Bernardo Ariston

Bernardo Ariston é bacharel em direito, jornalista e radialista.

12/02/2019

O que aconteceu com a nossa Saint-Tropez? 

O “Sol Seguro” foi, talvez, o mais inovador produto que o turismo de Cabo Frio criou em três décadas.  A iniciativa foi lançada nos anos 1980 pela Soltour, empresa de turismo criada pelos hoteleiros, e reunia os hotéis Malibú, Acapulco, Caribe, Helena, Porto Peró, Porto Veleiro e Marissol. O “Seguro”, que tinha validade de 1º de maio a 30 de novembro, garantia a devolução da diária aos hóspedes que tinham pacote mínimo de três dias fechado com,  pelo menos, uma semana de antecedência, caso chovesse durante cinco minutos seguidos, ente 9 e 15 horas. A aposta parecia ousada, mas se baseava em números que afastavam qualquer possibilidade de prejuízo. 
Cabo Frio, além das belezas naturais exuberantes, águas transparentes, areia fina e branca e cenários cinematográficos, tem o menor índice pluviométrico do Estado do Rio. Temos 283 dias de sol, em média, no ano. Paris tem 143. Roma, 195. Amsterdã tem 105. O Rio tem 212 e Fortaleza, acredite se quiser, 239. O que, infelizmente, não temos é uma política de turismo que nos aponte um norte, uma direção, um caminho para seguir capaz de transformar todo esse potencial em desenvolvimento, empregos e riqueza.
A visão tacanha e a incompetência dos prefeitos que governaram o município, e o atual, infelizmente, não foge a regra, só geraram destruição, favelização e a ocupação desordenada da cidade que um dia foi comparada a Sain-Tropez e já inspirou poetas, músicos, pintores e escritores, menos nossos políticos. A identidade arquitetônica da cidade foi destruída com a demolição dos casarões antigos; as tradições cabo-frienses se perderam com o tempo e a Praia do Forte, nosso principal cartão-postal, se transformou numa grande feira a céu aberto onde se compra e se vende de tudo, até um lugar ao sol.
Turismo é a indústria da felicidade. Quem viaja quer esquecer os problemas e ser feliz, mas para servir felicidade é preciso também ser feliz, ter orgulho da cidade. O cabo-friense não tem tido muitos motivos para se orgulhar. Ninguém pode ser feliz, muito menos servir felicidade, sendo obrigado, por exemplo, a passar a noite ao relento, numa fila, para conseguir atendimento médico. Sem qualidade de vida, emprego e segurança felicidade é uma utopia.
Qualidade é a melhor estratégia para assegurar a competitividade do turismo brasileiro, por isso, quando fui Deputado Federal apresentei o Projeto-de-Lei número 2.706/2003,   transformado na Lei n° 11.637, de 28 de Dezembro de 2007, que instituiu o Selo de Qualidade Nacional de Turismo no Brasil, cujo objetivo é  melhorar e definir os padrões de qualidade dos nossos serviços e engajar a todos no processo, porque todos nós somos responsáveis, individualmente, pela qualidade da estadia do turista no País, no Estado ou no município, desde o empresário dono do hotel até a vendedora de biquínis do Shopping Gamboa, o guarda municipal ou o garçom do restaurante do Boulevard Canal.
Números de 2017 do Ministério do Turismo, mostram que o setor foi responsável pela injeção de 163 bilhões de dólares no Brasil, o equivalente a 7,9% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no ano. O turismo, segundo estimativas, gerou 8 milhões de empregos ano passado.  Cabo Frio precisa, urgentemente, de uma política de turismo séria, elaborada em conjunto com empresários do trade, que crie áreas de interesse turístico com normas rígidas para preservar o que ainda nos resta, porque aqui o sol é seguro e, apesar de tudo, vai sempre brilhar o ano todo.
Em tempo: Estava em frente a TV zapeando e reconheço Cabo Frio numa novela. A cidade, desde “Sheik de Agadir” (1966) é cenário de produções da TV e do cinema. Lembro “Os Cafajestes”, de Ruy Guerra, com Jece Valão, Daniel Filho e Norma Bengell, que protagonizou, na paia do Forte, o primeiro nu frontal do cinema brasileiro, inaugurando o Cinema Novo. 
O filme, em preto e branco, mostra as salinas da Avenida Henrique Terra, o Cine Recreio, a Praia do Forte e a Avenida Jonas Garcia, ainda de terra batida, com seus prédio antigos. O passeio dos personagens pela cidade termina com uma constatação: “É a nossa Saint-Tropez”. 
Eu, Janaína e João, dia desses, num despretensioso passeio de carro pela cidade no fim de tarde, fizemos o mesmo roteiro mostrado no filme e uma pergunta não saiu da minha cabeça:  o que aconteceu com a nossa Saint-Tropez?

Deixe seu comentário
04/02/2019

Liberdade, liberdade!

A incompetência e o descaso dos nossos políticos fizeram Cabo Frio perder, em apenas dez anos, mais da metade (54,97%) do seu território. As emancipações de Arraial do Cabo, na década de 80, e de Búzios, nos anos 90, esquartejaram o território e a economia cabofriense e, embora tenhamos conseguido, desde então, manter intacto o que nos restou, o município corre o risco de ser ainda mais desfigurado pela emancipação de Tamoios e pela possível anexação de Maria Joaquina a Búzios.

O futuro é sombrio  porque, dificilmente,  a vontade legítima de um povo vai encontrar resistência na classe política.  Liberdade será sempre uma reivindicação legítima, embora não tenha sido o argumento principal  que levou os cabistas e buzianos a lutar pela separação do município mãe e, com certeza, não é o discurso que leva Tamoios a buscar a independência ou Maria Joaquina a sonhar em se tornar um bairro de Búzios. O combustível que  moveu o sonho no passado e move o sonho  do futuro é o mesmo: abandono.

Quando Arraial do Cabo iniciou a luta pela emancipação tinha metade da população que tem hoje, 30 mil habitantes - segundo estimativa  do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)  em 2018 - e uma economia fortalecida pela Companhia Nacional de Álcalis, que empregava dois mil trabalhadores e produzia 200 mil toneladas/ano de barrilha, utilizada na indústria de vidro. O orçamento de Cabo Frio somava cerca de 10 milhões de Cruzeiros  - a moeda da época - e o então, prefeito Alair Corrêa, prometia investir  metade do orçamento no distrito. A promessa  midiática e mentirosa jamais foi cumprida, apesar de Arraial, através da Álcalis,  contribuir com 60% da arrecadação de Cabo Frio. 

A falta de investimentos no serviços básicos e, novamente, o descaso do poder público com os buzianos levou o então Terceiro Distrito a trilhar o mesmo caminho. O grito de liberdade  ecoou já naquela época em Tamoios, que se uniu a Búzios para viabilizar a emancipação  de Cabo Frio num protesto legítimo contras governos que desprezaram, por décadas o balneário, que acabou emancipado sozinho. O sonho de emancipação de Tamoios se mantém vivo, embalado não só pelo indiferença dos  prefeitos e vereadores mas, também, pela distância do distrito da sede.  

A população de Tamoios se sente isolada, desassistida, ignorada. A emancipação do segundo distrito vai reduzir Cabo Frio a 112 quilômetros quadrados. Cabo Frio, de acordo com cálculos de especialistas, vai perder mais de 50% dos royalties. Não é discurso, nem boas intenções que vão sepultar - se é que é possível - o desejo de emancipação do povo de Tamoios, mas ações concretas que devem ir além de recapear ruas e pintar meios-fios.

As emancipações de Arraial do Cabo e Búzios podem não ter trazido as soluções que cabistas e buzianos esperavam quando foram as urnas dizer “sim”.  As duas cidades ainda enfrentam problemas básicos, mas  o destino de cada uma delas está nas mãos do seu povo. Liberdade e independência são o caminho para o crescimento. Por  outro lado  os discursos alarmistas dos prefeitos que previram a falência do município, também não se concretizaram, uma prova do total desconhecimento dos nossos políticos da realidade e do potencial de Cabo Frio.
___________________

Em tempo:  A minha vida toda morei em apartamento mas, agora, em Cabo Frio, descubro a liberdade de morar numa casa. A experiência tem sido revigorante, não só pra mim e para Janaína mas, principalmente, para o nosso filho, João. Eu e Janaína temos descoberto prazeres simples que só uma casa proporciona, como molhar as plantas e observar canários brincando no jardim. João está descobrindo que o quintal   - um espaço, infelizmente, em extinção nas grandes cidades - é um mundo cheio de alegrias e descoberta. Ver meu filho crescer com mais liberdade - o assunto que dominou esta coluna - me encoraja a dar um segundo passo que, certamente, ele vai adorar: adotar um cachorro.

Deixe seu comentário

Veja também

EXPEDIENTE

Rodrigo Cabral

Diretor

Fernanda Carriço

Chefe de Reportagem

fernanda.carrico@folhadoslagos.com

Redação, Administração, Publicidade e Assinatura

Avenida Francisco Mendes 226, loja 06, Centro - Cabo Frio - RJ

Propriedade da Sophia Editora Eireli - ME.

CONTATO

 

Redação

folhadoslagos@ig.com.br redacao@folhadoslagos.com
(22) 2644-4698 - Ramal 206
(22) 99613-2841 | (22) 99933-2196

Publicidade

(22) 2644-4698 - Ramal 215
(22) 99887-3242

Central do Assinante

(22) 2644-4698
(22) 99776-2956