sempre cheio de alguma gostosura, e se divertia ao transformar produtos em alimentos gostosos. Depois da escola, que ela adorava, era a hora do dia que mais curtia: a que estava junto à mãe no fogão à lenha. Assim, Sara teve uma infância e adolescência muito saudáveis e felizes.

Mas um dia ela cresceu e precisava ampliar os horizontes do saber. Foi para a cidade grande para cursar a faculdade de agronomia. Não entendia tanta presa, estresse, fome, violência. Sara sofria dia-a-dia por tudo o que via. E o que comia também. Como não podia mais colher o alimento, Sara passou a comprar em prateleiras de supermercados o que consumia. O organismo reclamava, ela perdia peso e o prazer em comer. Para ela, os alimentos não tinham gosto. Sempre lembrava do puro sabor que o acompanhou a vida toda e que agora fazia-lhe tanta falta. Sara não se adaptava à cidade grande e adoeceu. Imediatamente, seus pais a levaram de volta para a roça. A faculdade podia ficar para depois, a saúde era prioridade.

Sara voltou para a companhia da terra verde que a cercou durante toda a vida. Ali estava o remédio que precisava: alimentos frescos, sem química e com gosto de alimentos de verdade. Não demorou muito para que a jovem recuperasse as forças e voltasse a ser forte como sempre foi. E ao recuperar a saúde, Sara, com seus 20 anos, havia tomado uma decisão: dali não mais sairia. Havia colocado na cabeça que os moradores da cidade grande nada sabiam sobre o sabor e o poder dos alimentos e que ela, dali por diante, iria ter como missão na vida falar sobre a importância dos alimentos puros na vida do ser humano.

Virou uma grande palestrante e produtora de alimentos orgânicos e encabeçou dezenas de projetos que tinham como premissa promover a dignidade na alimentação. Sara foi bem sucedida em tudo o que fez porque o fazia com a convicção de que todos tinham direito a uma alimentação saudável.

A história seria linda se não fosse uma ficção. Mas certamente existem muitas Saras por esse Brasil afora e muita gente que precisa ter acesso a uma alimentação digna e pura. E espero que esse conto te faça refletir sobre valores, alimentação, cultura e amor.

*Ilustração: Quadro Eiete Tordin

 

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20/05/2017

Tem coisa boa na área

Eu sou moradora do Centro de Cabo Frio e como faço tudo a pé, costumo ficar por esses lados mesmo. Frequento os restaurantes daqui, sou figura fácil nessa área e tenho até dificuldades em ir para outros pontos da cidade porque minha rotina me prende ao Centro. Mas confesso que preciso ampliar os horizontes porque tem muita coisa bacana pipocando pelos mais diversos lugares da cidade. Não seria exagero afirmar que vivemos um boom da gastronomia e como é bom falar sobre isso. De poucas opções, passamos hoje a contar com as mais variadas e acompanhadas por uma evolução de qualidade. Que felicidade!

Eu já escrevi neste espaço o quanto acho que a gastronomia de Cabo Frio precisa melhorar. Mas hoje venho falar positivamente dessa mudança que venho percebendo em nossa cidade. A expansão, os novos espaços estão por todos os lados e com ótimas opções ( e preços).
A rua Porto Alegre, no Caiçara, já virou um point de boas opções. Aliás, de boteco maravilhoso que é o Bil’s Bar (amo o caldinho de feijão e aquela barriga de porco que só eles fazem na cidade), às atrações do Bar do Horto, pastelaria, mexicano, pizzaria...é muita opção reunida num só lugar. Um golaço para o bairro.

Em São Cristóvão, além dos deliciosos ‘podrões’ da madrugada oferecidos na Praça (e são ótimos mesmo), o Apetito Bistrô faz bonito nas pizzas e massas. Gosto muito de sentar ali, degustar um vinho e, naquele clima familiar, curtir a vida. No Parque Burle, o italiano Samuele carrega ótima fama na cidade, mas confesso que ainda não tive o prazer de conhecer (tenho mesmo que me desapegar do centro rs). Vi umas fotos de pratos pela internet e fiquei satisfeita com o esmero. Parece ser bom demais. Irei em breve.

E no Braga? Soube que o Botequim do Braga, mais conhecido como Bar do Junior, tem uma costela de deixar com qualquer um triste de tanta felicidade. Sequinha, desmanchando na boca, o dono só faz quando encontra carne de boa qualidade. E começa os preparativos no dia anterior. BBB (boa, bonita e barata), vale a pena conhecer. Também irei em breve, assim que o meu irmão Tomás Baggio pagar a promessa de me levar lá.
E a Avenida Henrique Terra, gente? Por conta do shopping, várias opções gastronômicas foram abertas na rua que até pouco tempo era deserta. Ontem estive por lá e fiquei muito feliz com o que vi e comi. Numa grelha na rua, os proprietários do Fênix Steak House preparam com cuidado hambúrgueres artesanais de tirar o fôlego. Curti. Os food trucks reunidos, hamburguerias, muitas opções bacanas ao longo da avenida. Vale a pena circular por lá.

Tudo isso sem falar no novo Polo Gastronômico da Passagem, que só vem para somar nessa nova realidade gastronômica da cidade. O Mané Paixão, ali há tantos anos, mantém o mesmo cardápio e oferece aquela sensação impagável: o mesmo prato que você provou anos atrás, se mantém lá com a mesma qualidade. Estava a um bom tempo sem ir e tive a grata surpresa do padrão de qualidade mantido. Muito bacana poder saborear o escondidinho e sentir gosto de saudade.

Novos points, novos produtos, novos sabores. É disso que uma cidade do porte de Cabo Frio precisa. Fato que ainda precisamos melhorar, mas agora estamos no caminho certo.

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