Fernanda Carriço

Chefe de reportagem da Folha dos Lagos e cozinheira.

11/10/2018

Brasil partido

Você pode até estar comemorando o resultado das eleições, ter elegido seus candidatos e estar ansioso à espera do segundo turno. Você pode não ter comprado briga diretamente com ninguém por posições políticas e não ter desfeito amizades na vida real ou na rede social. Você pode estar entre os 107.050.673 milhões de votos válidos, ou figurar entre as 29.941.265 abstenções. Ou também ter optado por votar em branco e fazer parte do time dos 3.106.936 brasileiros ou ter anulado o voto, como os 7.206.205 eleitores. Esteja em que campo for, no entanto, você faz parte de um país partido pela ‘guerra’ eleitoral de 2018.

A opção dos nordestinos lhes rendeu ofensas, xingamentos, preconceitos explícitos, o próprio renascimento da xenofobia (Definição Wikipédia: Xenofobia é o medo, aversão ou a profunda antipatia em relação aos estrangeiros, a desconfiança em relação a pessoas estranhas ao meio daquele que as julga ou que vêm de fora do seu país com uma cultura, hábito, raça ou religião diferente).

O #EleNão das mulheres rendeu porrada, discussões acaloradas, desrespeito à opção feminina de lutar pelo que acredita, crime cibernético de invasão da página mantida pelas mais de três milhões de mulheres e muita, mas muita demonstração de intolerância pelo sexo oposto ao dos machos. Triste país, que mata a cada duas horas uma mulher por feminicídio e que se vê agora com uma disputa inacreditável entre os gêneros.

- Tá certo, a mulher tem mesmo que obedecer ao homem e só fazer o que ele quer né? – disse um dia desses para um grupo de homens que criticava a opção das milhares que optaram pelo #EleNão.

- Não, o certo é vocês saírem peladas e fazerem o que querem – respondeu o senhor machista com os olhos cheios de ódio para mim.

A frase dele não foi exatamente essa e, confesso, fiquei atônita com aquele olhar de ódio do tal homem. Mas o fato aconteceu. Eu resolvi defender as mulheres e recebi ódio como resposta. Só quem é mulher entende o quanto dói ter que lutar para ter um espaço IGUAL que os homens neste mundo. Não somos melhores, tampouco inferiores.

Os homossexuais também foram alvo nesse processo eleitoral. Disse-me uma amiga, que optou por não votar, que estava balançada por causa do pavor que um amigo gay relatou estar vivendo. Ele teme que a ameaça, que é real, a sua orientação sexual seja reprimida, agredida. No feriado de Tiradentes, em um condomínio na Tijuca, no Rio, um casal foi espancado por 20 vizinhos simplesmente por serem gays. Foi preciso escolta policial para que saíssem vivos.

Na Bahia, um mestre de capoeira foi morto após declarar o voto depositado nas urnas.

A intolerância reina no país partido. E a culpa não é só dos discursos inflamados da política. A culpa está em cada um de nós que não sabe respeitar o outro e aceitá-lo como ele realmente é.  Sabe aquela história de criticar a rivalidade e violência entre torcidas como as do Vasco e Flamengo, por exemplo, mas na hora H agir com tamanha grosseria e violência por não torcerem pelo mesmo que você? É isso que tá rolando. O fanatismo nos cega e nos leva a abismos completamente obscuros. As cenas de violência, censura e intolerância se espalham como fuligem em nosso imenso território nacional.

Em tempo: A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo divulgou que somente neste ano foram registrados cerca de 137 agressões a jornalistas no contexto político-eleitoral. No total, 75 ocorrências em meios digitais (sendo 64 profissionais afetados) e 62 vítimas de atentados físicos. E não me venha falar em mimimi. O seu desprezo pela luta alheia favorece o crescimento da intolerância. Estamos partidos, mas ainda podemos nos juntar.

 

 

 

 

 

 

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03/10/2018

E o meteoro?
 

Eu estava caminhando pela minha rua em um raro dia de folga. Era sábado de sol, a última manhã do inverno. O clima típico de setembro, vento forte, sol entre nuvens, parecia mesmo a despedida de alguma coisa. Lembrei que o inverno se ia e agradeci em silêncio pela estação, já quase numa ansiedade típica pelo calor que virá nos próximos meses. Amo o vento da nossa região e, por mim, ele seria ainda mais constante. Quando comecei a pensar nos 40 e poucos graus que nos espera, lembrei que naquele mesmo dia, coisa de poucas horas, começaria a primavera. Sorri e segui com a Cartuxa (meu anjo de quatro patas nessa vida). Ela animadíssima porque eu falava que ia ver tio Thiago. Cartuxa sabe das coisas, dos nomes, das pessoas. Ama esse tio que cuida dela com amor de pai. Thiago é esse irmão que passeia com ela quando vou para a Pós Graduaçāo no Rio, fica com a chave da minha casa, sabe tudo de nós duas porque é das pessoas mais generosas, amigas e disponíveis que conheço. E Cartuxa sabe das coisas e quer ver o tio. Anda apressada (coisa difícil, já que a cada dois passos ela se joga no chão).

De repente Cartuxa se assusta e dá uma parada. Estamos em frente a uma árvore que fica na calçada oposta a dos Bombeiros. Olho com atenção e vejo duas mulheres e três crianças caminhando para a praia. Eu não tinha prestado atenção, mas Cartuxa viu e se incomodou. Quando entendi o desconforto, vi que uma das mulheres carregava uma prancha de body board (certamente para uma das crianças). Ela tinha uns 50 anos ou mais (ou menos). Não sei a idade, mas sei que ela chocou Cartuxa e a mim.

– Ela vai cair – batia insanemente com a prancha na flor da árvore.

Eu não acreditava no que via, tampouco Cartuxa, impávida. Ela batia na delicada flor com a prancha pesada para arrancá-la. Conseguiu machucar a flor, mas não a arrancou. Sequer olhou para mim e Tuxa, paralisadas com a situação. Emudecidas. Não consegui ter reação diante do que via: na frente das crianças que tinham entre 5, 6 anos, uma mulher tentava arrancar uma flor da árvore com porrada. Muita porrada. A flor, começando a se preparar para a festa da primavera que ela participaria a partir daquela noite, mais bela que o ano todo, resistiu às pancadas e, mesmo muito ferida, não deu o gosto da morte àquela senhora. Ela seguiu rindo, as crianças olhando, eu e Cartuxa também. Seguimos atrás e, para completar a imagem que aquela pessoa deixaria na minha mente, ouço ela com a amiga.

– Ah, tô de saco cheio dessa eleição, dessas brigas. Vou votar em quem meu marido mandar...

E o meteoro não vem nem a pau.

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19/09/2018

Tá osso

Hoje acordei sem paciência para esse momento louco que vivemos no país. As pessoas estão se odiando e estão cegas. Tão cegas ao ponto de negar fatos históricos, dados, tudo o que vá contra o que ela acha que está certo. Mesmo que a realidade seja outra. O que está acontecendo, gente? Fomos tomados por uma onda de esquizofrenia. Veja o que aconteceu na página da embaixada alemã no Brasil. Um grupo de brasileiros teve a coragem e a falta de vergonha na cara de atacar um vídeo sobre o nazismo postado pela embaixada. Para esses brasileiros, Hitler não era fascista, tampouco de extrema direita. Para eles, os fatos históricos do nazismo são mentira. Que vergonha. “Ensinam história? Como em 1976, que tiveram de criar uma lei para proibir qualquer um de contestar a veracidade do holocausto? Já que os especialistas na época estavam desmascarando essa farsa.”, escreveu um deles na página do Facebook. Outra pessoa ainda teve coragem de cometer outra ousadia: “Extremistas de Direita? O Partido de Hitler se Chamava. Partido dos Trabalhadores Socialistas. Onde tem Extrema Direita ?” (sic)”.  Não consigo crer nisso. Mas é real. É fato que o asqueroso e sanguinário do Hitler virou ídolo de uma meia dúzia de otários no Brasil.

Tenho vontade de não sair de casa. Tenho vontade de apagar 2018 não só da minha memória, mas do mundo todo. Passamos tanta vergonha este ano, que já poderia virar para 2019...Mas como será o amanhã? É desanimador pensar nisso diante de tanta ignorância, intolerância e extremismo.

No sábado estava almoçando com amigos da Pós Graduação, no Rio, e conversávamos tranquilamente sobre as eleições. Na mesa ao lado, eleitores de um certo candidato se acharam no direito de começar a responder a nossa conversa. Aumentaram o tom da voz. Tinham ódio para distribuir. Na nossa mesa, só amor e tolerância. Na mesa ao lado, vontade de guerrear. Percebemos a tensão e ignoramos. Continuamos a nossa conversa como se nada estivesse acontecendo. Terminamos o nosso almoço e voltamos para a sala de aula tranquilamente, mas chocados com o fato. Eles? Não sei. Não nos interessa o ódio. Falam de paz, mas querem conquista-la fazendo guerra. Falam que são contra a violência, mas a praticam. Tenso.

Tem sido assim. Tem sido difícil acreditar que chegamos ao ponto do fanatismo cego. Mas chegamos. O ódio e a paixão dão a tônica de um clima que domina esse cenário que antecede as eleições. E certamente esse cenário não será abrandado, saia o resultado que for.  Se um povo nega a sua história, e a do outro também, esse povo precisa de tratamento. E o melhor deles seria a leitura. A educação. Coisa que anda escassa por aqui.

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12/09/2018

Ranço

Faz frio. Gosto do tempo assim, apesar de precisar do calor e do refresco que um mergulho no mar me proporciona. Faz frio e eu fico feliz porque esse ventinho gelado pode refrescar a minha cabeça. O tempo não anda favorável para as mentes que precisam de tranquilidade. Mas o vento esfria e traz certa calma. Vou até a rua olhar o vai e vem das pessoas. Vejo uma mulher passeando com o cachorrinho. Não reparo no detalhe da camisa que veste quando ela passa. Mas quando ela volta, as letras garrafais saltam aos meus olhos: ‘ranço’.  No dicionário, o significado é claro: repúdio, raiva ou desprezo. Nunca na história desse país destilamos tanto mau humor e má vontade. E ódio. E intolerância. Que tristeza!

O ranço é o melhor retrato do país que vivemos nessas pré-eleições. Lutamos pela democracia e não sabemos conviver com ela. Não conseguimos aceitar que a liberdade de expressão é uma das bases desse processo. Liberdade de expressão:  “é o direito de qualquer um manifestar, livremente, opiniões, ideias e pensamentos pessoais sem medo de retaliação ou censura por parte do governo ou de outros membros da sociedade”, define perfeitamente a Wikipédia. Mas não sabemos lidar com ela. Que tristeza!

As redes sociais são um termômetro claro do sentimento que reina hoje.  Ódio. É tanto ódio que difícil escapar da depressão em tempos como os de hoje. Você acorda feliz, cheio de amor para distribuir, e se depara com os maiores absurdos que se possa ler. É ânsia de vômito na certa.  Mas, mesmo não concordando, precisamos respeitar a liberdade de expressão de cada um. Quem quer falar merda, que fale. Cabe a mim (a você) saber lidar com isso. Mas ofender as pessoas que usam da ofensa para defender suas ideais é lamentável. Não posso concordar com isso. Que tristeza!

Enquanto escrevo essas humildes linhas, as notificações do Facebook não param de chegar. Por curiosidade, interrompo o ofício e vou verificar. É briga. É intolerância ao pensamento contrário do seu. É ofensa; quase combinam uma porrada ao vivo para ‘resolver’ as diferenças. Triste. A agressividade é a tônica dos discursos da vez. Não conseguimos debater, argumentar, sem ofender. Que tristeza!

É 11 de setembro de 2018. Dezessete anos se passaram desde o ataque às torres gêmeas. O mundo mudou desde então. Mudamos todos. A data emblemática, da exacerbação do ódio entre as diferenças, nunca me fez pensar tanto. Volto ao Facebook e vejo um post da minha mãe. Não concordo sobremaneira com o que ela expõe. Mas é minha mãe e não consigo sentir ranço dela. Só sinto amor. Mesmo que ela pense tão diferente, defenda um candidato que em nada me agrada, respeito. Já conversamos, rimos, nos provocamos. Mas não tem intolerância e falta de respeito pelas ideias divergentes. Penso que só minha mãe mesmo seria capaz de me ajudar a ser ainda mais tolerante com as diferenças de ideologias.

É preciso aprender com as torres gêmeas e todas as vidas destruídas naquele episódio inesquecível. É preciso não vestir a camisa do ranço. É preciso não responder à altura de quem destila ódio. É preciso compreender que as diferenças estão aí por toda as partes e precisamos sim aprender a lidar e respeitá-las. Sem mimimi. Com verdade, com disposição de lutar pela paz e democracia. Armados com amor. E não com facas e armas de fogo. O tiro pode sair pela culatra...E quem perde é a democracia. Sempre.

 

 

 

 

 

 

 

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